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Primeira Guerra Mundial

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A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL EM ÁFRICA

A Primeira Guerra Mundial foi desencadeada por um conflito entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, iniciado a 28 de julho de 1914, que, aparentemente, podia ter permanecido no âmbito regional. A mobilização na Rússia, em apoio da Sérvia, desencadeou a mobilização na Alemanha e na França. Estes processos de mobilização foram efetuados de acordo com os planos existentes em cada potência e a Alemanha pôs em prática o Plano Schlieffen que previa que as forças alemãs atravessassem o território belga, uma potência neutral, para invadirem a França. A Alemanha, herdeira dos acordos internacionais firmados pela Prússia, era, juntamente com o Reino Unido e outras potências, garante da neutralidade belga de acordo com o artigo 7° do Tratado de Londres de 8 de junho de 1839. A invasão da Bélgica foi decisiva para o Reino Unido entrar na guerra. O conflito deixou de ser um mero confronto regional entre a Áustria-Hungria e a Sérvia para ganhar uma dimensão europeia. Mas também passou a ser um conflito entre impérios. A Alemanha, a França, o Reino Unido e a Bélgica tinham impérios ultramarinos. Portugal, que não entrou imediatamente na guerra, também tinha o seu império e tinha de acautelar a sua defesa. No Portugal republicano há quase quatro anos, economicamente débil e politicamente instável, existia pelo menos um ponto de convergência para a generalidade dos partidos: a manutenção do império.

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Planos de guerra

As ações militares da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) não foram iniciadas de forma inopinada, mas seguiram planos que as Potências envolvidas tinham desenvolvido. Estas ações militares foram precedidas de outras, aplicadas pelos respetivos governos no campo da diplomacia, mas também, a nível interno, na preparação das forças armadas e dos numerosos e diversificados recursos necessários para apoiar as ações militares. Nos acontecimentos que antecederam o desencadear da guerra, os atores principais foram os líderes políticos, mas competia aos militares, de acordo com as orientações recebidas do poder político, prepararem as forças armadas para as prováveis situações de conflito então identificadas. Em 1914, tal como acontece hoje, foi o poder político a decidir a guerra. Em 1918, da mesma forma, foi o poder político que decidiu o fim da guerra. Durante o conflito foi o poder político que providenciou os recursos necessários às suas forças armadas. Estes processos não são possíveis sem uma íntima ligação entre os líderes políticos e militares porque, quando a relação com os outros Estados se deteriora ao ponto de desencadear um conflito armado, são as forças militares que assumem o papel de maior relevo. Nas potências intervenientes na Primeira Guerra Mundial existiam regimes políticos muito diferentes. Só existia uma república, a França, mas as próprias monarquias apresentavam diferenças muito grandes, como eram os casos, por exemplo, da monarquia britânica, democrática, e das monarquias russa e alemã, autocráticas. Estas diferenças ditaram diferentes formas de relacionamento entre o poder político e a instituição militar.

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Planos de guerra da França

No início da Primeira Guerra Mundial, a França acionou o seu Plano XVII, idealizado pelo General Joseph Joffre (1852-1931), Chefe do Estado Maior General desde 1911. Este plano, que entrou em vigor em 1913, foi o resultado de uma evolução que começou após a derrota dos exércitos franceses frente às forças prussianas e seus aliados na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. A partir de então, houve um intenso debate sobre a construção de um conceito de Defesa Nacional para a França, dando origem a importantes reformas estruturais que incidiram principalmente sobre o modelo de recrutamento e a organização e metodologia do sistema de estados-maiores no Exército Francês [COSSON, 2014, «Foundation of the New Republican Army (1871-1879)»].

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Planos de guerra da Alemanha - a questão naval

INTRODUÇÃO

À semelhança das outras Potências europeias, a Alemanha desenvolveu planos para enfrentar as ameaças que identificou no contexto internacional da época e para atingir os objetivos que considerou fundamentais para assegurar a defesa dos seus interesses que, de forma crescente, se faziam sentir nas mais longínquas partes do mundo. Os planos em vigor no início da Primeira Guerra Mundial começaram a ser desenhados logo após a unificação da Alemanha (1871) e sofreram sucessivas alterações por forma a poderem dar resposta à evolução da situação internacional, também da situação interna, e para se ajustarem à evolução dos recursos disponíveis e das teorias táticas e estratégicas.

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Planos de guerra da Alemanha - o Plano Schlieffen

O IMPÉRIO ALEMÃO

A Alemanha foi unificada em 1871 na sequência da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), a última das Guerras da Unificação Alemã. A criação do Império Alemão - a Alemanha unificada - foi obra do ministro-presidente da Prússia, Otto von Bismarck (1815-1898), que passou a desempenhar, por inerência de funções, o cargo de chanceler do Império. O rei da Prússia assumia, nos termos da constituição, as funções de imperador da Alemanha. Guilherme I da Prússia, rei desde 2 de janeiro de 1861, assumiu assim o papel de imperador, a partir de 18 de janeiro de 1871.

O Tratado de Frankfurt, assinado a 10 de maio de 1871, punha oficialmente fim à guerra entre a França e a Prússia, então já parte do Império. Nos termos do artigo 1º daquele tratado, foi traçada uma nova fronteira entre a Alemanha e a França. O Império Alemão anexou o território que ficou conhecido por Alsácia-Lorena. Esta anexação foi considerada necessária por razões etnográficas e estratégicas. Grande parte da população daqueles territórios falava alemânico, um grupo de dialetos alemães, mas, apesar disso, rejeitou a anexação dos territórios. Numa perspetiva militar, esta alteração da fronteira deu à Alemanha uma região favorável à defesa contra futuros ataques franceses e também o controlo das fortificações de Metz e Estrasburgo. Também proporcionou aos alemães uma região rica em minério de ferro.

A anexação dos territórios da Alsácia-Lorena não foi uma decisão pacífica entre os próprios líderes alemães. Bismarck opôs-se inicialmente à anexação porque esta implicaria a permanente inimizade da França. Esta posição de Bismarck tinha já começado antes da própria Guerra Franco-Prussiana, numa das crises que surgiram relativamente à França: «Mesmo que tomássemos a Alsácia, teríamos que a defender, os franceses encontrariam novamente aliados e as coisas poderiam correr mal.» [TAYLOR, p. 107] Bismarck pretendia uma vitória rápida contra a França, seguida de uma paz e normalização das relações entre os dois Estados. No fim da guerra, em 1871, voltou a opor-se a esta anexação, mas a pressão do rei, dos militares e da opinião pública forçou-o a aceitar a alteração da fronteira. As razões militares sobrepuseram-se às razões políticas. De qualquer forma, foi criticado na imprensa alemã pela forma cortês como tratou Napoleão III. [TAYLOR, p. 127]

Após a anexação da Alsácia-Lorena, o Império Alemão ficou com 41.059.000 habitantes. Nesse mesmo ano, o Reino Unido tinha 26.072.000 e, no ano seguinte, a França tinha 36.103.000. Não existem estatísticas destas datas para a Rússia, mas esta era, sem dúvida, o Estado europeu mais populoso. Mais tarde, próximo da guerra de 1914-1918, a população alemã crescera para 64.926.000 habitantes em 1910, enquanto a França apenas tinha 39.192.000 em 1911 e o Reino Unido atingira os 40.831.000 nesse mesmo ano. Da Rússia, sabemos que tinha 126.367.000 de habitantes em 1897. [MITCHELL, pp. 20-24] Comparando os dados, entre as datas indicadas, relativos à Alemanha e à França, verificamos que a primeira cresceu quase 24 milhões de habitantes e a segunda apenas 3 milhões. Este fraco crescimento da população francesa era um fator importante que influenciava os efetivos dos exércitos.

 900px German Empire states mapFigura 1: Império Alemão 1871-1918. Imagem obtida em Wikipédia.pt, «Império Alemão» 

 

EVOLUÇÃO DO SISTEMA DE ALIANÇAS

A vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana e as consequências previstas no Tratado de Frankfurt, apesar de todas as vantagens invocadas para a ocupação da Alsácia-Lorena, criaram à Alemanha uma grande preocupação com a segurança do Império. A França perdera aqueles territórios e a vontade de os recuperar alimentou a ideia de revanche, que se desenvolveu em especial nos meios mais conservadores. A segurança da Alemanha dependia, neste caso, do isolamento da França, o que significava impedi-la de estabelecer laços de aliança com qualquer outra das Grandes Potências. Neste sentido, era importante que a Alemanha se antecipasse e estabelecesse laços estreitos com as Potências que, aliadas à França, causariam um desequilíbrio de forças desfavorável aos alemães.

A situação mais perigosa que se apresentava era a de uma aliança entre a França e a Rússia porque, se tal acontecesse, a Alemanha deveria estar preparada para enfrentar simultaneamente aquelas duas Potências, ou seja, deveria prever uma guerra em duas frentes. Bismarck iniciou então um conjunto de ações diplomáticas destinadas a aproximar a Alemanha dos seus vizinhos - o Império Austro-Húngaro e o Império Russo - e a desenvolver boas relações com a França. Uma aproximação ao Reino Unido seria sempre mais difícil porque esta Grande Potência, que exercia a hegemonia naval, mantinha a política de splendid isolation (isolamento esplêndido) que consistia em evitar alianças permanentes, garantindo um envolvimento mínimo nos assuntos europeus.

Otto von Bismarck

Otto Edward Leopold von Bismarck nasceu a 1 de abril de 1815 em Schönhausen, 114 Km a norte de Berlim. Foi o embaixador prussiano na França, depois na Rússia, e serviu em ambas as câmaras do Parlamento prussiano. Em 1862, ocupou o cargo de ministro-presidente (primeiro-ministro) da Prússia e, em 1867, após a vitória sobre a Áustria na Guerra Áustro-Prussiana (14 de junho a 23 de agosto de 1866), a segunda das Guerras da Unificação da Alemanha, passou a acumular essas funções com as de chanceler da Confederação da Alemanha do Norte (Norddeutscher Bund, também denominada Augustbündnis). Após a formação do Império Alemão (Deutsches Kaiserreich), em 1871, Bismarck manteve o cargo de ministro-presidente da Prússia e passou também a desempenhar as funções de chanceler do Império. Manteve um bom relacionamento com Guilherme I da Alemanha, que lhe concedeu os títulos de conde de Bismarck-Schönhausen, em 1865, e príncipe de Bismarck, em 1871.

Otto Fürst von BismarckFonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/05/Otto_F%C3%BCrst_von_Bismarck.JPG

Formado o Império Alemão, onde dominava a Prússia, Bismarck utilizou todos os recursos diplomáticos à sua disposição para manter uma situação de paz na Europa. O crescimento económico da Alemanha e a manutenção do status quo político foram as suas grandes preocupações relativas à política interna alemã. Com alguma relutância, permitiu e apoiou a aquisição de colónias. Criou o primeiro Estado-providência (Welfare state, em inglês; Wohlfahrtsstaat, em alemão) do mundo moderno para ganhar o apoio da classe trabalhadora que, de outra forma, poderia apoiar massivamente os sociais-democratas.

Guilherme I morreu a 9 de março de 1888. Sucedeu-lhe o seu filho Frederico III (1831-1888) que morreu devido a uma doença grave, a 15 de junho desse mesmo ano. Guilherme II (1859-1941) impôs uma mudança de rumo nas políticas alemãs, tanto no plano interno como externo e, perante as grandes divergências com o chanceler, Bismarck demitiu-se a 20 de março de 1890. Retirado da política ativa, escreveu as suas memórias, publicadas com o título Gedanken und Erinnerungen (Pensamentos e Memórias). Morreu a 30 de julho de 1898, em Aumühle, Schleswig-Holstein, Alemanha. Enquanto foi chanceler do Império Alemão, as suas ações diplomáticas, o sistema de alianças por si concebido, embora complexo e frágil, permitiu manter um longo período de paz na Europa.

O sistema de alianças

Bismarck começou por estabelecer uma ligação com a Áustria-Hungria e a Rússia. Esta ligação assentava em duas convenções de carácter defensivo, uma entre a Alemanha e a Rússia, assinada a 6 de maio de 1873, a outra entre a Áustria-Hungria e a Rússia, assinada a 6 de junho do mesmo ano. Esta ligação ficou conhecida como Acordo dos Três Imperadores (Dreikaiserabkommen). Tratava-se de um conjunto de acordos que tinham como finalidade manter a Rússia na esfera das relações amigáveis com a Alemanha e a Áustria-Hungria. Entre esta última e a Rússia, existia um conflito de interesses nos Balcãs, onde a Alemanha não pretendia exercer qualquer influência. Quando se deu a Guerra Russo-Turca de 1877-1878, as posições assumidas pela Alemanha e pela Áustria-Hungria obrigaram a Rússia a ceder vantagens adquiridas durante o conflito e, em consequência, a Rússia afastou-se e abandonou os acordos assinados em 1873.

Com o afastamento da Rússia, a primeira preocupação de Bismarck foi manter os laços com a Áustria-Hungria e, no dia 7 de outubro de 1879, as duas Potências assinaram um tratado de aliança que ficou conhecido como Aliança Dual. Dois anos mais tarde, pretendendo manter a segurança a ocidente enquanto fazia um esforço de expansão na Ásia, o que poderia conduzir a um confronto com o Reino Unido por causa da Índia, e também para ter alguma liberdade de ação nos Balcãs, o que obrigava a entendimentos diplomáticos com a Áustria-Hungria, a Rússia voltou a aproximar-se dos seus anteriores parceiros, em grande parte devido à ação diplomática de Bismarck, tendo sido firmado, a 18 de junho 1881, um acordo secreto entre aquelas três Potências, que ficou conhecido como Liga dos Três Imperadores (Dreikaiserbund). A Itália fora unificada em 1861, dez anos antes da Alemanha, mas não tinha a estrutura industrial do Império, a sua economia era muito mais fraca, tal como as suas forças armadas. No entanto, aspirava a fazer parte do grupo das Grandes Potências. À procura de prestígio e apoio estabeleceu, a 20 de maio de 1883, uma aliança com a Alemanha e com a Áustria-Hungria. Estas, com a Aliança Dual, formavam a Tríplice Aliança.

Em 1887, um conflito de interesses nos Balcãs, entre a Áustria-Hungria e a Rússia, teve como consequência a não renovação da Liga dos Três Imperadores. Novamente, a ação diplomática de Bismarck levou a Rússia a aceitar um novo acordo com a Alemanha, mas não com a Áustria-Hungria. O acordo foi estabelecido sob a forma de um tratado, conhecido como Tratado de Resseguro. Este tratado continha um protocolo em que a Alemanha assumia uma posição neutral no caso de uma intervenção militar da Rússia destinada a controlar os Estreitos do Bósforo e de Dardanelos.

A subida de Guilherme II ao trono da Prússia e ao trono imperial da Alemanha ditou uma mudança nas políticas interna e externa. No mesmo ano em que Bismarck se retirou da vida política, o seu sucessor, Leo von Caprivi (1831-1899), com o apoio do imperador, não renovou o Tratado de Resseguro por entenderem que este estava em contradição com o estabelecido na Aliança Dual. A Rússia ficava livre para procurar outras alianças e a França viu nestas circunstâncias a oportunidade para quebrar o isolamento a que fora submetida. Foi nestas circunstâncias que, a 18 de agosto de 1892, foi firmado um tratado de aliança entre a França e a Rússia. Este era o pesadelo da defesa alemã. A situação agravou-se quando a França e o Reino Unido estabeleceram um acordo, a Entente Cordiale, para resolverem os seus conflitos coloniais. A partir daqui, foram estabelecidas relações cada vez mais estreitas entre as duas Potências e foram iniciadas reuniões de coordenação entre os respetivos estados-maiores, tendo em vista uma possível intervenção britânica ao lado da França, em caso de guerra contra a Alemanha. As relações entre o Reino Unido e a Rússia seguiram um caminho idêntico e foi estabelecida uma Entente anglo-russa que resolveu situações de conflito entre ambas as Potências, relativas à Ásia Central. Este conjunto de acordos ficou conhecido como Tríplice Entente.

No período em que Bismarck foi chanceler do Império Alemão - 1871 a 1890 - foi mantida a paz, mas uma paz instável, caracterizada por crises e atritos internacionais recorrentes. Tratou-se de uma época caracterizada por uma agressiva rivalidade industrial e comercial, pelo nacionalismo, imperialismo e crescente influência militar na formulação dos objetivos da política dos Negócios Estrangeiros. Tornou-se impossível manter o sistema de conferências entre as Grandes Potências europeias que tinha sido utilizado com sucesso na primeira metade do século XIX, e Bismarck garantiu a paz necessária ao desenvolvimento da Alemanha desenvolvendo um sistema de alianças em que predominava o secretismo. Este sistema era muito complexo, mas reduziu as possibilidades de guerra entre a Rússia e a Áustria - devido aos Balcãs - ou entre a Itália e a Áustria - por causa dos territórios irredentos. Mas foi, no entender de muitos críticos, a complexidade do sistema que não permitiu que ele sobrevivesse a Bismarck, [SHEEHAN, pp. 132-134.]

Entre 1890 e 1914, o equilíbrio entre as Potências ganhou uma nova forma. A Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália já formavam, desde 1882, a Tríplice Aliança, um bloco de Potências da Europa Central que se estendia do Mar Báltico ao Mediterrâneo. No entanto, foi neste período que a França, o Reino Unido e a Rússia estabeleceram a Tríplice Entente que, na realidade, continha uma ligação forte, um tratado e não apenas um acordo (entente), entre duas das Potências, a França e a Rússia. No patamar das Grandes Potências, a Europa ficou dividida em dois blocos antagónicos. Neste sistema bipolarizado, ao contrário do que acontecera no início do século XIX, era difícil obter o consenso entre aquelas Potências. Cada um dos dois sistemas de alianças/acordos desenvolveu um medo crescente do campo oposto. Apesar de tudo, este foi o período de paz mais longo na história da Europa, apenas ultrapassado pelo período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Entre 1815 e 1914, as Grandes Potências tiveram a preocupação de criar o equilíbrio necessário à manutenção da paz na Europa. A manifesta supremacia naval britânica nunca ameaçou esse equilíbrio porque o Reino Unido procurou não se intrometer diretamente nos assuntos do Continente. No entanto, o surpreendente e também ameaçador - do ponto de vista francês e britânico - crescimento demográfico, económico, militar e naval da Alemanha, produziu uma crescente tensão nas relações entre os Estados de ambos os blocos. Os sistemas de alianças criados nunca tiveram a eliminação da guerra como um objetivo. Pelo contrário, «a guerra e a ameaça de intervenção militar eram tidas como aceitáveis se os objetivos fossem limitados e não ameaçassem a estabilidade do sistema de equilíbrio entre as Grandes Potências. Era assim considerado legítimo fazer a guerra para obter ganhos limitados que não enfraquecessem uma das Grandes Potências ou um aliado chave.» [SHEEHAN, p. 136]

À margem destes sistemas, a Áustria-Hungria e a Roménia tinham assinado um tratado em outubro de 1883, tratado que, no ponto de vista de Bismarck, consolidava e melhorava a influência da Aliança Dual nos Balcãs. Paralelamente a este sistema de alianças, a Áustria-Hungria, a Itália e a Espanha estabeleceram com o Reino Unido, em 1887, os Acordos do Mediterrâneo. Estes tinham a finalidade de manterem o status quo naquele mar, deter a expansão russa nos Balcãs e impedi-la de controlar os Estreitos sob domínio turco. Se a Rússia atingisse estes objetivos, conseguiria afirmar-se como grande potência naval no Mediterrâneo, com a possibilidade de interferir no tráfego do Canal de Suez, inaugurado em 1869. Os Acordos do Mediterrâneo não obrigavam o Reino Unido a envolver-se nos conflitos do continente europeu e, assim, apesar de ser a parte fundamental dos Acordos, não alterou a sua política de splendid isolation. Por fim, em julho de 1902, à revelia dos seus parceiros da Tríplice Aliança, a Itália e a França estabeleciam um acordo secreto com grandes vantagens económicas para ambas as partes, mas também vantagens políticas para a França que levava a Itália a afastar-se cada vez mais das suas obrigações na Tríplice Aliança.

ALIANÇAS 1914

Figura 2: O sistema de alianças e acordos em vigor em 1914.

 

O EXÉRCITO ALEMÃO

O Exército Alemão de tempo de paz, em 1914, tinha uma dimensão que ultrapassava os 850.000 homens. Quando falamos do Exército Alemão estamos a referir o exército regular que funcionava num sistema idêntico ao que hoje designamos Serviço Militar Obrigatório. Na primeira semana de mobilização, em 1914, o exército aumentou para mais de 3.800.000 homens. Este número representa os efetivos do exército regular e as tropas de reserva.

O serviço militar na Alemanha era, portanto, um serviço com carácter universal e era distribuído da seguinte forma:

  • Dos 17 aos 20 anos, todos os homens aptos prestavam serviço no Landsturm, uma milícia destinada à defesa territorial. Recebiam a instrução militar essencial, estavam integrados numa unidade militar, recebiam treino militar algumas vezes por ano, mas continuavam a sua vida civil normal.
  • Aos 20 anos, a quantidade necessária de conscritos ingressava no exército regular onde cumpria dois anos de serviço militar (três anos na cavalaria e na artilharia).
  • Após dois anos de serviço no exército regular (três no caso da cavalaria e da artilharia), transitavam para a situação de reserva. Isto significava que, em caso de mobilização, era com base nesta reserva que o exército regular crescia rapidamente.
  • Aos 27 anos de idade, transitavam da situação de reserva para o Landwehr, corpo de tropas que desempenhavam tarefas ao nível territorial a fim de libertar o máximo de tropas do exército regular ou da reserva para a parte operacional.
  • Aos 39 anos transitavam novamente para o Landsturm onde se mantinham até aos 45 anos de idade.

Tanto as tropas do Landwher como do Landsturm podiam, por esta ordem e pela ordem de idades, se as forças de reserva não fossem suficientes, ser chamadas a prestarem serviço como tropas combatentes na primeira linha. Alguns dos conscritos podiam ter características físicas que não se enquadrassem nos parâmetros regulamentares, como por exemplo, não terem altura mínima suficiente. Estes ingressavam na Eratzreserve e, em tempo de guerra, prestavam serviço nos depósitos ou nas guarnições das fortalezas, mas também podiam avançar, em casos extremos de falta de efetivos, para recompletamentos das unidades empenhadas na linha da frente.

Apesar da crescente industrialização, a maioria dos recrutas chamados a prestar serviço no exército regular continuavam a ter origem nos meios rurais ou pequenas cidades. Antes da guerra, apenas cerca de 6% eram recrutados em áreas industrializadas. Acreditava-se que os camponeses eram fisicamente mais aptos para o serviço militar, mais leais e conservadores que os habitantes das cidades e menos suscetíveis à exposição da propaganda revolucionária. [HAYTHORNTHWAITE, p. 192]

O sistema de recrutamento alemão baseava-se na divisão territorial do Império, com 25 Corpos de Exército, sendo esta a unidade base para o recrutamento e administração do respetivo distrito militar. A Alemanha estava dividida em 24 distritos militares, existindo em cada um deles um Corpo de Exército (CE). Além destes, o Corpo da Guarda Prussiana era levantado em toda a Prússia e Alsácia-Lorena, mas estava estacionado em Berlim. 78% do contingente era fornecido pela Prússia e outros Estados de menor importância, 11% pela Baviera, 7% pela Saxónia e 4% por Vurtemberga.

Cada CE era composto, em 1914, por [FOSTEN & MARRION, p. 9]:

  • Duas divisões de infantaria;
  • Um regimento de artilharia a pé;
  • Um regimento de artilharia de campanha;
  • Duas brigadas de cavalaria.

No total, os efetivos médios de um CE rondavam os 35.000 homens.

Para facilitar o comando e controlo de um conjunto tão vasto de unidades (vinte e cinco), os corpos de exército estavam agrupados em Exércitos. Na Frente Ocidental, de acordo com o planeamento alemão, estava previsto utilizar sete exércitos. Mais tarde, no decorrer da guerra, os exércitos foram agrupados em Grupos de Exércitos.

 

O ESTADO-MAIOR ALEMÃO

«O Estado-Maior General tem sido descrito como o “cérebro de um exército”. A metáfora é particularmente adequada, pois o estado-maior, como o cérebro humano, não é independente, mas uma parte de um todo orgânico.» [WILKINSON, p. 97]

Desde o início do século XIX que os exércitos cresceram significativamente. As Grandes Potências anteriormente apresentavam no teatro de operações com forças da ordem dos setenta ou oitenta mil homens, nas Guerras da Revolução Francesa ou até na generalidade das Guerras Napoleónicas, se excetuarmos a Campanha da Rússia em que Napoleão reuniu um exército anormalmente grande para a época (cerca de 500.000 homens). Na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), a Prússia e os seus aliados reuniram uma força de 380.000 homens que atacou e derrotou a força francesa de 224.000 combatentes. Na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a Rússia dispunha de uma formidável força de 4.500.000 homens, mas no Extremo Oriente, onde a guerra foi travada, a cerca de 9.000 Km de Moscovo, apenas dispunha de pouco mais de 100.000 homens enquanto o Japão tinha a possibilidade de colocar rapidamente no terreno 283.000 soldados e reforçar com mais 400.000. São números impressionantes que causam problemas na execução do comando e controlo das forças, assim como nas inerentes questões logísticas. A "nação em armas", o serviço militar obrigatório que preparava um número cada vez maior de cidadãos com a instrução militar necessária para rapidamente expandir os exércitos de tempo de paz, permitiu este crescimento contínuo dos exércitos.

Na primeira metade do século XIX, a preparação e a conduta da guerra não eram muito diferentes do que se passava um século atrás. Não era feito um esforço sistemático para recolher informações detalhadas sobre os recursos militares dos outros Estados, nem eram preparados, por um estado-maior, planos detalhados para guerras futuras. Entre 1815 (fim das Guerras Napoleónicas) e 1854 (Início da Guerra da Crimeia), as guerras eram iniciadas pelos líderes políticos, sem que a opinião dos militares tivesse o devido peso. Esta situação mudou após os sucessos espetaculares da Prússia contra a Áustria (1866) e contra a França (1870-1871). Para estas vitórias da Prússia, contribuiu, principalmente, a organização do seu exército. O impacto do exemplo da Prússia foi de tal forma grande que as outras Grandes Potências copiaram o seu modelo de forças armadas. O serviço militar obrigatório tornou-se a regra e, em cada Estado criou um estado-maior general. [SHEEHAN, pp. 132-133]

Os problemas relativos ao comando e controlo das unidades em operações tornou-se mais complexo na Primeira Guerra Mundial. A Alemanha dispunha de um exército de tempo de paz com mais de 850.000 homens, mas após a mobilização, em agosto e setembro de 1914, cerca de 4.500.000 alemães constituíam a força militar colocada em todos os teatros de operações. Há muito que não era possível os generais dirigirem pessoalmente todas as formações no campo de batalha ou tratar do apoio administrativo. O trabalho do estado-maior tornou-se essencial para o planeamento detalhado, organização, abastecimento, transporte de tropas ou transmissão de ordens. A tarefa dos estados-maiores é estudar a situação referente aos recursos humanos, às informações sobre o campo de batalha e as forças inimigas, às modalidades adequadas para cumprir a missão, ao apoio logístico, aos problemas das populações no teatro de operações; em resumo, auxiliar o comandante nas decisões a tomar, planear o que vai ser feito, difundir as ordens e acompanhar a execução das operações.

Após a unificação da Alemanha (1871), o Estado-Maior General alemão foi alvo de sucessivos ajustamentos. Este desenvolvimento verificou-se na sua organização, no crescente número de oficiais que aí prestavam serviço e na sua preparação. As funções de estado-maior tornaram-se mais exigentes, o que conduziu à criação de um Corpo de Estado-Maior, conjunto de oficiais especialmente preparados para desempenharem essas funções no Estado-Maior General e nos estados-maiores das grandes unidades (Exércitos, Corpos de Exército, Divisões). De acordo com Pierre-Yves Hénin, em 1914 o Corpo de Estado-Maior alemão contava com 625 oficiais e 262 deles prestavam serviço no Estado-Maior General. [HÉNIN, p. 21] Estes números eram superiores aos dos outros exércitos das Grandes Potências.

O chefe do Estado-Maior General alemão estava colocado ao mesmo nível do ministro da Guerra e despachava diretamente com o Imperador. Este era, nos termos da Constituição, em tempo de paz ou de guerra, o comandante supremo dos exércitos alemães. Referimos exércitos porque no Império Alemão coexistiam quatro exércitos autónomos: da Prússia, de Saxe, de Vurtemberga e da Baviera. Estes Estados da confederação que formava o Império Alemão mantinham os seus exércitos com um elevado grau de autonomia, mas de forma que, tal como estava estipulado no artigo 63º da Constituição, «formam um único exército que, tanto em tempo de paz como de guerra, é colocado sob o comando do Imperador.» [HÉNIN, p. 19] Os ministros da Guerra destes Estados exerciam plenamente as suas funções e o ministro da Guerra prussiano exercia-as também ao nível do Governo Imperial. Neste caso tinha prerrogativas reduzidas quando comparado com os ministros de outras Potências. Nestas, os respetivos chefes de estado-maior respondiam diretamente perante os respetivos ministros da guerra e não perante os chefes de Estado como na Alemanha.

Os oficiais do Estado-Maior General formavam uma elite dedicada ao estudo e preparação da guerra, isto é, ao seu planeamento, mas tinham também a responsabilidade de selecionar e preparar os oficiais que entrariam para esse círculo. O Estado-Maior General tinha na sua dependência a Escola de Guerra (Kriegsakademie) onde eram preparados os oficiais dos exércitos alemães. A reflexão e o trabalho de preparação da guerra desenvolvidos pelo Estado-Maior General tiveram por base os ensinamentos doutrinários de Carl von Clausewitz (1780-1831) que apresentara uma filosofia de guerra que pode ser sintetizada numa afirmação retirada da sua obra Vom Kriege: «A guerra é um ato de violência; não há limite à manifestação dessa violência. Cada um dos adversários procura submeter o outro, de onde resulta uma ação recíproca que, enquanto conceito, conduz aos extremos.» Este conceito iria marcar profundamente a cultura militar alemã [HÉNIN, p. 24].

O sistema prussiano tornou-se um modelo para o resto do mundo. A instrução dos oficiais de estado-maior era particularmente desenvolvida, a maioria deles conhecia profundamente a história das guerras e estavam em condições de discutir todos os assuntos que afetavam o exército. O coronel Eugène Stoffel, adido militar francês na Prússia, entre 1866 e 1870, afirmava nos seus escritos que naquele reino aplicava-se o «princípio que exigia que o estado-maior seja a elite do exército» e acrescentava que «a composição do estado-maior prussiano constituirá numa guerra próxima o mais sério elemento de superioridade a favor do exército prussiano.» [STOFFEL, p. 129]

 

O PENSAMENTO MILITAR ALEMÃO

Carl von Clausewitz

Carl Philipp Gottlieb Clausewitz (von Clausewitz, a partir de 1827) nasceu a 1 de junho de 1780, em Burg, perto de Magdeburg, Alta Saxónia, Alemanha. Com apenas doze anos, ingressou no exército prussiano. Em 1793 e 1795 participou nas guerras contra a França revolucionária. Com 21 anos, em 1801, ingressou na Akademie für junge Offiziere der Infanterie und Kavallerie (Academia para jovens Oficiais de Infantaria e Cavalaria), em Berlim, onde foi fortemente influenciado pelo general Gerhard Johann David von Scharnhorst (1755-1813), diretor da Academia. No decorrer das Guerras Napoleónicas, esteve presente na Batalha de Jena (14 d outubro de 1806). As forças prussianas foram derrotadas pelas tropas napoleónicas e, na retirada que se seguiu, Clausewitz assumiu o comando de parte da retaguarda. Esta foi a única vez em que ele comandou tropas em combate. Prisioneiro dos franceses, passou sete meses em França. Após o seu regresso, envolveu-se no processo de reforma do exército prussiano, em que o general Scharnhorst era um elemento chave.

ClausewitzFonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_von_Clausewitz#/media/Ficheiro:Clausewitz.jpg

Em 1810, Napoleão começou a preparar a invasão da Rússia e reuniu um exército com cerca de 500.000 homens. Este exército incluía corpos de tropas estrangeiras, entre elas forças prussianas. Este apoio da Prússia a Napoleão foi considerado politicamente intolerável para Clausewitz que se demitiu dos seus cargos e, com outros trinta oficiais, partiu para a Rússia para aí prestar serviço. Desta forma, testemunhou a campanha que constituiu a maior derrota de Napoleão e tomou parte, pelo lado russo, nas negociações que conduziram à Convenção de Tauroggen, um armistício firmado a 30 de dezembro de 1812, entre as forças do general Ludwig Yorck von Wartenburg, da Prússia, e o general Hans karl von Diebitsch, do Império Russo. Nos termos desta convenção, o contingente prussiano do exército napoleónico retirava-se da guerra. Ao reentrar na Prússia, Clausewitz organizou forças irregulares  que lutaram contra os franceses, atitude que muitos contemporâneos consideraram traição, já que a Convenção de Tauroggen fora feita sem o consentimento do rei.

Em abril de 1814, Clausewitz participou na batalha de Waterloo como chefe do estado-maior de um corpo de tropas prussianas. Em 1818, foi nomeado superintendente da Escola de Guerra em Berlim, uma função puramente administrativa que não requeria que ministrasse aulas. Nestas funções teve tempo para desenvolver o seu trabalho teórico, Em 1831, com a guerra civil na Polónia, a Prússia mobilizou parte do seu exército e Clausewitz foi nomeado chefe do estado-maior das forças destacadas para vigiarem o conflito. Poucos meses mais tarde, morreu em Breslau, com cólera.

Em 1832, a sua viúva Marie Sophie von Brühl (von Clausewitz após o casamento) editou, publicou e escreveu o prefácio da sua obra Vom Kriege (Da Guerra), texto que Clausewitz tinha começado a trabalhar em 1816, mas que não concluiu. Em 1835, a maioria dos seus trabalhos tinham sido publicados numa coletânea.

Os planos de guerra em Clausewitz

A obra Vom Kriege está dividida em dez livros. O livro VIII intitula-se "Plano de guerra" e, no seu capítulo II (Guerra Absoluta e Geral) podemos ler: «Os planos de guerra cobrem todos os aspetos da guerra, e ligam-nos todos numa única operação que deve ter um único objetivo final onde todos os objetivos particulares são harmonizados. Ninguém começa uma guerra - ou, pelo menos, ninguém com sensatez deverá fazê-lo - sem que primeiro fique claro na sua mente o que pretende atingir com essa guerra e como pretende conduzi-la. A primeira questão é o objetivo político; a última é o seu objetivo operacional. Este é o princípio orientador que estabelece o rumo, prescreve a escala de meios e o esforço requerido, e faz sentir a sua influência até ao menor detalhe operacional.» [CLAUSEWITZ, pp. 700].

Não sendo um manual de técnicas de estado-maior, não encontramos nesta obra de Clausewitz referências concretas sobre a elaboração dos planos de guerra. Vom Kriege é uma obra sobre a teoria da guerra. «A teoria não pode dar fórmulas para que com elas se resolvam os problemas; não pode limitar o trabalho da mente a uma estreita linha obrigatória, ladeada por princípios de ambos os lados. Proporciona à mente uma visão geral sobre a massa dos assuntos e as suas relações, e depois deixa-a livre para seguir até às regiões superiores da ação, para aí agir segundo a capacidade das suas forças naturais.» [CLAUSEWITZ, pp. 268-269]

 

O CONCEITO ESTRATÉGICO NOS PLANOS DE MOLTKE

«O Plano Schlieffen de 1905 procede de uma longa história de planos de guerra prussianos contra a França, de Clausewitz a Moltke e depois ao próprio Schlieffen, uma história à qual se encontra estreitamente ligado o destino da Bélgica. Desde 1850, esta história dos planos alemães integra a problemática de uma guerra em duas frentes que se impõe depois de 1871 e se torna dominante nos anos 1890 com a aliança franco-russa.» [HÉNIN, p. 63] Embora a situação anterior à época de Schlieffen fosse diferente da que se criou em 1890 com a não renovação do Tratado de Resseguro e depois com a aliança aranco-russa (1892), não deixava de preocupar os responsáveis alemães que, para evitarem conflitos com a Rússia, procuraram afastar-se dos problemas dos Balcãs e não apoiaram o expansionismo austríaco naquela área. A possibilidade da guerra simultânea contra a França e a Rússia foi sempre a grande preocupação dos responsáveis pela defesa do Império Alemão.

Helmuth von Moltke, o velho

Helmuth Karl Bernhard von Moltke nasceu a 26 de outubro de 1800, na cidade de Parchim, atualmente no estado alemão de Mecklenburg-Vorpommern, no seio de uma família aristocrática, mas empobrecida e obrigada a refugiar-se na Dinamarca devido à invasão das tropas napoleónicas. Frequentou assim a escola militar em Copenhagen, após o que ingressou num regimento de infantaria dinamarquês, mas numa visita a Berlim, decidiu ingressar no exército prussiano. Em 1821, ingressou com o posto de tenente no Regimento Leibgrenadier e, entre 1823 e 1826, frequentou a Kriegsakademie. Entretanto, complementou o seu baixo salário escrevendo uma novela, Die Beiden Freuden (1827) e um estudo sobre a insurreição polaca (1830-1831). Foi colocado no Estado-Maior General em 1833 e, dois anos mais tarde foi enviado para a Turquia como conselheiro do sultão Mamude II (1785-1839) sobre a modernização militar do exército otomano. Contrariamente às instruções recebidas, entrou ao serviço do exército turco e tomou parte em várias campanhas militares, tendo combatido na Batalha de Nézib (24 de junho de 1839) na Segunda Guerra Egípcio-Otomana (1839-1841) onde salvou a artilharia turca de um grave desastre. Ainda nesse ano voltou para a Prússia e publicou uma descrição das suas aventuras na Turquia. Em 1842 casou com Mary von Burt. Em 1843 publicou um ensaio sobre os caminhos de ferro e, em 1845, uma história da Guerra Russo-Turca de 1828-1829. Nesse mesmo ano e seguinte esteve em Roma como ajudante-de-campo do Príncipe Frederico Henrique da Prússia. Regressou depois ao Estado-Maior General.

Helmuth Karl Bernhard von MoltkeFonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Helmuth_von_Moltke_(Generalfeldmarschall)#/media/Datei:Helmuth_Karl_Bernhard_von_Moltke.jpg

Helmuth von Moltke foi promovido a coronel a 2 de dezembro de 1851, após o que foi nomeado ajudante-de-campo do Príncipe Frederico Guilherme, futuro Kaiser Frederico III. Neste cargo teve ocasião de viajar pelo Reino Unido, Rússia e França. A 9 de agosto de 1856 foi promovido a major-general e, no ano seguinte, por sugestão do General Edwin Freiherr von Manteuffel (1809-1885) - Chefe do Gabinete Militar Prussiano, um corpo de conselheiros do Rei para os assuntos militares - foi nomeado Chefe do Estado-Maior General da Prússia. Neste cargo, foi promovido a Tenente-General em 1859, a General de Infantaria em 1866 e a Generalfeldmarschall em 1871. Ocupou estas funções até 10 de agosto de 1888. Os sucessos do Exército da Prússia nas Guerras da Unificação Alemã garantiram-lhe segurança na posição que ocupava e absoluta confiança da parte do Rei Guilherme I. Assim, após a formação do Império Alemão, continuou a desempenhar as mesmas funções e assumiu o cargo de Chefe do Estado-Maior do Império.

O conceito estratégico de Moltke

«Moltke, quando foi chefe do Estado-Maior General, exerceu uma ação decisiva sobre a formação intelectual da maioria dos oficiais do exército prussiano [...] A sua doutrina de guerra tinha por base a de Clausewitz; ele conhecia-o profundamente e gostava frequentemente de o citar como mestre teórico. Vom Krieg figura entre as obras que Moltke considerava como as que exerceram maior influência sobre ele.» [CARRIAS, pp. 200-201] Foi nesta linha de pensamento que escreveu: «De qualquer guerra, a maior bênção é terminá-la rapidamente. Por esta razão deve ser estabelecido que todos os meios são bons, sem excluir os mais condenáveis. De forma nenhuma posso concordar com a Declaração de São Petersburgo de 1868 (Declaração de Renúncia ao Uso, em Tempo de Guerra, de Projécteis Explosivos com Peso Inferior a 400 gramas) quando ela afirma que o enfraquecimento das forças inimigas constitui a única forma autorizada de fazer a guerra. Não, devemos dirigir o ataque contra todos os meios de emergência que o Estado inimigo possui, contra as suas finanças, os seus caminhos de ferro, os seus suprimentos, até o seu prestígio.» [citação em CARRIAS, p. 202]

«Como para Clausewitz, para Moltke a guerra é a continuação da política por outra forma; ela tem por objetivo quebrar a vontade do adversário e os meios mais eficazes para alcançá-lo são a aniquilação das suas forças, a ocupação da capital e do território inimigo [...] Não é a ocupação de uma porção de território ou a tomada de uma praça-forte, mas antes a destruição das forças inimigas que decidirá, em geral, a sorte da guerra. É então essa destruição que constitui o objetivo principal das operações.» [CARRIAS, pp. 202-203] Sendo assim, há que definir muito bem onde se pretende chegar  com as operações militares a serem planeadas. Há que definir os objetivos políticos e os objetivos militares e quais as estratégias para os alcançar. Contudo há limites ao planeamento, tal como Clausewitz e depois Moltke nos explicam.

«É um erro crer que seja possível estabelecer com muita antecedência um plano de campanha e de o poder seguir ponto por ponto do início até ao fim. O primeiro encontro com o grosso das forças inimigas poderá criar, consoante o seu resultado feliz ou infeliz, uma situação totalmente nova. Muitas coisas que podemos ter pretendido fazer tornar-se-ão irrealizáveis.» [Moltke, Guerre de 1870, citado em CARRIAS, p. 205] Este conceito sobre a praticabilidade de um plano para além dos combates iniciais, defendido por Moltke, tal como fora defendido por Clausewitz, continua absolutamente válido nos nossos dias. Poderemos até dizer que se trata de uma simples questão de bom senso.  Por esta razão, os planos de preparação para possíveis guerras futuras, quase se limitam ao desenvolvimento inicial das forças tendo em vista uma determinada ação, ofensiva ou defensiva, mas da qual só se conhecem as disposições iniciais. No entanto, estes planos são desenvolvidos de acordo com um conceito estratégico: atacar ou defender? qual o objetivo que se pretende atingir? como pretende o comandante - neste caso, o chefe do Estado-Maior General - atingir esse ou esses objetivos? Embora o planeamento mais detalhado deva estar pronto apenas para as ações iniciais do conflito, o comando e o estado-maior das forças deverão ter uma ideia clara das ações que se seguirão em diferentes situações conforme o resultado dos recontros iniciais e deverão concluir os planos, fazendo os ajustamentos necessários.

Nos estudos desenvolvidos sobre as prováveis situações de conflito, Moltke abordou em 1858 os fatores a ter em conta num conflito entre a Prússia e a França. Este tema continuou a ser estudado nos anos seguintes e o último memorando conhecido sobre o assunto data de maio de 1870, denunciando um longo planeamento das operações militares desenvolvidas na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. Verifica-se o mesmo relativamente às outras guerras da unificação alemã, contra a Dinamarca e contra a Áustria. [CARRIAS, p. 204] Não foi pois por acaso, ou apenas devido a forças militares francamente superiores ou a outros fatores, que a Prússia obteve os seus sucessos tão rapidamente, mas a um estudo meticuloso das diferentes situações e a um planeamento detalhado desenvolvido pelo Estado-Maior General sob a direção de Moltke. «Nada que pudesse ter influência era deixado na sombra, nenhuma hipótese era negligenciada; as diversas ações do inimigo são tratadas com o mesmo cuidado e cada solução proposta é objeto  de estimativas concretas e precisas. [...] A doutrina de Moltke, como a de Clausewitz, não comporta nenhuma solução a priori, nenhum caso-tipo, mas inclui um estudo concreto dos problemas a desenvolver, e daí emerge um método de ação.» [CARRIAS, pp. 205-206]

Em 1871, Moltke alertou o Reichstag sobre a posição adquirida pela Alemanha: «As nossas guerras recentes e que nos foram favoráveis permitiram-nos adquirir o respeito universal, mas nenhuma simpatia.» Moltke estimava que «a provação mais terrível que poderia ameaçar a existência do novo Império Alemão seria uma guerra simultânea contra a Rússia e a França, e como uma tal combinação não era de descartar, seria bom considerar atempadamente os meios de a evitar.» [CARRIAS, p. 276] No campo das relações internacionais, Bismarck atuou por forma a construir um sistema de alianças que impedisse a formação da coligação entre a França e a Rússia. Moltke cuidou da estratégia militar que teria de ser aplicada na eventualidade de a diplomacia fracassar.

Contrariando o princípio da concentração de forças, mas contando com o apoio ou, pelo menos, com a neutralidade da Áustria, Moltke planeou utilizar metade do seu exército a ocidente, na Lorena, para lançar uma contraofensiva sobre o atacante francês e, com a outra metade, atacar a Rússia a partir de uma linha a sul dos Lagos Masúrios, na atual Polónia. Sobre esta situação, Moltke alertou que não se devia esperar obter uma vitória total como em 1870-1871, pelo que a diplomacia tinha aqui um papel importante a desempenhar. Contudo, em 1877, perante a mobilização russa para o conflito que conhecemos como Guerra Russo-Turca de 1877-1878, Moltke alertou: «se ficarmos convictos que os russos nos vão atacar, não há dúvida nenhuma de que também teremos a França contra nós. Não será demasiado cedo para mobilizar o exército e, sem levar em conta a atitude que a França terá demonstrado até então, declarar-lhe a guerra no quinto dia. Alguns dias de avanço têm uma importância incalculável.» Em consequência deste raciocínio, previa-se utilizar a maioria do exército alemão - 14 corpos de exército (CE), ou seja, cerca de 520.000 homens - a Oeste, deixando apenas quatro CE a Leste. Moltke pensava obter uma vitória decisiva sobre os franceses a partir da terceira semana, após o que seriam utilizadas metade das tropas empenhadas contra a França para lançar uma contraofensiva a Leste. Paralelamente a estes planos, na década de 1870, o Estado-Maior General alemão estudou outras possibilidades de conflito, como, por exemplo, contra a França isoladamente ou até contra uma coligação entre a França e a Áustria-Hungria.

A Guerra Russo-Turca de 1877-1878 marcou um ponto de viragem na política internacional. A Rússia afastou-se do Acordo dos Três Imperadores, a Alemanha e a Áustria estabeleceram a Aliança Dual. O afastamento da Rússia aumentou a possibilidade de uma guerra com a Alemanha o que significava, igualmente uma guerra com a França. Mas a evolução das defesas francesas afastou a hipótese de uma vitória alemã rápida e, sendo assim, a situação inverteu-se: deveria ser lançada uma ofensiva vigorosa a Leste, obter uma vitória rápida sobre a Rússia, após o que seriam deslocadas para ocidente parte das forças alemãs de modo a contra-atacar contra a França. Já nesta época a Alemanha possuía uma boa rede de caminhos de ferro, o que permitiria efetuar rapidamente esse deslocamento de tropas, de leste para oeste. Nos anos seguintes, acompanhando a evolução das relações entre as Grandes Potências, Moltke alterou o seu conceito e voltou a distribuir as suas tropas, metade a oeste e a outra metade a leste.

Alfred von Waldersee

O quartel-mestre general era, desde 1882, o general Alfred von Waldersee (1832-1904) que sucedeu a Moltke em 1888. Conhecedor profundo dos planos então desenvolvidos, chamou a atenção para a crescente discrepância entre os objetivos atribuídos ao exército alemão e os meios disponíveis para enfrentar uma provável coligação franco-russa. Enquanto ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior, teve a preocupação de, por um lado, melhorar o plano de Moltke para uma ofensiva inicial contra a Rússia e, por outro, reforçar os exércitos que fariam frente a uma provável ofensiva francesa. A insuficiência de investimento no exército alemão, devido aos avultados gastos com o programa naval de Tirpitz, levou-o a manifestar-se contra aquela opção naval, o que o afastou do Kaiser. A 9 de janeiro de 1891, foi substituído por Alfred von Schlieffen e recebeu o comando de um Corpo de Exército.

Em 1886, Waldersee tinha proposto a adoção estratégica de utilizar a maior parte das forças contra a França e deixar a leste um mínimo de forças – quatro CE e três divisões da reserva – na sua localização de tempo de paz para que a Rússia não se sentisse ameaçada e viesse a iniciar uma mobilização contra a Alemanha. Após assumir o cargo de chefe do Estado-Maior General, Waldersee adotou um plano em que concentrava a maior parte das forças alemãs a oeste: catorze dos dezoito corpos de exército disponíveis. Entretanto, em 1890, a Alemanha não renovou o Tratado de Resseguro com a Rússia, criando uma situação em que se tornou muito mais elevada a probabilidade de uma aliança franco-russa. Como consequência desta alteração na política externa alemã, foi necessário reformular o plano de desenvolvimento das forças militares perante a crescente ameaça de uma guerra em duas frentes.

Dos planos desenvolvidos pelo seu antecessor, Waldersee nunca adotou a solução de dividir o exército alemão em partes iguais pelas duas frentes. Para enfrentar a situação criada em 1890 era necessário reformular o emprego das forças militares. No último plano desenvolvido sob a sua direção, a distribuição das forças era a seguinte: 2/3 a oeste e 1/3 a leste. Aqui, as forças alemãs deveriam tomar a iniciativa a fim de cortar as linhas de comunicação russas, mas também estava prevista a defensiva caso não se conseguisse o sucesso esperado logo de início ou se as operações começassem no inverno. Em qualquer dos casos, a atitude defensiva seria sempre temporária, até estarem reunidas as condições para contra-atacar. A oeste, estava previsto adotar a defensiva, assegurada fundamentalmente por corpos militares da reserva, deixando os corpos do ativo disponíveis para lançarem o contra-ataque.

 

O CONCEITO ESTRATÉGICO NOS PLANOS DE SCHLIEFFEN

O plano alemão executado no início da Primeira Guerra Mundial, no verão de 1914, é geralmente conhecido como Plano Schlieffen. Ficou a dever o seu nome ao general Alfred von Schlieffen (1833-1913), chefe do Estado-Maior General entre 1891 e 1906. À primeira vista, poderá parecer que o plano desenvolvido por Schlieffen é o que foi utilizado em 1914, mas não foi esse o caso. Porquê, então, esta designação do plano alemão? Porque o conceito estratégico, a ideia de desenvolvimento das forças com a finalidade de resolver o problema da guerra em duas frentes, manteve-se idêntica. No entanto, foram introduzidas alterações destinadas a resolver o problema quantitativo das unidades militares disponíveis e, nesse sentido, o dispositivo foi alterado. O insucesso alemão ficou a dever-se a essas alterações? Nunca o saberemos verdadeiramente porque também não conhecemos as consequências de uma não alteração. Nem os alemães sabiam que a Bélgica iria oferecer uma resistência tão grande, nem tinham a certeza até onde poderia ir uma intervenção britânica. Por muitos estudos que se façam sobre o tema, a única certeza que temos é sobre o que aconteceu e, mesmo estes factos estão cheios de lacunas.

Alfred von Schlieffen

Alfred von Schlieffen nasceu em Berlim, a 28 de fevereiro de 1833, no seio de uma antiga família nobre da Prússia. O seu pai, major Magnus von Schlieffen, era oficial no exército prussiano. Schlieffen estudou na Universidade de Berlim para ser advogado, mas, em 1853, alistou-se no Regimento de Guardas Uhlans a fim de cumprir um ano de serviço militar. No entanto, no fim desse período, foi transferido para o serviço regular e, em dezembro de 1854, recebeu o posto de 2º tenente (alferes). Entre 1858 e 1861 frequentou a Escola de Guerra (Kriegsakademie) de Berlim. Em 1865 foi colocado no Estado-Maior General e, durante a Guerra Austro-Prussiana (Guerra das Seis Semanas), prestou serviço no estado-maior do príncipe Alberto da Prússia. No decorrer deste conflito, participou na Batalha de Königgrätz, a 3 de julho de 1866. Na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) serviu no estado-maior do XIII Corpo de Exército de Frederico II de Macklenburg-Schwerin. Entre 1876 e 1884, comandou o 1º Regimento de Guardas Uhlans, sendo em seguida colocado no Estado-Maior General como chefe da Secção de História Militar. Em 1886 foi promovido a major-general e, a 4 de dezembro de 1888, após ter sido promovido a tenente-general, foi nomeado quartel-mestre general e, em acumulação, vice-chefe do Estado-Maior General.

Alfred von SchlieffenFonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/81/Alfred_von_Schlieffen.png

Quando Alfred von Waldersee abandonou o cargo, Schlieffen estava em perfeitas condições para o substituir. As suas funções permitiram-lhe conhecer em pormenor os problemas de gestão do exército e os planos de guerra desenvolvidos anualmente. Alfred von Schlieffen assumiu as funções de chefe do Estado-Maior General alemão a 9 de fevereiro de 1891 e serviu nesse posto durante quinze anos. Retirou-se do serviço ativo a 1 de janeiro de 1906 e foi substituído por Helmuth von Moltke, o jovem, sobrinho de Helmuth von Moltke, o velho. Durante aquele período, em 1893, foi promovido ao posto de general de cavalaria. A sua grande preocupação foi, como é óbvio, encontrar uma solução para a eventualidade de uma guerra em duas frentes, contra a França e contra a Rússia. Concluindo que a Rússia não podia ser batida rapidamente, Schlieffen planeou concentrar sete oitavos do exército alemão contra a França, derrotá-la rapidamente numa ação decisiva para, em seguida, lançar uma ofensiva contra a Rússia. Schlieffen era considerado um estrategista brilhante, mas os seus planos foram criticados, depois da guerra, pela sua rigidez, ignorância dos fatores políticos e uma apreciação irrealística das capacidades logísticas da época. [Bongard, David L., «SCHLIEFFEN, Count Alfred von (1833-1913)» in DUPUY & JOHNSON & BONGARD, pp. 662-663]

Controvérsias sobre o Plano Schlieffen

A Alemanha foi derrotada na guerra de 1914-198 e, provavelmente por essa razão e porque convinha ao regime nazi que se instalou em 1933, os documentos relativos ao planeamento alemão foram mantidos sob apertado controlo do Reichsarchiv em Postdam e tratados como documentos secretos. A eles tiveram acesso alguns oficiais alemães – tenente-coronel Wolfgang Foerster, general Hermann von Kuhl, general Wilhelm Groener - que, a partir de 1920, escreveram algumas histórias que, juntamente com a história oficial da guerra publicada em 1925, revelaram o Plano Schlieffen sob a forma de uma explicação muito difusa dos documentos. [ZUBER, pp. 5-6] A primeira questão que se levanta é: quais documentos?

O arquivo do exército alemão foi destruído num bombardeamento na noite de 14 de abril de 1945. A este bombardeamento sobreviveu um estudo (Denkschrif) porque tinha sido transferido para outro edifício. Este estudo tinha sido escrito por Schlieffen durante os meses de janeiro e fevereiro de 1906, portanto quando Schlieffen já não se encontrava em funções. Postdam é uma cidade situada no leste da Alemanha e isso significa que, após a guerra de 1939-1945, pertenceu à República Democrática da Alemanha (Alemanha de leste), enquanto o país esteve dividido. Desta forma, apenas alguns arquivistas da Alemanha de leste ou soviéticos conheciam alguns documentos que tinham sobrevivido ao bombardeamento de 1945. Só com a reunificação da Alemanha, em 1990, esses documentos se tornaram acessíveis aos historiadores ocidentais. [ZUBER, pp. 5-7]

No outono de 2002, o arquivo do Exército Alemão em Freiburg (Bundesarchiv-Militärarchiv) disponibilizou um documento que é um sumário dos planos de desenvolvimento alemães (colocação das unidades num determinado dispositivo) entre 1893 e 1914 e fornece, pela primeira vez, uma ideia dos planos de desenvolvimento de Schlieffen, a partir de 1904, e de Moltke, o jovem, que lhe sucedeu. Posteriormente, no arquivo de Freiburg, foi descoberto um Generalstabsreise West, isto é, documentos relativos a um exercício de campo do estado-maior, neste caso relativo à Frente Ocidental. Apesar destas descobertas importantes, deve ter-se em atenção que estes documentos são apenas sumários escritos por historiadores do Exército Alemão. [ZUBER, pp. 8-9]

Como podemos ver, existem muitas lacunas documentais e, sendo assim, quando aparecem novos documentos que permitam conhecer mais alguns detalhes do planeamento alemão, é natural que existam em muitos aspetos diferentes opiniões. O autor mais conhecido relacionado com estas polémicas é Terence Zuber, com várias obras publicadas sobre este tema, além da mencionada na bibliografia. Na sua página na Internet [Terence Zuber] é possível ficar a conhecer quais os livros publicados sobre o tema e alguns dados sobre esta polémica [The Schlieffen Plan Debate 1999-2014]. Esta polémica é referida e explicada na extraordinária obra de Pierre-Yves Hénin. Concordando ou não com as suas interpretações, as obras de Zuber fornecem-nos muitos dados sobre o planeamento alemão. Este trabalho não pretende analisar e aprofundar essas polémicas. Sendo assim, vamos limitarmo-nos a revelar ao leitor alguns dados pontuais sobre a evolução do planeamento alemão e um pouco mais detalhadamente o plano executado em 1914.

Metodologia de trabalho no Estado-Maior General alemão

O Estado-Maior General desenvolvia os planos e testava-os. Em caso de guerra, as unidades militares do exército de tempo de paz - o exército permanente - seriam rapidamente transportadas para as respetivas zonas de reunião, mas uma grande parte das unidades militares que iam participar num conflito de grandes dimensões, como foi o caso da Primeira Guerra Mundial, eram unidades formadas por forças da reserva. Estes efetivos da reserva têm de ser convocados, fardados, equipados, armados e enquadrados nas unidades a que se destinam. Isto significa que tinha de ser posto em prática um plano de mobilização. As unidades assim formadas também tinham de ser transportadas para as respetivas zonas de reunião. Ora, num país como a Alemanha, que dispunha de uma força de 880.000 homens em tempo de paz e mobilizou mais 4.500.000, na quase totalidade transportados nos caminhos de ferro, era absolutamente necessário dispor de um plano de transporte extremamente exigente para transportar os homens, mas também toda a espécie de armas, equipamentos e abastecimentos.

Mobilizados, armados, equipados, organizados em unidades militares, todos estes efetivos e respetivos apoios logísticos eram transportados até às respetivas zonas de reunião. A dispersão das unidades pelas zonas de reunião era feita de acordo com a missão que essa unidade tinha no início das operações. Parte das unidades dirigiam-se para a fronteira com a Rússia, outra parte para a fronteira com a França. Existiam ainda recursos militares dispersos pelas colónias e zonas de especial interesse como o Médio Oriente. Os planos de desenvolvimento das tropas, os Aufmärsch, indicavam para que zona de reunião deviam ser enviadas as unidades militares. Os Aufmärsch mostram-nos, portanto, como as forças estavam distribuídas nas frentes de combate previsíveis, a frente ocidental, contra a França, e a frente oriental, contra a Rússia. O Estado-Maior General preparava anualmente os seus planos que entravam em vigor a 1 de abril de cada ano. No início da Primeira Guerra Mundial, foram executados os planos necessários à mobilização das tropas e o Aufmärsch 1914/1915 que foi implementado a 2 de agosto de 1914.

O conceito estratégico de Schlieffen

Ao longo dos anos em que Schlieffen ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior General, o seu conceito estratégico para enfrentar uma guerra simultânea em duas frentes manteve-se inalterado, ao contrário do dispositivo que sofreu alterações numa tentativa constante de encontrar a melhor solução para a materialização do seu conceito. O Aufmarsch 1906/1907, o último plano elaborado ainda sob a sua direção embora já aprovado pelo seu sucessor.

Até 1900/1901, Schlieffen colocou dois terços do Exército Alemão contra a França e um terço contra a Rússia. No decorrer dos estudos e exercícios desenvolvidos pelo Estado-Maior, concluiu-se que esta distribuição de forças não era suficiente para conduzir uma ofensiva contra a França, o que significava que um ataque dirigido contra as fortificações francesas na fronteira franco-alemã não poderia ser decisivo. Neste caso, a Alemanha teria dificuldade em libertar forças da frente ocidental para deslocá-las para leste e empenhá-las contra a Rússia. A frente leste ficava, desta forma, extremamente vulnerável. Foram estas as razões que levaram Schlieffen a conceber um ataque através da Bélgica, mas também concluiu que, neste caso, o exército alemão era demasiado fraco para uma operação dessa envergadura. No entanto, em 1900, o general von Beseler desenvolveu um estudo em que previa o avanço de metade das forças através das Ardenas, num movimento torneante das defesas francesas, enquanto a outra metade avançava através da Lorena, lançando um ataque frontal destinado a fixar as forças francesas nas fortificações. Desta forma, pretendia-se derrotar as forças francesas atacando as fortificações da fronteira pela frente e pela retaguarda.

A partir de 1899/1900, Schlieffen desenvolveu dois Aufmärsche: o Aufmarsch I para a guerra contra a França, deixando uma parte da força militar a defender a Prússia Oriental, e o Aufmarsch II, contra a Rússia, prevendo uma forte concentração das forças a leste. Em 1901/1902, Schlieffen planeou concentrar a maior parte das forças a leste, mas no ano seguinte 1902/1903, voltou a colocar maior número de divisões a oeste. Estas e muitas outras alterações resultavam do estudo contínuo da situação e das conclusões obtidas no decorrer dos exercícios desenvolvidos pelo Estado-Maior, quer no terreno (Generalstabsreise) e dos jogos de guerra, em sala.

Sobre os planos para 1906-1907, Terence Zuber menciona a existência da ordem de batalha (relação das forças envolvidas) para os Aufmärsche para oeste, leste e norte, vários mapas relativos às missões das forças de cobertura, mapas sobre a situação do inimigo, um mapa sobre a defesa da costa alemã, e as instruções iniciais (Aufmarschanweisungen) para os comandantes dos exércitos a oeste, incluindo aqui o exército italiano – no âmbito da Tríplice Aliança (1882) – e também para as forças a leste. Estes documentos não são originais – esses terão sido destruídos – mas são documentos elaborados entre após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e antes das destruições provocadas pelos bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial (1913-1945). Os dados disponíveis permitem ter uma ideia clara das intenções de Schlieffen relativamente à guerra com a França.

Plano Schlieffen 1906 1907

O Aufmarsch I (contra a França) previa concentrar a maior parte das forças a norte – a ala direita do dispositivo alemão – e avançar num movimento torneante com a finalidade de atacar as forças francesas concentradas mais a sul, na defesa da fronteira franco-alemã, onde seriam concentrados três dos oito exércitos alemães. Este movimento implicava violar o território do Luxemburgo, e da Bélgica, ambos países neutrais. A violação do território belga, em particular, colocava uma série de problemas que se encontram explicados nos documentos disponíveis: «espera-se que a Holanda tenha uma atitude mais amistosa que hostil, enquanto se espera que a Bélgica tenha uma atitude hostil.» e «Não está fora de questão que o exército britânico apoiará a Bélgica. Os britânicos podem desembarcar em Antuérpia ou avançarem através da Holanda.» Por estas razões, o IX CE da reserva foi colocado por forma a enfrentar um possível desembarque na costa alemã, no Mar do Norte. Perante estas ameaças ao normal desenvolvimento do plano – a hostilidade e consequente resistência dos belgas e a intervenção britânica – foram dadas indicações para, no caso de as fortalezas belgas não puderem ser imediatamente tomadas, elas deveriam ser contornadas, e o 1º Exército, formado por cinco CE da reserva, recebeu a missão de cobrir (proteger) o flanco direito alemão contra uma provável ameaça vida de Antuérpia. [ZUBER, pp. 52-54]

O Aufmarsch II (contra a Rússia) previa desenvolver um exército na Prússia Oriental, com três CE do ativo, três CE da reserva. Para enviar essas forças para leste, Schlieffen previa reduzir os efetivos na Frente Ocidental o que implicava, com as faltas já verificadas para a execução do Aufmarsch I, empenhar contra a França menos trinta e oito divisões do que o requerido pelo plano colocando assim a França em pé de igualdade com a Alemanha no que respeita aos efetivos presentes. A insuficiência de efetivos foi sempre uma das preocupações do Estado-Maior alemão, problema nunca inteiramente resolvido, o que nos leva ás “divisões fantasma” referidas por Zuber.

Sendo incorporados no exército regular apenas 55% dos recursos humanos disponíveis, as forças regulares e de reserva eram insuficientes para a execução dos planos desenvolvidos para a guerra em duas frentes. Tanto Schlieffen como Moltke, o novo, alertaram para a insuficiência dos efetivos disponíveis, no ativo e na reserva. De acordo com o Estado-Maior, essa percentagem deveria aumentar significativamente, por forma a dispor de um exército permanente maior e, portanto, de mais efetivos na reserva. Duas razões fizeram que, em tempo de paz, os efetivos nunca fossem aumentados: uma razão orçamental e outra partidária. O orçamento disponível estava condicionado pelas avultadas verbas atribuídas ao plano de construção de uma Frota de Alto Mar. No campo partidário, o SPD (Partido Social Democrata alemão) - na época era um partido de orientação marxista, revolucionário, anticlerical e pacifista –opunha-se ao militarismo e defendia que, através de uma greve geral levada a cabo pelo proletariado europeu conseguiria paralisar a mobilização. [ZUBER, pp. 6-7] Algumas das unidades militares previstas por Schlieffen nunca chegaram a existir.

 

AUFMARSCH 1914/1915

Schlieffen abandonou o serviço ativo a 1 de janeiro de 1906, mas continuou a estudar a questão da guerra em duas frentes e é possível que tenha mantido alguma influência no desenvolvimento dos planos seguintes. Sucedeu-lhe Helmuth von Moltke, sobrinho do anterior chefe do Estado-Maior General com o mesmo nome.

Moltke, o novo

Helmuth Johannes Ludwig von Moltke (1848-1916) era sobrinho de Helmuth Karl Bernhard von Moltke e, para distingui-los, ficaram conhecidos por Moltke, o novo, e Moltke, o velho. Nasceu a 25 de maio de 1848, em Gersdorff, Mecklenburg, região do norte da Alemanha. Entrou para o exército em 1870, mas não participou em nenhuma ação na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Trabalhou com o seu tio, em 1882, e prestou serviço em várias unidades. Em 1902-1904, comandou a 1ª Divisão da Guarda, após o que ocupou o cargo quartel-mestre general e vice-chefe do Estado-Maior General alemão. A 1 de janeiro de 1906, sucedeu a Alfred von Schlieffen.

Ao assumir estas funções em janeiro de 1906, herdou o planeamento desenvolvido sob a direção de Schlieffen para 1906/1907. No entanto, preparou e implementou sucessivas adaptações do plano para o enquadrar nas alterações do cenário em que ele seria posto em execução: em primeiro lugar, a Áustria-Hungria solicitou um maior empenhamento dos alemães a leste, onde, em coordenação com a Alemanha, enfrentaria as forças russas; em segundo lugar, o orçamento insuficiente e a falta de empenho do ministro da guerra em resolver este assunto, o que dificultou a aquisição de novas armas e equipamentos assim como a expansão do exército. Neste último caso, Guilherme II, obcecado com o programa naval, não ajudou Moltke que, não sendo uma personalidade forte à semelhança dos seus antecessores, encontrou muitas dificuldades no desempenho do cargo.

Moltke implementou sucessivas alterações nos planos herdados de Schlieffen que tiveram como consequência enfraquecer a ala direita do dispositivo da Frente Ocidental, pondo em causa uma vitória rápida sobre a França. Sem experiência do combate moderno, quando a Primeira Guerra Mundial começou, «a sua direção dos exércitos foi casual, ineficaz e algumas vezes contraprodutiva; com frequência, ele tinha pouco conhecimento da localização das suas tropas.» [DUPUY & JOHNSON & BONGARD, p. 512] Moltke ganhou a responsabilidade pelos fracassos alemães na Frente Ocidental e, a 14 de setembro, embora se mantivesse no cargo por mais dois meses, as suas funções foram assumidas pelo quartel-mestre general e vice-chefe do Estado-Maior, general Erich von Falkenhayn. Morreu a 18 de junho de 1916.

As alterações de Moltke aos planos de Schlieffen

Os primeiros planos desenvolvidos sob responsabilidade de Moltke foram os de 1907-1908. Já sob sua responsabilidade, entraram em vigor os planos relativos a 1906-1907 desenvolvidos sob a direção de Schlieffen. Estes foram alterados por Moltke que «modificou os planos alemães para ir de encontro às alterações da situação política e militar, incluindo o crescimento industrial da Rússia e a sua reorganização militar, o enfraquecimento da posição da Tríplice Aliança e o agravamento da situação nos Balcãs.» [ZUBER, p. 61]

Sob a direção de Moltke, o Estado-Maior General continuou a realizar os seus exercícios no terreno (Generalstabsreise) de que conhecemos os respetivos relatórios de 1906 e 1908. No decorrer do exercício realizado na Frente Ocidental, contra a França, e partido do princípio de que os franceses concentrariam a maioria das suas forças na fronteira franco-alemã, na Lorena, foi necessário reforçar a ala esquerda alemã e contra-atacar as forças francesas que lançariam a ofensiva na zona daquela fronteira. Este reforço foi feito à custa de unidades da ala direita, aquela que, no conceito desenvolvido por Schlieffen, devia ser suficientemente forte e rápida para, atravessando o Luxemburgo e a Bélgica, tornear o dispositivo francês. Moltke definiu que «o propósito da ala direita era forçar os franceses a abandonar a sua linha de fortalezas e combater em campo aberto. Se os franceses lançassem o seu ataque principal na Lorena, então a batalha decisiva seria travada na Lorena e era para onde a ala direita devia marchar.» [ZUBER, p. 62] De acordo com os resultados deste exercício, a batalha decisiva foi travada na Lorena muito antes de a ala direita conseguir fazer sentir a sua presença. [ZUBER, p. 63] Esta é uma alteração importante ao conceito desenvolvido por Schlieffen.

Com base nestas conclusões, no Aufmarsch 1907/1908 foram introduzidas alterações ao plano para 1906/1907: a ala direita alemã, que executaria o movimento torneante, foi enfraquecida a favor do reforço do centro e ala esquerda. À semelhança do plano anterior, o Exército italiano estava destinado à Alta Alsácia. Os exércitos estavam numerados de norte para sul. O limite sul do 1º Exército passava entre Bruxelas e  Liége, o do 2º Exército era Namur e o do 3º Exército era uma linha que passava por Longuyon e se dirigia para Mézières. No plano anterior (1906/1907), o limite sul do 4º Exército era o que no atual plano (1907/1908) correspondia ao limite do 2º Exército (Ver figuras x e y) Esta alteração do dispositivo traduz a principal preocupação de Moltke: deter o ataque francês na fronteira franco-alemã e contra-atacar com forças da ala direita, mais do que completar o movimento torneante para atacar as forças francesas pela retaguarda.

No Aufmarsch 1908/1909 é reintroduzido um 7º Exército, a sul, e a ala direita volta a ser mais forte embora menos que nos planos de 1906/1907. Em parte, esta alteração deve-se ao resultado das conclusões do sistema de informações alemão, que viam ser cada vez menos provável a intervenção italiana ao lado dos seus aliados alemães. No Aufmarsch 1909/1910, o limite da zona de ação do 3º Exército é deslocado mais para sul, sucedendo o mesmo com os restantes exércitos. No ano seguinte, 1910-1911, o limite sul do 3º Exército volta a deslocar-se mais para norte, mas cede um CE ao 4º Exército. No ano de 1911/1912, os efetivos alemães eram superiores aos planeados nos anos anteriores, mas os alemães sabiam que as forças russas recuperavam rapidamente das derrotas sofridas na Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905 e que constituíam uma ameaça cada vez mais credível. Assim, as forças colocadas a leste eram superiores às dos planos anteriores. Existe menos informação relativamente aos planos de 1912/1913 e 1913/1914, mas as preocupações alemãs concentraram-se mais a Leste devido às Guerras Balcânicas 1912-1913, suscetíveis de provocar uma intervenção da Rússia. Após esta sequência de ajustamentos nos planos alemães, no dia 1 de abril de 1914 entrou em vigor o Aufmarsch 1914/1915. Este é o plano implementado a 2 de agosto de 1914.

Aufmarsch 1914/1915

Deste Aufmarsch apenas nos chegaram alguns fragmentos: as insttruções (Aufmarschanweisungen) para a implementação do plano destinadas aos 5º, 6º e 7º Exércitos. Destes documentos fazem parte as "instruções especiais" (Besondere Weisungen) que começam com uma apreciação geral da situação: [ZUBER, pp. 143-145]

  • Não se esperava que a Holanda declarasse guerra à Alemanha;
  • A posição da Bélgica era incerta;
  • Uma intervenção britânica foi considerada "não improvável"; os britânicos poderiam avançar através da Holanda, ocupar Antuérpia ou desembarcar na região Calais-Dunquerque e movimentarem-se por forma a estabelecerem ligação com a ala esquerda francesa.
  • Os alemães não tinham nenhuma ideia da forma como os franceses e os russos iriam atuar e consideravam que a situação mais perigosa era a de uma ofensiva simultânea.

Os alemães estimavam que, na pior das hipóteses, na Frente Ocidental, enfrentariam setenta e cinco divisões distribuídas da seguinte forma: sessenta e três divisões francesas (cerca de 15.000 homens cada), seis divisões britânicas (cerca de 16.000 homens cada); seis divisões belgas (cerca de 30.000 homens cada). Para se oporem a esta força, os alemães dispunham (na Frente Ocidental) de sessenta e oito divisões (cerca de 13.000 homens cada) mais duas divisões da reserva em vigilância da costa do Mar do Norte, contra um desembarque britânico. Na Frente Oriental, os alemães disporiam de nove divisões e os austríacos de quarenta e nove. A estimativa alemã era de que os russos poderiam dispor de cem divisões, sendo trinta e cinco da reserva. As forças alemãs na Prússia Oriental e as forças austríacas seriam numericamente muito inferiores às forças russas, mas os alemães calculavam que as suas forças poderiam enfrentar o dobro das forças russas. Os alemães teriam de infligir uma derrota aos franceses, suficientemente séria para os forçar a uma atitude meramente defensiva e, assim, transferirem tropas para a Frente Oriental o mais cedo possível. Já os austríacos, estariam permanente preocupados, para além da frente com a Rússia, com a Sérvia e a Itália. [ZUBER, p. 144; ELLIS & COX, pp. 227-241]

O plano alemão estabelecia o avanço para França, através da Bélgica e do Luxemburgo, de uma força principal formada pelos 1º, 2º, 3º e 4º Exércitos enquanto os restantes três (5º, 6º e 7º Exércitos) tinham a missão de manter a Lorena e, se possível, também a Alsácia, com a finalidade de proteger o flanco esquerdo alemão do ataque francês que Moltke esperava que sucedesse na Lorena. Se não se concretizasse o ataque francês na Lorena, o 5º Exército, e os que constituíam a ala direita alemã, avançariam em direção ao Rio Meuse. Liége deveria ser tomada na noite do 4º dia de mobilização, após o que o 1º Exército atravessaria aquele rio, tal como o 2º Exército. Se Liége não fosse tomada, o 1º Exército teria de transitar por território holandês, o que os alemães pretendiam evitar. O 2º Exército, sob comando do general Karl von Bülow, iria conduzir o ataque principal. Bülow teria controlo operacional sobre o 1º Exército, à direita, e o 2º Exército, à esquerda.

O conceito do Aufmarsch 1914-1915 seguia as ideias de Schlieffen. Na Frente Ocidental, o exército alemão utilizaria uma frente larga para tirar o máximo partido da rede de caminhos de ferro e ganhar espaço de manobra. Ao encontrar as principais forças francesas, estas deveriam ser derrotadas tão rapidamente quanto possível. Na Frente Oriental, o exército alemão estaria em inferioridade numérica, mas, graças à sua rede ferroviária, tinha mais possibilidades de concentrar forças para enfrentar o ataque russo e, se necessário, poderia recuar para as fortificações ao longo do Vístula. O ponto fraco do dispositivo a leste era o exército austro-húngaro que estava longe de atingir o elevado nível tático e operacional dos alemães.

O mapa da figura ** mostra o dispositivo adotado em 1914. Existem polémicas, algumas já antigas, sobre os mapas apresentados por vários autores e a forma como estava planeado o início das operações. Estas polémicas visam sobretudo a Frente Ocidental. Na verdade, do Aufmarsch 1914-1915, só existem alguns fragmentos e, conforme já referimos, uma parte importante da documentação sobre este assunto só foi disponibilizada já no século XXI. Os mapas construídos com base nas informações disponíveis diferem, de autor para autor, não no dispositivo inicial das forças, mas, principalmente nos eixos em que se devia movimentar cada um dos Exércitos. Um dos mapas mais divulgados e também fortemente criticado por Terence Zuber é o mapa nº 3 de West Point Atlas e que está disponível na Internet, na página dedicada à Primeira Guerra Mundial, da Academia Militar de West Point, Estados Unidos da América. Este mapa traduz a totalidade do movimento torneante a executar pelas forças alemãs. Sem pretender tomar partido nesta polémica, podemos olhar para o mapa e recordar que, tal como já referimos em «O conceito estratégico de Moltke», não é possível planear uma operação militar em toda a sua extensão e pretender executar esse planeamento tal como inicialmente previsto. No entanto, terá de existir um conceito da operação e objetivos a atingir definidos em termos de espaço e tempo. O desenrolar das operações determinará as alterações a introduzir para ajustar o plano às novas realidades.  Perante a falta de documentos originais, resta acompanhar o desenrolar das operações e, sobre estas, dispomos de um conjunto mais alargado de documentos. O ponto de partida para estas operações é o dispositivo inicial, que consta no Aufmarsch 1914-1915, e os objetivos a atingir.

Western Front 2 August 1914Fonte: (Ver em tamanho original) https://stringfixer.com/pt/Battle_of_Mulhouse#wiki-3

Quanto ao desenvolvimento inicial das forças alemãs, na Frente Ocidental, parece haver algum consenso entre os diferentes historiadores. Já o mesmo não acontece quanto aos eixos segundo os quais os exércitos alemães deviam avançar, quanto às posições que estavam planeadas para serem atingidas em várias fases da ofensiva e quanto aos próprios objetivos a atingir. Por estas razões, aparecem diferentes formas de apresentar o plano para 1914-1915. Vejamos alguns exemplos:

  • Terence Zuber [ZUBER, The Real German War Plan 1904-1914, 2012] não apresenta nenhum mapa relativo aos movimentos dos exércitos alemães relativos ao Aufmarsch 1914-1915, mas refere que estão disponíveis as instruções (Aufmarschanweisungen) relativas aos 5º, 6º e 7º Exércitos. Refere também que «não existe nenhum mapa do desenvolvimento na Frente Ocidental; não existe nenhuma lista dos documentos (que deveriam estar) disponíveis; não existe nenhum relatório das operações relativas à mobilização e desenvolvimento das forças.» No entanto, o estudo dos documentos existentes relativamente a 1914-1915 e aos anos anteriores permitem-lhe concluir que «o plano de guerra alemão em 1914 era relativamente simples. Seguia a doutrina de contra-ataque de Schlieffen. A oeste, o exército alemão seria desenvolvido numa frente larga para fazer a máxima utilização da rede de caminhos de ferro e do espaço disponível para manobrar. Encontraria então o principal corpo francês, avançaria sobre ele e derrotá-lo-ia tão rapidamente quanto possível. O exército francês retiraria para a próxima posição defensiva. Os alemães provavelmente utilizariam esta pausa a oeste para transferir até sete corpos de exército para leste para aí contra-atacar.» Segue-se o resumo do conceito a leste. [ZUBER, pp. 139-149]
  • Pierre-Yves Hénin (HÉNIN, Le Plan Schlieffen, Un mois de guerre - Deux siècles de controverses, 2012), à semelhança de Zuber, não apresenta nenhum mapa para o desenvolvimento das forças em 1914-1915. O mapa apresentado na página 376 refere-se aos acontecimentos no verão de 1914 e não ao planeamento. Claro que os acontecimentos traduzem de alguma forma os planos, mas também sabemos que todos os planos sofrem alterações frequentes. Contudo, Hénin analisa cuidadosamente a forma como Moltke, o Jovem, procurou resolver muitos problemas, as alterações introduzidas nos planos herdados de Schlieffen e qual o papel esperado dos aliados da Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália. [HÉNIN, pp. 207-338]
  • Wiliam D. O'Neil (O'NEIL, The Plan That Broke the World, 2014] apresenta um mapa (p. 70) apenas com as posições iniciais dos exércitos alemães. Na página 109, apresenta uma imagem com o título "O conceito de Schlieffen vs. acontecimentos de agosto de 1914". Um mapa mostra os movimentos dos exércitos segundo o conceito exposto num memorando de Schlieffen quando se reformou e o outro mostra os movimentos reais em 1914.

Na obra acima citada, de Terence Zuber, o autor faz uma crítica ao mapa apresentado na página 56, o Schlieffen Plan Map, publicado no West Point Atlas, um dos mapas mais divulgados sobre o Plano Schlieffen, utilizado no início da guerra. «O mapa do West Point Atlas é uma confusão do mapa actual do Plano Schlieffen, o plano alemão para 1914, e a campanha de 1914. Isto resultou num mapa que não retracta com rigor o plano Schlieffen (1905) ou o plano de guerra alemão em 1914 ou a conduta na campanha do Marne.» Este mapa em que apenas as zonas de reunião iniciais para os exércitos alemães são consensuais, está disponível na Internet na página da Academia Militar de West Point, em https://www.westpoint.edu/sites/default/files/inline-images/academics/academic_departments/history/WWI/WWOne03.pdf. Contudo, este é o mapa adotado por Martin Gilbert no seu The Routledge Atlas of the First World War, 2003, página 10, ou por Arthur Banks em A Military Atlas of the First World War, 2001.

 

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Torres Vedras, 23 de agosto de 2022

Manuel F. V. G. Mourão