O espaço da História

V - Quem era Nuno Álvares

Escrevendo em este passo, sem constranger nenhum que ouça, entendemos ter nos feitos deste homem o modo que têm alguns pregadores, que dentro do sermão enxertam a vida daquele de que pregam e no fim dele concluem o seu tema [1].

E posto que nós já falássemos algumas coisas deste NunÁlvares, os seus gloriosos feitos, adiante escritos, convêm que espertem [2] perguntar a alguns donde veio a sua linhagem e qual foi seu primeiro começo. Porém, cessando um pouco de prosseguir a nossa ordenança, antes que isto em breve ponhamos, a modo de prólogo, que ele bem merece, primeiramente dizemos assim.

Porque a experiência nos ensina que não há aí tal [3] que nasça sem algumas condições desvairadas, e que a nossa natureza não pode estar em tanto assossego que algumas vezes não receba turvação, depois, porque o ter discreto modo nas vãs deleitações é coisa mui forte e grave [4] de fazer, por tanto [5] é havido por bom qualquer que, por continuada batalha, vence assim [6]  os seus naturais desejos que nunca nele é achada míngua [7] onde grande lugar haja a repreensão. E se tal vontade traz consigo honra, este de que falar queremos a merece mui grande, pois, por peleja que nunca cessa, não sem grande força e resistência, subjugou de tal guisa os vícios carnais que, cheio de fruto de grande proveito, o não podia nenhum prasmar [8] de míngua alguma que notável fosse.

E podendo nós largamente ordenar seus prudentes feitos, isto seria a nós graciosa [9] relembrança e coisa mais doce do que ligeira [10] de fazer. Mas quem poderá dignamente contar os louvores deste virtuoso varão, cujas obras e discretos actos, sendo todos postos em escrito, ocupariam grande parte deste livro? Certamente que a nós fora singular prazer se, em sua história, pudéramos seguir a ordenação dos que ditam as coisas em vida daqueles a que acontecem, descendendo a louvar cada uma bondade [11] por si, pois que quaisquer umas das virtudes são merecedoras de seus pregões, mas ora depois do seu passamento [12], mortos os mais dos que lhe foram companheiros, já de seus bons feitos mais gastar não podemos senão as escassas relíquias deles.

Assim que antes despenderíamos longo tempo em ler e ouvir as suas proveitosas obras do que em breve espaço sermos ocupado em nas recontar [13] e pôr em ordenança, mormente porque fugir não podemos aos que em repreender tomam deleitação, cujo costume, apropriando a sua repreensão a todo o propósito e parte que querem, é que nós não podemos dizer coisa alguma que eles não julguem por reprendedoira [14]. Porque alguns, sem limpo desejo, podem dizer que nós o louvamos mais do que seus feitos merecem, mostrando ainda, segundo dissemos, que este segre [15] não pode haver tal que de míngua alguma possa carecer [16], agravando nele algumas leves coisas com grande encarrego de repreensão. Ou  tais [17] dirão, porventura, que seu louvor é menos do que deve, tendo os seus feitos em muito maior conta do que por nós serão recontados, prasmando-nos [18] da ousada presunção de querer pôr em escrito aquilo que já cumpridamente fazer não podemos [19]. Outros quererão dar por conto tantas boas coisas feitas por alguns de menos autoridade e honra, dando razões para os igualar a este de mais grande estado. Mas ainda que alguns fizessem grandes e famosos feitos, cujas bondades não entendemos de esquecer, nós porém não achámos aí tal que, crescendo duma virtude em outra por não cansada firmeza, concorressem nele tantas bem-aventuranças.

Por isso dando lugar a estes [20], cujo ofício sempre acha em que obre, pois em vida dele não foi coisa alguma escrita [21], nós, não sem penosos desejos e trabalhosa cuidação, sob uma brevidade de curto estilo entendemos de seguir seus excelentes actos, os quais, ainda que a alguns não prazam, outros com aguilhões de proveitosa inveja podem espertar [22] a fazer semelhantes.

39. DE QUE LINHAGEM DESCENDEU ESTE NUNO ÁLVARES, E QUEM ERAM SEU PAI E SUA MÃE.

Considerar devemos, quanto à ordem dos mundanais factos, que a primeira coisa que há a saber deste homem assim é o começo de sua linhagem, e por isso, antes que as suas bondades encomendemos com algum louvor, vejamos quem foram seu pai e sua mãe e quais deles descenderam.

Onde [23] assim foi que em Portugal houve um bom e grande fidalgo, nobre de linhagem e condição, que havia por nome dom Gonçalo Pereira. Este era de grande casa e estado, acompanhado de muitos e bons parentes e criados, muito grado [24] e prestador assim aos seus como aos estrangeiros, em guisa que de sua grandeza se acha escrito que um dia, estando em Pereira, deu sessenta cavalos a fidalgos que eram chegados a ele.

Sua linhagem donde antigamente descende, quem largamente a quiser ver, busque o Livro das Linhagens dos Fidalgos no título vinte e um, parágrafo undécimo, e por ali o pode saber cumpridamente. Ele houve certos filhos de que dizer não curamos, salvo de um a que chamaram dom Gonçalo Pereira, como seu pai, que foi Arcebispo de Braga e um dos grandes prelados que houve em Portugal.

Este Arcebispo dom Gonçalo Pereira houve um filho a quem chamaram dom frei Álvoro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Hospital, o qual foi muito honrado, abundoso de riquezas e boas condições. Ele foi fora deste reino, ao convento de Rodes, mui grandemente e bem guarnido assim de escudeiros como doutra gente, pois ele passou àquela terra com vinte e cinco a cavalo, e por galardão dos seus bons feitos o proveu o Grão-mestre daquela dignidade.

Ele fez na Ordem, depois que foi Prior, muitas boas coisas para acrescentamento dela, entre as quais o Castelo da Amieira, que é assaz forte e bem formoso, os paços e assentamento de Bom Jardim a par da Sertã, que é boa obra e graciosa de ver, e a forte casa de Flor de Rosa, que é cerca do Crato, lugar defensável e bem obrado, no qual edificou uma grande e devota igreja em honra de Santa Maria. E para ser mais honrada, ordenou dela nova comenda com abastança de bens, que lhe deu para viver honrado o comendador dela.

Este foi privado de três Reis de Portugal, convém a saber, delRei dom Afonso, delRei dom Pedro e delRei dom Fernando, dos quais foi amado por sua bondade, especialmente delRei dom Fernando.

O Prior dom Álvoro Gonçalves viveu longamente e houve, entre filhos e filhas, trinta e dois, entre os quais um foi dom Pedro Álvares, que depois de seu pai foi Prior do Hospital, e depois, Mestre de Calatrava em Castela, e este era filha de uma mãe, e outro, NunÁlvares, que era filho doutra mãe, que chamavam Eiria Gonçalves, natural de Elvas, o qual nasceu no mês de Junho de trezentos e noventa e oito anos [25]. E esta foi mui nobre dama quanto a Deus e ao mundo, vivendo em grande castidade e abstinência, fazendo muitas esmolas e grandes jejuns, não comendo carne nem bebendo vinho pelo espaço de quarenta anos.

40. COMO NUNO ÁLVARES FOI TRAZIDO À CORTE DELREI DOM FERNANDO, E COMO TOMOU AS PRIMEIRAS ARMAS DA MÃO DA RAINHA DONA LIONOR.

Este dom Álvoro Gonçalves Pereira, Prior, segundo contam alguns em seus livros, como era sisudo e entendido, assim dizem que era astrólogo e sabedor, e quando lhe alguns filhos nasciam, trabalhava-se de ver as nascenças deles, e pela sua ciência entendeu que havia de ter um filho o qual nunca havia de ser vencido e seria sempre vencedor em todos os feitos de armas em que se acertasse [26]. E dizem que sempre em sua vida dom Álvoro Gonçalves cuidou que esta virtude havia de haver dom Pedro Álvares, seu filho que depois da sua morte foi Prior, e em tal conta o tinha entre seus irmãos. Outros escrevem isto pelo contrário, e desta opinião nos praz mais, dizendo que em casa deste Prior dom Álvaro Gonçalves andava um grão letrado e mui profundo astrólogo a que chamavam mestre Tomás, e por este – contam – que soube o Prior que um dos seus filhos havia de ser vencedor de batalhas, e que este era NunÁlvares Pereira.

E mostra-se claramente ser assim. Porque vindo dom frei Álvoro Gonçalves a casa delRei dom Fernando aderençar [27] seus feitos, pediu por mercê a elRei que tomasse NunÁlvares como seu morador, da qual coisa prazendo a elRei, outorgou de o fazer. E o Prior partiu-se para as suas terras e ordenou de mandar o seu filho à corte, e antes que o mandasse, chamou Martim Gonçalves de Carvalhal, tio de NunÁlvares, irmão de sua mãe, e deu-lhe juramento [28] que uma coisa que lhe queria descobrir nunca a dissesse ao dito NunÁlvares, e prometido por ele de a guardar em segredo, então lhe disse o Prior como queria mandar o seu filho à corte e a ele por seu aio, para o ensinar, e que por tanto lhe rogava que tomasse carrego de o bem criar, que o fazia certo de que aquele seu filho havia de haver tão boas andanças que em todas as batalhas que entrasse sempre delas sairia vencedor, contanto que se chegasse a Deus em todas as suas obras e nenhuma coisa fizesse em seu desserviço.

E ordenado assim desta guisa, partiu o Prior para a corte, quando elRei dom Fernando houve guerra com elRei dom Henrique e passou para Santarém [29],  e levou certas gentes consigo,  e alguns dos seus filhos com ele, entre os quais era este NunÁlvares, moço de treze anos que ainda nunca tomara armas. E passando as gentes delRei de Castela para Lisboa, onde já o seu senhor estava [30], mandou o Prior a NunÁlvares, embora fosse moço, que cavalgassem ele e o seu irmão DiogÁlvares, um bom cavaleiro da Ordem, com alguns da sua casa que mandou ir com eles, para ver que maneira levavam aquelas gentes. E indo eles contra aquela parte por onde diziam que passavam os castelhanos, e não vendo nenhuns deles, tornaram-se para a vila.

E chegando a par do castelo onde elRei com a sua mulher então pousavam, estando-se à mesa, mandaram-nos chamar, e perguntando-lhes onde foram e o que acharam lá donde vinham, eles lhes responderam a tudo segundo as perguntas que lhes faziam. A Rainha dona Lionor, falando nisto, como era mulher muito paçã [31] e de graciosa palavra, disse a ElRei, como em sabor [32], que ela queria tomar NunÁlvares por seu escudeiro, e elRei respondeu que era bem feito, e que ele tomaria por seu cavaleiro DiogÁlvares, seu irmão.

Então disse a Rainha para NunÁlvares que ela o queria armar de sua mão como seu escudeiro, e que não queria que doutras mãos tomasse as armas salvo [33] das suas. NunÁlvares, embora fosse moço, quando isto ouviu, disse que lho tinha em grande mercê, e que prazeria a Deus que ainda ele lho serviria com bons merecimentos, e beijou-lhe as mãos por isso. A Rainha, querendo pôr em obra o que assim dissera, mandou buscar um arnês convenhável para NunÁlvares, mas porque ele era de pouca idade, não lhe podiam achar um tão pequeno, e então disseram à Rainha, como o Mestre dAvis tinha um arnês que houvera em sendo moço, que este seria bom para NunÁlvares, e ela mandou-lho pedir, e como lho trouxeram, deu-o logo a NunÁlvares. E assim tomou ele as primeiras armas da mão da Rainha dona Lionor, e ela daí em diante sempre o chamou por seu escudeiro.

41. COMO O PRIOR COMETEU A SEU FILHO QUE QUISESSE CASAR, E COMO NISTO CONSENTIU E CASOU COM DONA LIONOR DE ALVIM.

Andando assim NunÁlvares em casa delRei por morador, sendo de idade de pouco mais de dezasseis anos, aveio que enviuvou uma dona dEntre Doiro e Minho que havia por nome dona Lionor dAlvim, mulher que fora dum bom cavaleiro chamado Vasco Gonçalves de Barroso. Esta dona era bem filha de algo e cumprida de toda a bondade, assaz rica de bens deste mundo, assim de móveis como de raiz.

O Prior, sabendo parte de sua fama e riqueza, mandou-lhe cometer [34] casamento com NunÁlvares, seu filho, e quando João Fernandes, Comendador de Flor de Rosa, lhe foi cometer da parte do Prior este casamento, a dona deu em resposta que o fizessem saber a elRei, e do que a sua mercê sobre isto mandasse, que ela lhe não sairia do mandado. Tornou João Fernandes com este recado, e o Prior fê-lo saber a elRei, pedindo-lhe por mercê que pusesse em isto a mão, e a elRei prouve disto e mandou-a chamar por sua carta.

Em esta sazão que o Prior disto tratava, era NunÁlvares em sua casa sem de tal saber nenhuma parte [35], e um dia ele chamou o seu filho, não estando aí outrem, e disse-lhe em esta guisa, Nuno, embora tu sejas moço e de nova idade, parece-me que é bem e em serviço de Deus e tua honra que tu hajas de casar, e porque Entre Doiro e Minho há uma mui nobre dona manceba e de grande bondade, é meu desejo, se a Deus prouver, de tu casares com ela, e porende [36] quero de ti saber que é o que te parece disto, e mais não lhe disse.

NunÁlvares, além de ser a todos mesurado [37] de sua natureza, era-o muito mais a seu pai e muito mandado e obediente, e quando lhe ouviu dizer tal razão ficou um pouco como turvado, à uma pela vergonha que de seu pai havia, à outra por lhe falar em feito de casamento, de que a sua vontade andava muito afastada, pois que ele nesta sazão era de pequena idade e todo o seu cuidado não era outro salvo trazer-se bem a si e aos seus, e depois, cavalgar ao monte e à caça, não entendendo em amor de nenhuma mulher, e nem tão-somente [38] isso lhe vinha por imaginação [39]. Mas lia amiúde por livros de histórias, especialmente da história de Galaaz que fala da Távola Redonda, e porque nelas achava que pela virtude da virgindade Galaaz acabara [40] grandes e notáveis feitos que outros acabar não podiam, desejava muito de o semelhar em alguma guisa, e muitas vezes cuidava para si de ser virgem, se lho Deus guisasse. E por tanto era muito afastado do que lhe seu pai falara em feito de casamento, porém, para lhe obedecer e dar resposta à sua pergunta, disse-lhe em esta guisa, Senhor, vós me falais em casamento, coisa de que eu não era avisado, portanto vos peço por mercê que me deis lugar para cuidar nisto, e assim vos poderei responder.

O pai disse que era bem feito, como quer que se maravilhava muito por lhe assim responder, sendo homem tão novo de dias, e falou com sua mãe, Eiria Gonçalves, tudo o que com ele lhe aviera, encomendando-lhe que o demovesse a que consentisse em tal casamento. Sua mãe falou com ele, mas não o podendo reduzir nem mudar da sua primeira intenção, falaram com NunÁlvares, Álvoro Pereira, seu primo, e Álvoro Gil de Carvalho, com que havia grande afeição, e pelas suas afincadas razões consentiu de o fazer, pois que a seu pai prazia.

Em tanto [41] chegou dona Lionor dAlvim a Vila Nova da Rainha, onde elRei e sua mulher estavam, e bem recebida por eles, fê-lo logo elRei saber ao Prior, e ele veio com seu filho NunÁlvares. E logo como chegaram, o casamento foi feito e NunÁlvares recebido com a dona sem mais festa, porquanto era viúva. Ao outro dia partiu o Prior com o seu filho e a nora para as terras da Ordem, a um lugar que chamam Bom Jardim, e ali conheceu NunÁlvares sua mulher dona Lionor, à qual com verdade desde então podiam chamar dona, porque posto que ela por tal nome fosse antes nomeada [42], verdadeiramente era donzela, pois o seu primeiro marido nunca dela houve tal conhecimento, o que ela sempre bem encobriu por sua grande bondade.

42. COMO NUNO ÁLVARES PARTIU PARA SUA CASA, E DA MANEIRA DO SEU VIVER.

Folgou NunÁlvares com a sua mulher em casa de seu pai por alguns dias, depois partiu-se e foram-se para Entre Doiro e Minho, onde ela tinha a sua casa de morada e havia os seus herdamentos [43], e foi ali bem recebido e visitado pelos bons da comarca, oferecendo-lhe as suas amizades como é de costume.

NunÁlvares era de pouca e branda palavra, e o seu bom gasalhado, e doces razões, contentava muito a todos. Ele era mais monteiro que caçador, como quer que [44] de tudo usasse quando cumpria. Em sua casa havia de cote [45] doze a quinze escudeiros e vinte a trinta homens de pé, segundo a terra requer, e estes todos bons e bem homens para feito, que ele nunca doutros se contentava nem contentou em seus dias. Nenhuma coisa fazia com rancor ou ódio, mas pela grande custa [46] que tinha, e depois pela terra ser assim azada, às vezes passava além do razoado, como quer que não tanto que sempre nele não fosse o temor de Deus, ouvindo suas missas e vivendo bem e honestamente com a sua mulher, da qual houve três filhos, convém a saber, dois que logo morreram à nascença e uma filha que houve por nome dona Beatriz, que depois foi condessa e mui nobre senhora, como adiante diremos.

Nesta sazão, ao cabo duns três anos, estando o Prior, seu pai, na Amieira, faleceu por morte cumprido de longa idade, e foram juntos ao seu finamento nove filhos e nove filhas, sendo um deles NunÁlvares. E feitas naquele lugar as suas exéquias honradamente, dali foi levado à igreja de Flor de Rosa que ele edificara. Então foi feito Prior o seu filho dom PedrÁlvares, irmão de NunÁlvares, como quer que dom frei Álvoro Gonçalves Camelo, que então era comendador de Poiares, tinha direito no Priorado, mas fê-lo fazer [47] elRei dom Fernando.

Depois disto, morto elRei dom Henrique, reinando em Castela dom João, seu filho, e havendo guerra com elRei dom Fernando, ouvistes como foi chamado NunÁlvares para estar na frontaria com dom PedrÁlvares, seu irmão, depois, como requestava [48] João dAzores, filho do Mestre de Santiago de Castela, como esteve com seu irmão, sendo este fronteiro em Lisboa, e do que lhe aí aveio numa escaramuça, que maneira teve para ser com elRei na batalha que houvera de haver em Elvas [49], como, depois da morte delRei dom Fernando, quisera ser com o Mestre na morte do Conde João Fernandes, e porque então não se azou, se despediu dele e se foi após seu irmão, o qual alcançou no lugar de Ponteval, e pois que já isto tendes ouvido, cumpre a tornar [50] a pôr em escrito o que lhe aveio, em tempo do Mestre, depois que partiu da cidade de Lisboa, onde deixamos de seus feitos falar.

43. COMO NUNO ÁLVARES SOUBE QUE O CONDE JOÃO FERNANDES ERA MORTO, E DAS RAZÕES QUE HOUVE COM SEU IRMÃO SOBRE ISSO.

Assim foi que partido NunÁlvares de Lisboa – por não se azar a morte do Conde João Fernandes, segundo dissemos em seu lugar, quando falou com o Mestre sobre isso – e indo-se para dom PedrÁlvares, seu irmão, foi-o alcançar num lugar que chamam Ponteval, a doze léguas da cidade. E estando ali com ele, chegou Gonçalo Tenreiro, da parte da Rainha, com o recado ao Prior de que todavia [51] fosse ao seu serviço e que ela o acrescentaria, fazendo-lhe muitas mercês, e lhas faria fazer a seu filho, elRei de Castela. Deste recado foram NunÁlvares e muitos dos outros que com o Prior estavam mal-contentes, especialmente NunÁlvares, a que muito desprouve [52], em guisa que não se pôde ter que não falasse ao Prior, dizendo que não haveria bom conselho em dar lugar a tal embaixada, mas o Prior não curou do seu razoar nem lhe respondeu nenhuma coisa, e partiu-se dali e foi-se a Santarém.

Estando eles naquele lugar, foi NunÁlvares aposentado em Santa Maria de Palhais, e um dia à tarde, depois da ceia, saiu Nuno Álvares a folgar pela praia [53] afundo, contra a igreja de Santa Eiria, e passando por ante a porta dum alfageme, viu-lhe ter uma espada muito limpa e bem corrigida, e tomou-a na mão e perguntou-lhe se corrigiria assim uma sua, e ele respondeu que sim e muito melhor ainda, e NunÁlvares fez logo ir por ela e mandou-lha dar para que a corrigisse.

Ao outro dia tornou NunÁlvares por ali à tarde, e achou-a corrigida muito à sua vontade e tomou-a na mão, sendo com ela ledo, e mandou a um homem seu que lhe pagasse bem o trabalho. O alfageme respondeu e disse, Senhor, eu por ora não quero de vós nenhuma paga, mas ireis muito em boa hora e tornareis por aqui Conde dOurém, e então me pagareis o que mereço.

Não me chameis senhor, disse NunÁlvares, que o não sou, mas todavia quero que vos paguem bem.

Senhor, disse ele, eu vos digo a verdade e assim será cedo, prazendo a Deus.

E assim foi depois, como ele disse, que a pouco tempo tornou por ali Conde dOurém e lhe pagou bem o corregimento da espada, como adiante ouvireis.

Em isto chegaram novas a Santarém de como o Mestre matara o Conde João Fernandes, e que isso mesmo foram mortos o Bispo de Lisboa e outros. NunÁlvares, como isto ouviu, foi-se logo ao Prior, seu irmão, contar-lhe estas novas que assim ouvira, dizendo que isto era obra de Deus, que se queria lembrar do reino de Portugal, pois que os da cidade queriam tomar o Mestre por seu regedor e defensor para defender o reino contra elRei de Castela, que era fama que vinha para entrar nele, e pois que tal coisa se começava, que lhe pedia por mercê que todavia se tornasse para o Mestre, para o ajudar e defender o reino.

O Prior não curou de quanto sobre isto lhe falava, dizendo que aquela coisa era perigosa e mui mau começo para as gentes, que se seguiria disto grão dano ao reino, e que não tinha siso o que ia pensar que tal feito havia de ir adiante, como ele dizia. NunÁlvares disse que aquilo não era mal, e que o Mestre fizera bem, e o que devia, ao vingar a desonra delRei, seu irmão, e ao se pôr a defender o reino que os seus avós com grão trabalho ganharam, e que Portugal sempre fora reino e isento por si [54], e não sujeito a Castela, e que agora não era razão de o ser.

O Prior tornou a dizer que tal coisa não era para se falar nela, que Portugal não estava em ponto [55] de se defender delRei de Castela, que era um tão poderoso Rei, ademais com a maior parte de Portugal que por ele teria, pelas menagens que lhe haviam feitas segundo nos tratos era contido. NunÁlvares respondeu, dizendo que tais menagens não eram de guardar, pois que elRei quebrava os tratos e que todos os fidalgos podiam ser em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo [56], o qual bem poderia juntar mil homens de armas e muitos homens de pé com que lhe podia pôr batalha, e que mais valia pôr-se o Mestre em aventura com eles todos e pelejar com elRei de Castela, que ficarem sujeitos dos castelhanos e usarem depois deles a seu livre talante. O Prior disse que as coisas não estavam em estado para tal obra se poder começar e acabar seguramente, portanto, que não falassem mais em tal história.

NunÁlvares, vendo que achava o Prior muito arredado da sua intenção, falou com DiogÁlvares, seu irmão, que se fossem todavia para o Mestre, e ele outorgou que lhe prazia, e ficaram ambos neste acordo.

44. COMO NUNO ÁLVARES DESCOBRIU AOS SEUS QUE SE QUERIA IR A LISBOA PARA SERVIR O MESTRE.

Partiu o Prior para as suas terras pelo caminho da Golegã, e NunÁlvares e DiogÁlvares, seus irmãos, não foram com ele e encaminharam para Lisboa, onde o Mestre estava, segundo antes tinham acordado, e sendo já arredados até três léguas do lugar, Diogo Álvares arrependeu-se da partida [57] que fizera e disse que se queria tornar para o Prior, seu irmão.

NunÁlvares, que de tal vontade o desviar não pôde, houve de despedir-se dele, e veio dormir esse dia a uma aldeia que chamam a Eireira, e ali chamou adeparte os seus escudeiros e disse, Amigos, eu vos quero contar um segredo e grande feito que trago cuidado em meu coração, o qual é este, assim é que eu vejo, no meu entendimento, um poço mui alto e mui profundo cheio de grande escuridão, e bem me diz a vontade que não há homem que nele salte que dele possa escapar, salvo por grande milagre, querendo-o Deus livrar dele por sua mercê, mas não posso com meu coração senão que todavia salte nele. E porque há já dias que vós sois meus companheiros, e eu hei provado o vosso bom desejo acerca dos meus feitos, por isso vos faço saber esta coisa, por quanto eu todavia quero saltar nele. E aqueles de vós a que prouver de comigo nele saltarem, ter-lho-ei em grande bem e estremado serviço. Os outros a que não prouver, podem-se ir para onde quiserem e fazer dos seus corpos o que para mais seu proveito sentirem.

Os escudeiros, quando isto ouviram, ficaram espantados e não sabiam o que dizer, portanto responderam e disseram, NunÁlvares, vós bem sabeis que nós somos vossos e prestes para o vosso serviço, mas esta coisa de que nos falais é assim tão escura, tão má de entender, que nenhum de nós sabe o que vos responda, por isso vos praza que no-la declareis para sabermos o que é, e então vos daremos resposta segundo o que entendermos.

NunÁlvares tornou então à sua razão e disse, Amigos, o poço mui alto e escuro que vejo ante os meus olhos é a grande demanda, que o Mestre dizem que quer começar, por a defensão destes reinos contra elRei de Castela, e entendo que a quem com ele nela entrar lhe será grave e mui perigoso, e nem é ainda de cuidar que dela escape, salvo pela graça de Deus. E porque a minha tenção é de me ir para ele e de o servir nela, por isso vos disse se vos prazia de serdes nisto meus companheiros.

Eles responderam então, dizendo, NunÁlvares, nós somos vossos e para o vosso serviço, e somos prestes para vos acompanhar nesta demanda que seguir quereis e em qualquer outra coisa que vós sintais para vossa honra e proveito, posto que grão perigo seja, até despendermos os corpos e as vidas para vosso serviço.

NunÁlvares lho agradeceu por boas palavras, dizendo que ele era prestes para lho galardoar em toda a coisa que de sua honra e proveito fosse, como a bons criados e amigos.

45. COMO NUNO ÁLVARES CHEGOU A LISBOA E DAS RAZÕES QUE DISSE AO MESTRE.

NunÁlvares ao outro dia seguiu o seu caminho – estando então a Rainha em Alenquer, e com ela os Condes seus irmãos, e outros muitos, como dissemos – e quando chegou a Alverca determinou de dormir ali. A Rainha soube como ele se ia a caminho de Lisboa para o Mestre, e quisera mandar a ele certas gentes que o prendessem, dizendo para aqueles que eram presentes, Vistes tal sandice de Nuno, que eu criei tamanino [58], que deixou o Prior seu irmão, com que ia, e agora vai-se a Lisboa para o Mestre?

Senhora, disseram alguns que aí estavam que queriam bem a Nuno Álvares, não haveis porque o mandar prender, posto que ele vá para Lisboa, pois não sabeis a intenção que leva, que porventura ele vai com tal vontade e desejo que de lá vos poderá tão bem e melhor servir do que se vier aqui para vós.

NunÁlvares foi sabedor disto aquela noite que dormiu na Alverca, e temendo-se muito de a Rainha o mandar prender ao caminho falou com os seus escudeiros, apercebendo-os de que se tal coisa aviesse, antes todavia se deixassem morrer do que haverem de ser presos, e toda aquela noite nunca foram desarmados nem as bestas desseladas.

Ao outro dia chegou NunÁlvares a Lisboa e foi logo falar ao Mestre, que o mui bem recebeu, dizendo que da sua vinda lhe prazia muito e que havia dias que o desejava de ver. Os da cidade isso mesmo foram mui ledos com ele e receberam-no todos mui bem.

E dois dias depois que NunÁlvares chegou a Lisboa, foi-se ao Paço do Mestre e falou-lhe em esta guisa, Senhor, grandes dias há que eu muito desejei e desejo de vos servir, e não foi minha ventura de até este tempo o poder fazer, e porque agora vós sois em tal ponto e estado que cuido que poderei cobrar o que tanto desejava, eu vos ofereço a mim e ao meu pobre serviço com mui boa vontade, e vos peço por mercê que daqui em diante me hajais para todo vosso quite [59], servindo-vos de mim em todas as coisas como de homem que para isso serei muito prestes.

O Mestre lhe agradeceu muito a sua boa vontade, porque dias havia que o conhecia por bom, recebendo-o por seu, como ele disse, e fê-lo do conselho com os outros que nele estavam, e daí em diante não fazia coisa de que ele parte não soubesse.

46. COMO A MÃE DE NUNO ÁLVARES VINHA PARA TURVAR SEU FILHO DO SERVIÇO DO MESTRE, E DO QUE SOBRE ISTO AVEIO.

Eiria Gonçalves, mãe de NunÁlvares, estava a este tempo na vila de Portalegre, que são quatro léguas do Crato, onde o Prior mais os seus irmãos haviam então chegado, e quando soube que o seu filho NunÁlvares não tornara com eles, veio-se logo ali à pressa, perguntando que era de NunÁlvares, seu filho. O Prior disse que ficara em Santarém e que esperava a cada dia por ele, e ela respondeu que bem parecia que curava pouco de seu irmão e que nunca lhe quisera bem, e que agora o mostrava por obra, pois que vindo em sua companha, não fizera conta de o trazer consigo.

E partiu logo a caminho de Lisboa, onde soube que NunÁlvares estava. E falando com ele, disse quanto lhe parecia grave coisa e mui perigosa aquilo que fazer queria, em se chegar a servir o Mestre e ajudar-lhe a defender o reino contra toda Castela e contra a maior parte de Portugal, mostrando-lhe muitas e vivas razões por que a intenção que tomava não podia ir adiante, nem podia por ela crescer em bem nem em honra, NunÁlvares, firme em seu propósito, dava-lhe outras contrárias razões a desfazer quanto ela dizia, de guisa que tanto razoaram sobre isto, que onde [60] ela vinha para reduzir o seu filho ao serviço delRei de Castela, NunÁlvares a reduziu então a ela para encaminhar ao serviço do Mestre. E sendo ambos de acordo que era bem o que lhe ele dizia, tornou ela a dizer a NunÁlvares, Filho, eu vos rogo e vos encomendo por a minha bênção, pois que vós escolhestes o Mestre para o servir e ficar com ele, que vós o sirvais sempre bem e verdadeiramente e vos não partais dele em nenhuma guisa, por coisa que avir possa, e eu farei logo vir para vós Fernão Pereira, vosso irmão, para que seja vosso companheiro em seu serviço. E ele disse que assim o faria.

O Mestre, sabendo como ela era na cidade e como vinha para demover o seu filho da vontade que tinha de o servir, foi-a ver às casas onde pousava, e contou-lhe como a sua tenção era de se dispor a defender o reino, e que entendia que ela não viera ali salvo para demover o seu filho da vontade que tinha de o servir, e que por isso lhe rogava que em tal coisa se não quisesse tremeter [61] nem o turvasse, que isto a que ele se queria pôr era em serviço de Deus e honra do reino, e que esperava em Deus que ele lhe encaminharia tão bem os seus feitos que o seu filho sairia deles com grande acrescentamento da sua honra. E falando ambos nisto, ela lhe respondeu quanto lhe prazia do seu filho ficar com ele para o servir e que assim lho tinha mandado por a sua bênção.

Então se partiu ela para donde viera e falou com o seu filho Fernão Pereira, e encaminhou as coisas de tal guisa com ele que se partiu logo com a sua gente e se foi a Lisboa para o Mestre.

 



[1] O tema da vida e dos feitos de Nuno Álvares é inserido ao longo desta Crónica e concluído no final dela.

[2] Despertem, façam.

[3] Não há ninguém.

[4] Muito áspera e difícil.

[5] Por isso.

[6] De tal forma.

[7] Falta, erro.

[8] Censurar.

[9] Gratificante.

[10] Fácil, simples.

[11] Cada uma das suas bondades.

[12] Do seu falecimento.

[13] Em recontá-las.

[14] Repreensível.

[15] Neste tempo, neste mundo.

[16] Não pode haver ninguém que de algum defeito possa estar isento.

[17] Alguns.

[18] Acusando-nos.

[19] Aquilo que já não podemos fazer como cumpre.

[20] A esses outros autores que tanto gostavam de o criticar.

[21]  Nada tinha sido escrito, no plano do prólogo panegírico, a longamente «louvar e dizer as bondades» de Nuno Álvares. Coteje-se este capítulo com o início do Prólogo ao Reinado de D. João I (ver capítulo 201).

[22] Motivar, inspirar.

[23] Ora.

[24] Liberal.

[25] Ano de1360.

[26] Em que se encontrasse.

[27] Tratar de.

[28] E fê-lo jurar.

[29] Na segunda guerra fernandina.

[30] Chegara ali a 23 de Fevereiro de 1373.

[31] Cortês.

[32] Por gracejo.

[33] Senão, excepto das suas.

[34] Propor.

[35] Nada, coisa nenhuma.

[36] Por conseguinte.

[37] Atencioso, respeitoso.

[38] Sequer.

[39] À imaginação.

[40] Realizara.

[41] Enquanto isso.

[42] Tratada socialmente.

[43] As suas propriedades, bens imóveis.

[44] Se bem que.

[45] Quotidianamente.

[46] Despesa.

[47] Fê-lo eleger Prior.

[48] Desafiou para combate.

[49] Todos estes episódios são narrados na História do Rei D. Fernando.

[50] A voltar.

[51] Sempre.

[52] Desagradou.

[53] Praia fluvial.

[54] Independente.

[55] Em condições, capaz.

[56] Censura.

[57] Escolha.

[58] Criança.

[59] Assunto.

[60] Quando.

[61] Meter.