Ano Segundo

Que foi ano do nascimento de Nosso Senhor Jesu-Christo de mil e trezentos cinquenta e um, e da Era de César, segundo o costume de Espanha, de mil trezentos e oitenta e nove, e da Criação do mundo, segundo a conta dos Hebreus, cinco mil cento e onze, e dos Árabes, em que Mahomad começou a sua seita, setecentos e cinquenta e três.

1. POR QUE RAZÃO SE DIZ EM CASTELA A ERA DE CÉSAR E NOUTRAS PARTIDAS O ANO DA ENCARNAÇÃO OU DO NASCIMENTO DE JESU-CHRISTO, E NA CORTE DO PAPA TÊM A CONTA DA INDICÇÃO, E OS JUDEUS A DA CRIAÇÃO DO MUNDO, E OS MOUROS A DO COMEÇO DO SEU FALSO MAHOMAD. E CADA CONTA DESTAS COMO SE CONHECE E SE ACHA.

Porquanto nesta Crónica dizemos (1), em cada tempo, quando acontece o ano do Nascimento de nosso Senhor Jesu-Christo e outrossim o da Era de César, o da Criação do mundo e o ano dos Árabes, queremos aqui declarar porque se pôs cada conto destes, e como se acha e se guarda.

O Ano segundo que elRei Dom Pedro reinou, começando os anos daqui em diante sempre no primeiro dia de Janeiro, foi o ano do Nascimento de nosso Senhor Jesu-Christo de mil e trezentos e cinquenta e um, e o da Criação do mundo, segundo a conta dos Hebreus, de cinco mil cento e onze, e o ano dos Árabes de setecentos e cinquenta e três, e o da Era de César, segundo o costume de Espanha, de mil e trezentos e oitenta e nove.

E a razão pela qual há esta Era do César é porque o Imperador que houve nome Octaviano César Augusto, sobrinho do Imperador Júlio César, fez paz com todas as gentes do mundo e pô-las sob o seu Senhorio, e foram todos seus súbditos e ele foi Monarca, que é dito, em Latim, «Senhor de todo o mundo». E disse-se no seu tempo «Era», e ficou por costume em Espanha de serem assim chamados os tempos, porquanto o dito Octaviano César Augusto ordenou que, até certos anos, todos os dos seus Senhorios se viessem a escrever, para saber quantos eram, cada um na sua comarca, e que desse cada um deles um dinheiro em sinal de reconhecimento do Senhorio em que todo o mundo o obedecia. E porque em Latim o cobre de que fazem moeda é chamado «aes», «aeris», ficou aquele nome «Era», porque é liga de cobre – bronze – e dele se fez moeda, segundo dito é. E assim daquele nome chamam «a Era», que quer dizer o ano em que César mandou escrever e levar moeda de cada um dos seus súbditos para o reconhecimento da obediência que lhe fizeram. E porque Espanha era uma província das que assim lhe obedeceram, ficou com este costume que antigamente tiveram de chamar «a Era de César».

E naquele tempo em que Octaviano ordenou que todos os do mundo se viessem a escrever, ia Joseph e levava consigo Sancta Maria, desde a terra de Galilea, da cidade de Nazared, à Judea, à cidade donde era David, que é chamada Betleen, e ali nasceu Jesu-Christo. E outrossim alguns contam o ano desde a Encarnação, porque este é o dia em que a Virgem Maria foi saudada pelo Anjo Gabriel, que é aos vinte e cinco dias de Março, oitavo das calendas de Abril, e chamam-lhe ano da Encarnação porque quando a Virgem disse ao Anjo, «Cumpra-se em mim segundo a tua palavra», naquela hora foi encarnado nosso Senhor Jesu-Christo e ela prenhada, e portanto o dizem ano da Encarnação. E outros chamam-no ano da Graça porquanto o Anjo Gabriel, quando a saudou, disse à Virgem, «Deus te salve cheia de graça». Outrossim foi ano de graça e de boa ventura, pois nosso Senhor Jesu-Christo foi naquele ano encarnado na Virgem Sancta Maria, de onde veio a nossa salvação. Outros dizem da Natividade, que quer dizer «Nascimento», e é aos vinte e cinco dias de Dezembro, que é o oitavo das calendas de Janeiro.

E assim nasceu Jesu-Christo na Era de César trinta e oito, e eram passados, desde a Criação do mundo, três mil e setecentos e sessenta anos, e depois da destruição de Tróia, onde profetizou Cassandra Sivila, mil e setenta, e depois que Roma foi povoada, setecentos e cinquenta e dois anos, e do ano da Graça ou da Encarnação, que vem primeiro, até ao ano do Nascimento, nove meses. E nós neste livro teremos o conto do ano do Nascimento, porquanto assim é costume na terra de Castela desde o dia que foi ordenado por elRei Dom Juan neste Reino, segundo adiante diremos nos feitos delRei Dom Juan.

Outrossim deveis saber que, quando nosso Senhor Jesu-Christo nasceu da Virgem Sancta Maria, era já a idade da Criação do mundo, segundo a conta que trazem os Hebreus, em três mil e setecentos e sessenta anos, e começa o ano da Criação do mundo, segundo os Hebreus, ao sexto das calendas de Setembro, que é aos vinte e sete dias de Agosto. E quando o mau do Mahomad começou a enganar e a predicar sua falsa crença, andava a idade em que nosso Senhor Jesu-Christo nasceu em quinhentos e noventa e oito anos. E por aqui podeis sempre fazer a conta para saber tudo isto de cada vez que vos prouver, e o podereis contar sem haver em tal qualquer erro.

Outrossim a Corte do Papa usa pôr o conto da Indicção. E deveis saber que este conto da Indicção descendeu dos Romanos, e a sua razão é esta. Os Romanos, depois que conquistaram, subjugaram e tiveram todo o mundo sob o seu Senhorio, repartiram o tempo para o mundo lhes pagar o tributo em três épocas – cada época durando cinco anos – para que no espaço de quinze anos se pagasse todo o tributo, de guisa que nos primeiros cinco anos se pagava o tributo em ouro a fim de que os de Roma lavrassem moeda para cumprir as soldadas dos Cavaleiros, e para as outras coisas em que Roma o havia de ter em tesouro. Outrossim nos outros cinco anos seguintes (2) pagavam todos os tributários a Roma o tributo em bronze, e dele faziam em Roma imagens em reverência e honra daqueles Imperadores, Senhores, Cavaleiros e outros quaisquer que praticavam algum feito notável de armas e de cavalaria. Outrossim nos outros cinco anos postremeiros pagavam o tributo em ferro, e este era para fazer armas para os que haviam de guerrear e defender a república. E cada tempo destes quinze anos era chamado Indicção, que quer dizer mandamento. E passados os quinze anos sobreditos, tornavam aos primeiros cinco anos e pagavam em ouro, segundo dito havemos. E assim como os Imperadores de Roma tiveram e guardaram este conto, assim as Igrejas de todos os povos de Cristãos se haviam acostumado a fazer reconhecimento à Igreja de Roma ao lhe pagarem tributos especiais, em reconhecimento de que a Igreja de Roma é a maior de todo o mundo. E por isso ainda hoje, nos círios Pascais que se colocam nas Igrejas no dia de Páscoa de Ressurreição, põem o ano da Encarnação de nosso Senhor Jesu-Christo e depois põem a Indicção que então é. E começa-se sempre a contar a Indicção a oito das calendas de Outubro, que é aos vinte e quatro dias de Setembro. E, se quiseres saber a Indicção em que se anda, toma o ano em que nasceu Jesu-Christo e sabe em que número anda, acrescenta mais três anos, parte-os todos por quinze e o que sobra é a Indicção daquele ano, e se não ficar coisa do conto será a Indicção em quinze. E a razão pela qual se acrescentam três ao conto do ano em que nasceu nosso Senhor Jesu-Christo é porque ele nasceu, da bem-aventurada Virgem Sancta Maria, na terceira Indicção dos Romanos.

 

Nota 1. Este capítulo está na Abreviada desta maneira: «O segundo Ano que elRei dom Pedro reinou, começando os anos daqui em diante sempre no primeiro de Janeiro, foi neste ano do Nascimento de nosso Senhor Jesu-Christo de mil e trezentos e cinquenta e um, e na Era de César, segundo o costume de Espanha, de mil e trezentos e oitenta e nove, e esta Era foi do César Otaviano Augusto. Este Imperador Otaviano fez paz com todas as gentes que havia no mundo e pô-las sob o seu senhorio, e foram todos seus súbditos e ele foi Monarca, que é dito, em Latim, «Senhor de todo o mundo». E disse-se «Era», e ficou o costume em Espanha de assim serem chamados os tempos, porquanto o dito Otaviano César Augusto ordenou, no seu tempo, que todos os dos seus senhorios se viessem a escrever, para saber quantos eram, cada um em sua comarca, e que dessem, cada um, um dinheiro, e dado que em Latim um dinheiro é chamado bronze, «aes», porque do bronze se faz moeda, ficou aquele nome Era. E assim daquele nome chamavam a Era, que quer dizer desde o ano em que o César mandou escrever e levar a moeda de cada um dos seus súbditos. E como quer que os dos outros Senhorios e Reinos deixaram este costume, todavia ficou em Espanha por grande tempo, pois assim o escreviam, porém em Aragão não o usam, nem em Castela, desde que elRei Dom Juan o ordenou de há pouco tempo para cá, conforme adiante diremos nos feitos delRei Dom Juan, e somente usam hoje esta Era no Reino de Portugal. E este ano sobredito, no mês de Março, elRei partiu de Sevilla e veio-se para Castela, e queria tomar Dom Nuño, Senhor de Vizcaya, filho de Dom Juan Nuñez de Lara». E daqui passa ao capítulo de Dom Nuño, sem pôr o de Garcilaso de la Vega nem os outros até ao sétimo. Z.

Nota 2. Os que têm opiniões de que as Indicções variavam, a cada cinco anos, no pagamento do tributo com diverso género de metal – que são de nenhum crédito – dizem que no primeiro lustro se pagava o tributo em ferro, no segundo em prata e no terceiro em ouro, e não falam de tributo em bronze. E num e no outro caso não é assim, como se mostra pelo venerável Beda, que, tratando particularmente do princípio das Indicções, nenhuma memória faz disto. Z.

 

2. COMO ELREI DOM PEDRO FOI PARA CASTELA, INDO POR LLERENA, E COMO VEIO AÍ O MESTRE DE SANTIAGO E FIZERAM OS CAVALEIROS DA ORDEM PREITO PELOS CASTELOS AO REI.

Agora tornaremos a contar delRei Dom Pedro, depois que partiu de Sevilla para ir a Castela (1). Assim foi que neste ano segundo, ao começo, elRei Dom Pedro partiu de Sevilla e foi para Castela porquanto havia de fazer Cortes, as quais era acordado que se fizessem em Valladolid. E foi a Llerena, lugar da Ordem de Santiago, e quando chegou aí encontrou Dom Fadrique, Mestre de Santiago, seu irmão, filho delRei Dom Alfonso e de Dona Leonor de Guzman, a quem elRei havia enviado mandar que viesse a ele ao dito lugar de Llerena. E fez ali o Mestre ao Rei muito serviço de viandas e de todas as coisas que se podiam haver. E os Freires da Ordem de Santiago que eram Comendadores e que tinham castelos e fortalezas da Ordem fizeram então preito e homenagem ao Rei, por esses castelos, de que não acolheriam neles o Mestre Dom Fadrique sem especial mandado delRei, mas em todas as outras coisas elRei mandou-lhes que servissem ao Mestre como deviam servir a seu Mestre e a seu Senhor. E ficou o Mestre assegurado na mercê delRei, e este mandou-o ir para sua terra e deu-lhe licença que não fosse às Cortes que se haviam de fazer em Valladolid.

 

Nota 1. A 16 de Fevereiro ainda não tinha saído de Sevilla, pois em documento datado daquela cidade concedeu aos vizinhos de dentro e de fora dela franqueza de pastos para os seus gados. Cita este privilégio Zuñiga, Anais, p. 207. E.

 

3. COMO O MESTRE DE SANTIAGO VIU A DONA LEONOR DE GUZMAN, SUA MÃE, EM LLERENA, E COMO ELREI ENVIOU PRESA A DITA DONA LEONOR A TALAVERA E A MATARAM AÍ.

Quando elRei Dom Pedro chegou a Llerena, segundo que havemos contado, vinha ali a Rainha Dona Maria, sua mãe, e trazia presa Dona Leonor de Guzman, e pousava esta sempre no palácio da Rainha, mas mui guardada. E quando a Llerena chegou a dita Dona Leonor, o Mestre Dom Fadrique, seu filho, pediu em mercê ao Rei que lhe desse licença para que a pudesse ver, e elRei teve-o por bem. E o Mestre foi vê-la, e Dona Leonor tomou o Mestre, seu filho, e abraçou-o, beijou-o e esteve uma grande hora chorando com ele, e ele com ela, e não disseram nenhuma palavra um ao outro. E os que estavam aí por guardas de Dona Leonor disseram ao Mestre que se fosse para elRei, e o Mestre assim o fez e nunca mais viu Dona Leonor, sua mãe, depois daquele dia, nem ela a ele.

E logo foi ali ordenado por elRei, por conselho de Dom Juan Alfonso de Alburquerque, que levassem a dita Dona Leonor presa a Talavera, que era vila da Rainha Dona Maria, mãe delRei. E tinha o alcazar da dita vila Gutier Ferrandez de Toledo, e elRei mandou a Gutier Ferrandez que tomasse Dona Leonor e a levasse a Talavera, e ele assim o fez, que logo em seguida partiu e a levou presa a Talavera, e pô-la no alcazar da dita vila que tinha por ele um Cavaleiro, natural dali, que diziam Gutier Garcia de Talavera (1). E daí a poucos dias a Rainha Dona Maria enviou um seu Escrivão (2), que diziam Alfonso Ferrandez de Olmedo, e este por seu mandado matou a dita Dona Leonor no alcazar de Talavera.

E disto pesou muito a alguns do Reino, pois entendiam que por tal feito como este viriam grandes guerras e escândalos ao Reino, segundo foram depois, porquanto a dita Dona Leonor havia filhos grandes e muitos parentes. E em estes feitos tais que seria mui melhor evitá-los, por pouca vingança recrescem depois muitos males e danos, que muito mal e muita guerra se gerou em Castela por tal razão.

 

Nota 1. Nas impressas, «Gutier Fernandez de Talavera». Z.

Nota 2. Idem, «um seu Escudeiro». E.

 

4. COMO ELREI ENVIOU MANDAR A DOM JUAN GARCIA MANRIQUE QUE FOSSE PARA PALENZUELA, ONDE ESTAVA DOM TELLO, SEU IRMÃO, E NÃO SE PARTISSE DELE.

Logo que estas coisas assim se passaram, enviou elRei mandar a Dom Juan Garcia Manrique, um Rico homem de Castela de quem ele fiava, que fosse para Palenzuela, onde estava Dom Tello, irmão delRei, filho delRei Dom Alfonso e de Dona Leonor de Guzman, e que não se partisse dele porquanto a dita vila de Palenzuela era mui forte e elRei não se fiava de Dom Tello. E Dom Juan Garcia Manrique fê-lo assim, segundo elRei lhe enviou mandar, e foi logo para Palenzuela e achou aí Dom Tello e, com ele, Pero Ruiz de Villegas, que era seu Mordomo-mor, e esteve lá até que soube que elRei era em Castela e chegara à cidade de Palencia (1).

E então Dom Tello saiu de Palenzuela e, com ele, Dom Juan Garcia de Manrique e Pero Ruiz de Villegas, seu Mordomo-mor, e foi-se para elRei. E, logo que chegou a ele, beijou-lhe as mãos, e disse-lhe elRei, «Dom Tello, sabeis como vossa mãe, Dona Leonor, é morta?» E Dom Tello, por conselho de Dom Juan Garcia Manrique – que lhe admoestou que assim o dissesse – respondeu ao Rei, «Senhor, eu não hei outro pai nem outra mãe salvo a vossa mercê». E prouve ao Rei da resposta que Dom Tello deu.

 

Nota 1. Encontrava-se em Valladolid a 15 de Abril deste ano, e, com data dessa Vila, confirmou à Igreja de Astorga um privilégio sobre as peitas que lhe deviam pagar os Judeus – Arquivo de Astorga. A 28 desse mês escreveu desde a mesma Vila a Dom Martin, Abade de Palazuelos, mostrando a muita estima que tinha por ele e os seus Monges – Manrique, Anais Cistercienses, tomo 4, p. 589. E.

 

5. COMO ELREI CHEGOU A UM LUGAR QUE DIZEM CELADA, QUE É CERCA DE BURGOS, E VEIO AÍ GARCI LASO, E COMO ELREI MANDOU A ALGUNS CAVALEIROS QUE ENTRASSEM NA JUDIARIA DE BURGOS.

ElRei Dom Pedro, como quer que havia feito mandamento a todos os do Reino que viessem à sua vila de Valladolid, às Cortes que ele queria aí fazer, todavia, enquanto se ajuntavam as companhas do Reino que haviam de vir às Cortes, acordou de ir a Burgos, porque, depois que Dom Juan Nuñez de Lara, Senhor de Vizcaya, partira de Sevilla e viera a Castela, houvera em Burgos alguns movimentos, que um homem delRei, que demandara que pagassem a alcavala, foi aí morto e os que o mataram não foram presos, e por esta razão elRei estava queixado, dizendo que os da cidade não fizeram nisso a diligência que deviam. Outrossim era em Burgos Garci Laso de la Vega com mui grandes companhas, quer companhas suas, quer de Cavaleiros seus parentes e amigos, e havia igualmente na comarca outros Cavaleiros que não eram amigos de Garci Laso, e andavam todos, uns com os outros, mal avindos.

E elRei chegou a um lugar que é a quatro léguas de Burgos, ao qual chamam Celada, a uma quinta-feira no mês de Maio, e achou aí Garci Laso, que o saiu a receber, e na sua companhia vieram Ruy Gonzalez de Castañeda, um Rico homem que era casado com Dona Elvira Lasa, irmã do dito Garci Laso, e Pero Ruiz Carrillo, que era casado com outra irmã de Garci Laso, que diziam Dona Urraca Lasa, e vinham aí com ele Gomez Carrillo, filho do dito Pero Ruiz Carrillo, e outros muitos Cavaleiros e Escudeiros. E, naquele dia que elRei chegou ao lugar de Celada, chegou aí Dom Tello, seu irmão, filho delRei Dom Alfonso e de Dona Leonor de Guzman, e vinham com ele Dom Juan Garcia Manrique e Pero Ruiz de Villegas, e houveram logo Dom Juan Garcia Manrique e Pero Ruiz de Villegas com Garci Laso, ante elRei, palavras mui más, mas elRei mandou-os calar e naquele dia não houve mais. E ao outro dia, sexta-feira, quando elRei já tinha ouvido Missa e cavalgava para ir a Tardajos, uma Aldeia que é a duas léguas de Burgos, encontrou Garci Laso e todos os de seu bando armados e em cavalos, e Dom Tello, Dom Juan Garcia Manrique, Pero Ruiz de Villegas e os que com eles estavam foram-se armar. E começaram outra vez a haver palavras e más razões, e estava aquele dia Garci Laso mui acompanhado, e elRei mandou-os calar e apartar uns dos outros.

E porquanto soube elRei como Garci Laso tinha na cidade de Burgos muitas companhas, mandou a Pero Ruiz de Villegas, a Dom Juan Garcia Manrique e a outros Cavaleiros que fossem a Burgos, entrassem na Judiaria, pousassem aí e se apoderassem dela, e eles fizeram-no assim. E ao outro dia, sábado, entrou elRei em Burgos e foi pousar às casas do Bispo que diziam ao Sarmental. E pousava a Rainha Dona Maria, sua mãe, com elRei, e Dom Juan Alfonso de Alburquerque pousava nas casas de Fernan Garcia de Areilza, a Sant Esteban, e Garci Laso pousava noutras casas do Bispo, que dizem a Sant Llorent.

E Juan Estevañez de Burgos, criado delRei Dom Alfonso, quando viu que elRei enviara gentes a tomar a Judiaria, saiu da cidade e fugiu para Aragão, e ali foi preso numa vila que dizem Daroca, por mandado delRei de Aragão, porquanto elRei de Castela lhe enviou rogar que o fizesse assim, e depois fugiu dali e foi-se para Aguilar, onde estava Dom Alfonso Ferrandez Coronel, segundo adiante contaremos.

 

6. COMO FOI MORTO GARCI LASO EM BURGOS, E OUTROS DA CIDADE.

ElRei, depois que chegou naquele sábado a Burgos, houve o seu conselho, e disseram-lhe então alguns que Garci Laso tinha muitas companhas consigo e que estas faziam grandes escândalos na sua Corte e no Reino, e ademais que, quando elRei adoecera em Sevilla e cuidavam que morreria, Garci Laso, Dom Alfonso Ferrandez Coronel e outros tratavam que Dom Juan Nuñez reinasse. Outrossim diziam ao Rei que, quando Dom Juan Nuñez de Lara, Senhor de Vizcaya, viera de Sevilla para Castela, se tratavam algumas coisas que não eram em seu serviço, e ainda que, se o dito Dom Juan Nuñez vivera, houvera assaz de bulícios em Castela. E elRei dizia que estava queixado dos da cidade de Burgos, porquanto – quando chegou ao lugar de Celada – os de Burgos lhe enviaram dizer que Garci Laso tinha muitas companhas em Burgos e que Dom Tello, Dom Juan Garcia Manrique e Pero Ruiz de Villegas traziam outrossim muitas gentes, e que por conseguinte receavam que, se todos entrassem na cidade, haveria arruído, e que seria bom que elRei ordenasse que entrassem certas companhas, e não mais. E os que com elRei estavam – especialmente Dom Juan Alfonso de Alburquerque, que à sazão governava o Reino – diziam que os de Burgos não deviam pôr regra às gentes que elRei quisesse alojar na sua cidade.

E esta foi uma razão porque os da cidade de Burgos foram na sanha delRei, e outra foi porque Juan Estevañez de Burgos, privado que fora delRei Dom Alfonso, quando então estava em Burgos, fez com que os da cidade enviassem ao Rei mensageiros seus, a Celada, pelos quais lhe pediam por mercê que Dom Juan Alfonso de Alburquerque não entrasse na cidade, porquanto se receavam dele. E disto não prouve ao Rei, e Dom Juan Alfonso fez, por isso, que alguns deles passassem mal, e por tanto elRei acordou com Dom Juan Alfonso e com os do conselho que era bom de assossegar e escarmentar os de Burgos. E tudo isto instigava Dom Juan Alfonso, que tinha poder sobre o Rei e o Reino, e quisera sempre mal a Garci Laso, porquanto este tratara em Sevilla algumas coisas com Dom Juan Nuñez de Lara acerca da questão do Reino, quando elRei adoeceu nessa cidade.

E logo nesse dia de sábado, à noite, depois que elRei era já em Burgos, a Rainha Dona Maria, sua mãe, enviou um Escudeiro a Garci Laso para que lhe dissesse que ela lhe mandava recado que não viesse ao palácio ao outro dia, domingo, por nenhuma maneira do mundo, mas Garci Laso não o quis crer e, ao invés, no outro dia, domingo, de grande manhã, foi ao palácio, estando as portas mui guardadas, e entrou Garci Laso e, com ele, Rui Gonzalez de Castañeda e Pero Ruiz Carrillo, seus cunhados, casados com suas irmãs, e Gomez Carrillo, filho de Pero Ruiz Carrillo, e outros Cavaleiros e Escudeiros. E, desde que foram entrados onde estava elRei, foi-se a Rainha para outra câmara e Dom Vasco, Bispo de Palencia, seu Chanceler-mor, foi com ela.

E logo que a Rainha partiu dali prenderam três homens da cidade de Burgos, e diziam a um Pero Ferrandez de Medina, a outro Alfonso Ferrandez, Escrivão, e ao outro Alfonso Garcia de Camargo, e a este, por sobrenome, diziam-no o esquerdo (1).

E depois que estes da cidade foram presos e tirados à parte, disse Dom Juan Alfonso de Alburquerque a um Alcaide delRei que aí estava, que diziam Domingo Juan de Salamanca, «Alcaide, vós sabeis o que tendes a fazer». E o Alcaide chegou-se depois ao Rei e disse-lhe em voz baixa, ouvindo-o Dom Juan Alfonso, «Senhor, vós mandais isto? Que eu não o diria». E então disse elRei mui baixo, porém que o ouviam os que ali estavam, «Besteiros, prendei Garci Laso».

E Dom Juan Alfonso tinha aí nesse dia três Escudeiros, seus criados, de quem se fiava – junto com outros homens seus – que estavam apercebidos e armados de solhas debaixo das vestes e tinham espadas e bronchas, e diziam-nos Alfonso Ferrandez de Vargas, que foi depois Senhor de Burguillos, Rui Ferrandez de Escobar e Ferrand Garcia de Medina. E quando elRei disse aquelas palavras, que prendessem Garci Laso, estes três Escudeiros de Dom Juan Alfonso travaram logo de Garci Laso mui denodadamente, e disse então Garci Laso ao Rei, «Senhor, seja a vossa mercê de me mandar dar um clérigo com quem me confesse”. E disse ainda a Rui Ferrandez de Escobar, «Rui Ferrandez, amigo, rogo-vos que vades falar a Dona Leonor, minha mulher, e trazei-me uma carta de absolvição do Papa que ela tem”. E Rui Ferrandez escusou-se disso, dizendo que o não podia fazer. E deram-lhe então um clérigo que acharam aí por acaso, e apartou-se Garci Laso a um pequeno portal que havia ali, sobre a rua, e começou a falar de penitência. E dizia depois o clérigo que, quando começou a falar de penitência, Garci Laso o catara para ver se tinha algum punhal e que não lho achou. E àquela hora que Garci Laso foi preso, Rui Gonzalez de Castañeda, Pero Ruiz Carrillo e Gomez Carrillo, seu filho, e os que tinham a parte de Garci Laso apartaram-se a uma banda do palácio e estiveram aí todos juntos.

E Dom Juan Alfonso de Albuquerque disse em seguida ao Rei, «Senhor, mandai o que se há-de fazer», e então mandou elRei a Vasco Alfonso de Portugal e a Alvar Gonzalez Morán, que eram dois Cavaleiros que guardavam Dom Juan Alfonso, que dissessem aos Besteiros que tinham prendido Garci Laso que o matassem. E eles foram ao portal onde Garci Laso estava e mandaram-no aos Besteiros, mas eles não o ousavam fazer, e eram os Besteiros um que diziam Juan Ferrandez Chamorro, outro, Rodrigo Alfonso de Salamanca, e outro, Juan Ruiz de Oña. E este Juan Ruiz veio ao Rei e disse-lhe, «Senhor, que mandais fazer de Garci Laso?» E disse elRei, «Mando-vos que o mateis». E então entrou o Besteiro e deu-lhe com uma porra na cabeça, e Juan Ferrandez Chamorro, por sua vez, deu-lhe com uma broncha, e feriram-no de muitas feridas até que morreu. E mandou elRei que o deitassem na rua, e assim se fez.

E nesse dia de domingo, porquanto elRei era entrado novamente na cidade de Burgos, corriam touros naquela praça – diante dos palácios do Bispo ao Sarmental – onde Garci Laso jazia, e não o levantaram dali. E elRei viu como o corpo de Garci Laso jazia em terra e os touros passavam por cima dele, e mandou-o pôr num escanho e assim esteve todo aquele dia ali, e depois foi posto num ataúde sobre o muro da cidade em Comparanda (2), e aí esteve grande tempo.

E depois, nessa semana, comeu elRei com Dom Juan Alfonso na pousada deste, e, estando comendo, passaram por diante da dita pousada onde elRei comia, a Sant Esteban, os três homens vizinhos de Burgos que foram presos no dia em que elRei mandou prender Garci Laso, e levaram-nos para os matar. E fugiram muitos outros da cidade por medo delRei. E foi presa então em Burgos Dona Leonor de Cornago (3) mulher de Garci Laso, e alguns criados de Garci Laso tomaram o seu filho maior, ao qual diziam Garci Laso, como o pai, e levaram-no para as Astúrias, onde estava o Conde Dom Enrique (4). E deu então elRei o Adiantamento de Castela, que tinha Garci Laso, a Dom Juan Garcia Manrique.

 

Nota 1. Assim está em todos os originais da vulgar, mas as Abreviadas têm «Alfonso Sanchez de Camargo, Alfonso Ferrandez de Villecia e Pero Ferrandez, Doctor», e uma impressa tem «Pero Ferrandez de Mediana». Z.

Nota 2. «E dispuseram-no em um ataúde sobre o muro da cidade em Comparanda, e depois ali esteve grande tempo». Assim está em todos os de mão. Nos impressos falta o nome de «Comparanda», que era uma praça que se chamava assim junto ao muro, como aparece no Ano XVIII deste Rei, capítulo 21, e há-de-se emendar aí «Comparanda», em vez de «Comparada». Z. O antigo nome da praça era mesmo «Comparada», e não «Comparanda». E. H.

Nota 3. Nas impressas e nos seus originais está «Cornago», havendo-se de escrever, segundo parece, «Cornado», porque Dona Leonor Rodriguez, mulher de Garcilaso, foi sobrinha de Dom Vasco Rodriguez de Cornado, Mestre de Santiago, que era natural do Reino da Galícia e um mui assinalado Cavaleiro a quem elRei Dom Alfonso encomendou a criação do Infante Dom Pedro, seu filho, desde o seu nascimento. Na Abreviada não está o sobrenome de Dona Leonor, no entanto, segundo minha conjectura, tenho por uma mesma coisa estes nomes de «Cornago» «Cornado» e «Coronado», e persuado-me disto porque hei visto em escritura mui antiga chamar-se, ao lugar de Cornago, «Cornado». Z.

Nota 4. A 16 de Maio encontrava-se em Oviedo, onde confirmou a Gutierre Bernaldo de Quirós a vila de Villoria, doada pelo Conde Dom Rodrigo Alvarez. Cita esta confirmação Trelles, Nobiliário, tomo 2, p. 791 (na versão digital, p. 803). Depois passou-se a Portugal, como se diz adiante no final do capítulo XX. E.

 

7. COMO ELREI SOUBE QUE ALGUNS VIZCAYNOS LEVARAM DOM NUÑO, FILHO DE DOM JUAN NUÑEZ, À VIZCAYA, E COMO ELREI PARTIU DE BURGOS PARA O TOMAR.

Estando elRei Dom Pedro em Burgos (1), depois que Garci Laso morreu, segundo dito havemos, soube como alguns Vizcaynos e uma dona de Vizcaya que criava Dom Nuño de Lara – a qual chamavam Dona Mencía (2) e fora mulher de um Cavaleiro Vizcayno que diziam Martin Ruiz de Avendaño – haviam partido de Paredes de Nava, que é em terra de Campos (3), onde se criava o dito Dom Nuño de Lara, Senhor de Vizcaya, filho de Dom Juan Nuñez de Lara, e se iam com ele para a dita terra de Vizcaya, escondidamente, desde que souberam que Garci Laso era morto, receando-se que, se elRei tomasse Dom Nuño em seu poder, porquanto Dom Juan Alfonso de Alburquerque e Dom Juan Nuñez, pai de Dom Nuño, não se quiseram bem, o faria Dom Juan Alfonso prender, e por esta razão tomaram Dom Nuño e foram-se com ele à Vizcaya, e era então Dom Nuño em idade de três anos.

E elRei, desde que soube que levavam Dom Nuño, foi em pós deles para o tomar e chegou até uma vila que dizem Sancta Gadea, que era do Senhor de Vizcaya e fica aquém do porto da Peña de Orduña, por onde descendem à terra de Vizcaya, e ali soube elRei que dom Nuño era posto a salvo, pois os que o levavam não folgaram (4) até que passaram a ponte da Rad, que é no rio de Ebro, e desde que passaram a dita ponte quebraram-lhe um arco e levaram o dito Dom Nuño à vila de Bermeo, que é na Vizcaya sobre o mar, donde ele era Senhor. E vendo elRei que não podia tomar a Dom Nuño – porquanto não levava elRei consigo senão homens de mulas, entendendo que os Vizcaynos o defenderiam e o poriam a salvo por mar na Rochela, que é no Reino de França, ou em Bayona, que é do Senhorio delRei de Inglaterra (5), e são lugares por mar cerca de Vizcaya – tornou-se dali.

 

Nota 1. Na Abreviada segue assim: «…quisera tomar a Dom Nuño, já que era menino, e tinha-o Diego Perez Sarmiento, que fora seu Mordomo no tempo do seu pai, e que era aí, e criavam-no Dona Milia, mulher de Martim Roiz de Avendaño, e Juan de Avendaño, seu filho, e estavam com ele em Paredes de Nava, que é em terra de Campos. E receando-se elRei que aqueles que o tinham fariam algum bulício contra o seu serviço, quisera-o tomar e ter em seu poder». Z.

Nota 2. Assim está em alguns livros de mão este nome, e outros têm «Milia» ou «Melia», e o Conde Dom Pedro de Portugal, nas suas genealogias, faz menção a uma Dona Milia Ansorez, filha do Conde Dom Pedro Ansorez, que casou com Dom Alvar Fernandez de Minaya. Z.Salazar, na Casa de Lara, tomo 3, p. 209, chama-a Dona Mencia de Guevara. E.

Nota 3. Achava-se Dom Nuño em Paredes de Nava a 25 de Janeiro deste ano, pois em documento com data daquele lugar concedeu à Vila de Oropesa faculdade para que de entre os seus homens bons pudesse nomear alcaides. Intitula-se Alferes delRei e seu Mordomo-mor. Salazar, Provas da Casa de Lara, p. 649. E.

Nota 4. Numa de mão diz: «Que os que o levaram não folgaram até que o puseram em Vizcaya na Vila de Bermeo, que é sobre o mar, donde ele era Senhor.» Z.

Nota 5. «Que é no senhorio de Inglaterra». P.

 

8. COMO ELREI DOM PEDRO ENVIOU LOPE DIAZ DE ROJAS À VIZCAYA.

Depois que elRei Dom Pedro viu que não podia alcançar Dom Nuño, enviou desde Sancta Gadea a Lope Diaz de Rojas (1), um Cavaleiro de Castela que era Senhor de Poza, com poderes seus como Prestameiro-mor de Vizcaya, para falar com os Vizcaynos e assossegá-los de modo a que não houvesse algum bulício. E Lope Diaz entrou na Vizcaya e tratou as suas preitesias com os Vizcaynos, porém não pôde cobrar a Dom Nuño.

E Lope Diaz, com gentes de outras vilas delRei que havia nesta comarca, cercou a casa de Orozco, que tinha Juan de Avendaño, na (2) qual estavam Escudeiros de Vizcaya que a defendiam, e eram caudilhos dois Escudeiros, um que diziam Juan Lopez de Alpide e outro Martin Sanchez de Bedia (3). Esteve Lope Diaz de Rojas sobre a dita casa de Orozco, atirando-lhe com engenhos, e manteve-a cercada dois meses e meio, e os que eram dentro preitearam com ele que os pusesse a salvo. E Juan de Avendaño, que era natural da Vizcaya, e filho da Dona que tinha Dom Nuño, estava no castelo de Unzueta (4), que é cerca daquela casa, e não quis ver-se com Lope Diaz de Rojas.

 

 

 

Nota 1. Todas as de mão, tanto a Abreviada como os originais da vulgar, chamam a este Cavaleiro Lope Diaz de Rojas, e não Ruiz Diaz, como está nas impressas. Adiante faz-se muita menção dele, e no livro das Behetrias, na Merindade de Villadiego. Z.

Nota 2. Na Abreviada põe-se o demais deste capítulo como se segue: «Na qual estavam Escudeiros de Vizcaya, que a defendiam mui bem, e eram caudilhos deles dois Escudeiros, um que diziam Juan Perez Dalpide e outro que diziam Iñigo de Bedia. Esteve Lope Diaz de Rojas onze dias sobre a dita casa, atirando-lhe com engenhos, até que aqueles que dentro eram preitearam e a tomou. E Juan de Avendaño estava no castelo de Unceta. E daí a poucos dias Dom Nuño morreu da sua doença e elRei tomou a Vizcaya. E ficavam duas filhas de Dom Juan Nuñez, às quais chamavam Dona Juana e Dona Isabel, de quem falaremos adiante. E estando elRei na Cidade de Burgos no mês de Maio deste ano, mandou matar Garci Laso de la Vega, que era Adiantado-mor de Castela, o qual estava então ali em Burgos com muitas companhas, e fê-lo matar no seu palácio por Besteiros de maças, nas casas do Bispo que dizem ao Sarmental, aonde o dito senhor Rei pousava, e deitaram-no, ao dito Garci Laso, depois que foi morto, à rua pelas janelas do palácio abaixo, e tiveram todos os que ali estavam que isto fora cruelmente feito. E outrossim fez-se matar três homens bons da dita cidade de Burgos, os quais eram Alfonso Sanchez de Camargo, Alfonso Ferrandez de Villecia e Pero Ferrandez, Dotor. E isto fez elRei dizendo que o dito Garci Laso e os ditos homens bons que fez matar tiveram falas com Dom Juan Nuñez aquando viera de Sevilla, mas os que não eram da parte de Dom Juan Alfonso diziam que o decidira fazer ele, que tinha ao Rei e ao Reino sob seu poder, por malquerença que houvera com Dom Juan Nuñez. Z.

Nota 3. Devia-se emendar, como se vê na nota antecedente, para «Juan Perez Dalpide» e «Iñigo de Bedia». Os livros do Marquês Dom Iñigo Lopez de Mendoza, dois outros originais da vulgar e uma Abreviada têm «Juan Lopez de Alpide» e «Martin Sanchez de Bedia». Outra Abreviada tem também «de Alpide», e em duas Abreviadas está «Iñigo de Bedia», e não «Martin Sanchez de Bedia». Z. Puente emendou para «Juan Perez de Aldape». Nas impressas está «Juan Perez de Aldave». E.

Nota 4. Em alguns de mão, «Uceta» e «Unceta». Na impressa, «Uncueran». E.

 

9. COMO ELREI MANDOU A DON FERRAN PEREZ DE AYALA QUE TOMASSE UMA TERRA QUE DIZEM AS ENCARTACIONES, QUE ESTAVA POR DOM NUÑO.

ElRei Dom Pedro, desde que viu que não podia cobrar em seu poder Dom Nuño, fez o que pôde para lhe tomar a terra, e – conforme havemos dito – tinha enviado Lope Diaz de Rojas, Senhor de Poza, à Vizcaya como seu Prestameiro-mor, e mandou a Dom Ferrand Perez de Ayala (1) que fosse a uma terra que dizem as Encartaciones, que são cerca de Vizcaya, e as tomasse para ele.

E Dom Ferrand Perez de Ayala, que era natural daquela terra, juntou as suas companhas na vila de Valmaseda, entrou nas Encartaciones, cobrou um castelhar que ali há que dizem Arangua (2), fê-lo reparar de cadafalsos e cavas e pôs nele companhas suas para se apoderar da terra em seguida. E os Vizcaynos foram logo juntos em um, até dez mil homens, e vieram sobre o dito castelhar, mas não o puderam tomar e partiram dali.

E depois que Dom Ferrand Perez de Ayala partiu de Valmaseda com companhas e entrou nas Encartaciones, os da terra deram-se-lhe e foram na obediência delRei, e vieram com ele para elRei, a Valladolid, onde este fazia as suas Cortes, certos Escudeiros que ali viviam com procuração de toda a terra para serem seus e na sua obediência, e assim o fizeram.

 

Nota 1. Pai de Dom Pero Lopez de Ayala, que compôs esta História. Z.

Nota 2. Em alguns livros de mão diz: «E cobrou um castelhar que aí era, que diziam «Aranguti». Em outros está «Arangun» e num «Aragunte». Z. Quiçá quererá dizer «Aranguren». E.

 

10. COMO MORREU DOM NUÑO DE LARA, E COMO TOMOU ELREI EM SEU PODER DONA JUANA E DONA ISABEL, IRMÃS DO DITO DOM NUÑO, E A TERRA DE VIZCAYA E AS OUTRAS TERRAS QUE ERAM DO DITO DOM NUÑO.

Poucos dias depois disto morreu Dom Nuño de Lara, Senhor de Vizcaya (1), de quem havemos contado, e ficavam duas filhas de Dom Juan Nuñez de Lara, irmãs do dito Dom Nuño, às quais diziam Dona Juana e Dona Isabel, de quem diremos adiante, e trouxeram-nas ao poder delRei, e ficou Vizcaya assossegada e em poder delRei (2). Outrossim, todas as terras de Lara que eram do dito Dom Nuño ficaram também por elRei. E houvera Dom Juan Nuñez de Lara, Senhor de Vizcaya, estes filhos de Dona Maria, filha que foi de Dom Juan o torto, o que elRei Dom Alfonso matou em Toro, que era filho do Infante Dom Juan que morreu na Veiga (3), e por esta Dona Maria, com quem casara Dom Juan Nuñez, herdara ele a Vizcaya.

Outrossim este ano, no dia da Trindade, morreu em Palencia Dona Juana de Lara, mãe do dito Dom Juan Nuñez, que foi filha de Dom Juan Nuñez de Lara e de Dona Teresa – irmã do Conde Dom Lope, Senhor de Vizcaya, o que elRei Dom Sancho matou em Alfaro – e foi primeiro casada esta Dona Juana com o Infante Dom Enrique, filho delRei Dom Ferrando que ganhou a Fronteira, todavia ela era mui moça quando com ele casou e dizem que ficou donzela, e morreu o dito Infante Dom Enrique sendo tutor delRei Dom Alfonso (4). E casou depois a dita Dona Juana de Lara com Dom Ferrando de la Cerda (5), e tiveram filhos a Dom Juan Nuñez de Lara, Senhor de Vizcaya, de quem havemos já contado, a Dona Blanca, que casou com Dom Juan, filho do Infante Dom Manuel, a Dona Margarida, que morreu monja em Caleruega, e a Dona Maria, que casou em França com o Conde de Estampas e depois com o Conde de Alanzón – irmão delRei Phelipe de França – o qual morreu na batalha de Cresci da Picardia (6), onde pelejou elRei Phelipe de França com elRei Eduarte de Inglaterra, e ficou-lhe a esta Dona Maria um filho do Conde de Estampas e outros filhos do Conde de Alanzón, que são hoje vivos.

 

Nota 1. Numa confirmação dos privilégios do Abade e do Convento de Santillana, «dada nas Cortes de Valladolid aos 4 dias andados do mês de Setembro em Era de 1389 anos» (Ano de 1351), acha-se todavia confirmando Dom Nuño, Senhor de Vizcaya, como Alferes-mor delRei, sem se chamar Mordomo-mor, com cujo título confirma Dom Ferrando de Castro – Original no Arquivo de Santillana. E.

Nota 2. «Em paz para elRei». P.

Nota 3. «Veiga de Granada». P.

Nota 4. Todos os livros de mão e impressos têm assim, o qual é erro tão notório que parece que não podia cair nele o Autor, pois é coisa mui certa que o Infante Dom Enrique que foi Senador de Roma morreu em vida delRei D. Hernando IV, cujo tutor foi, e havendo já elRei saído da tutoria. Se não permanecesse o Autor nesta mesma opinião no Ano 1 delRei Dom Enrique o Terceiro, cap. 3, poderia emendar-se esta passagem por erro dos copistas, e não seu. Z.

Nota 5. Nas impressas lê-se, com grande erro, «Dom Juan de la Cerda». E. Ao qual acresce o erro já referido na nota 3, cap. 13, Ano 1, de que foi «filho de Dom Alfonso de la Cerda». E. H.

Nota 6. Nos impressos, «Cartisi», e nos Manuscritos, «Carsi». E.

 

11. COMO ELREI DOM CARLOS DE NAVARRA E O INFANTE DOM PHELIPE, SEU IRMÃO, VIERAM AO REI DOM PEDRO À CIDADE DE BURGOS.

Estando elRei Dom Pedro em Burgos, segundo havemos contado, depois que morreu Garci Laso e depois que ele tornou da vila de Sancta Gadea, aonde fora cuidando tomar Dom Nuño, chegou aí Dom Carlos, Rei de Navarra, e com ele o Infante Dom Phelipe, seu irmão, que o vinham ver, e elRei Dom Pedro recebeu-os mui honradamente, fazendo-lhes mui grandes festas e dando-lhes muitos cavalos e mulas e muitas jóias. E assim esteve elRei de Navarra com elRei Dom Pedro em Burgos alguns dias, tomando prazer e assentando as suas amizades com ele, e dali se tornou elRei de Navarra para o seu Reino, que é assaz cerca dali, mui pagado e mui amigo delRei de Castela.

 

12. COMO ELREI DOM PEDRO FEZ AS SUAS CORTES PRIMEIRAS NA VILA DE VALLADOLID.

ElRei Dom Pedro partiu da cidade de Burgos, depois que aconteceram estas coisas que haveis ouvido, e veio-se a Valladolid (1), pois que estavam chamados todos os Grandes do seu Reino para que viessem às Cortes que ele mandara ali fazer, e já eram aí ajuntados, e desde que ele reinava estas eram as primeiras Cortes que fazia, e aí foram feitos muitos Ordenamentos (2). E era aí, nas ditas Cortes, mui grande privado delRei, pelo qual passavam e se faziam todos os Ordenamentos do Reino, Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque. Outrossim privado e Chanceler-mor delRei era Dom Vasco, Bispo de Palencia, que foi depois Arcebispo de Toledo (3), e era irmão de Pero Suarez e de Gutier Ferrandez de Toledo, e mui bom Prelado (4), e mais tarde dele contaremos como se passaram os seus feitos com elRei Dom Pedro.

 

Nota 1. Achava-se já em Valladolid a 16 de Maio, pois por cédula feita naquela Vila, com esta data, declarou que o Mosteiro de São Pedro cerca de Santiago de Galícia ficava livre de pagar jantares. Colec. Dipl. Mss. da Real Academia da História, tomo I. E.

Nota 2. O principal deles foi o Ordenamento dos Mesteirais, nunca publicado até agora, que se porá no Apêndice junto com o Caderno de Petições e outras coisas relativas a estas Cortes. Voltou-se a publicar nelas, concertado e corrigido, o Ordenamento de Alcalá, que trouxeram à luz no ano de 1774 Dom Ignacio de Aso e Dom Miguel de Manuel, com um erudito prólogo e notas, e pode-se presumir que se resolveu fazer o Bezerro das Behetrias, com motivo nas disputas que houve sobre elas, e acaso também se determinaria concertar e ordenar o Foro velho de Castela que publicou elRei D. Pedro no ano de 1356 e os mesmos Aso e Manuel trouxeram à luz em 1771. E.

Nota 3. Aqui há sem dúvida erro de copistas, e deve ler-se, «Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque, Chanceler-mor delRei; outrossim privado e Chanceler-mor da Rainha era Dom Vasco…». Nas confirmações de privilégios despachadas nestas Cortes consta que Dom Juan Alfonso de Alburquerque era Chanceler-mor delRei e Mordomo-mor da Rainha, e que Dom Vasco, Bispo de Palencia, era Notário-mor do Reino de Leão e Chanceler-mor da Rainha. E.

Nota 4. Em algumas de mão, «e era mui santo e bom Prelado». Deste Arcebispo se trata no Ano XI, cap. 21. Z.

 

13. COMO DOM JUAN ALFONSO DE ALBURQUERQUE QUERIA QUE SE PARTISSEM AS BEHETRIAS.

Estando elRei Dom Pedro nestas Cortes (1), quiseram ordenar que se partissem as Behetrias (2) de Castela, dizendo que eram ocasião por onde os Filhos de algo tinham as suas inimizades, e ajudava muito a isso Dom Juan Alfonso de Alburquerque, e por seu conselho tal se fazia, crendo que haveria grande parte delas, à uma pela privança e poder que havia com elRei, e outrossim porque era mui natural das Behetrias por sua mulher, Dona Isabel, que era filha de Dom Tello de Meneses (3), o qual era mui natural em Campos e noutras partes, e por aqui entendia ele de haver grande parte nas Behetrias, pois tinha a possessão de muitos lugares que eram Behetrias, e outrossim pela privança delRei, pois que pela morte de Dom Juan Nuñez de Lara eram tornados a este muitos lugares de Behetrias.

E não prouve aos Cavaleiros de Castela de consentir em tal, crendo que as ditas Behetrias não se partiriam igualmente, pelo que tiveram muitas porfias com Dom Juan Alfonso, especialmente Dom Juan Rodriguez de Sandoval, que era mui grande Cavaleiro e natural das Behetrias, e outros a quem igualmente não prazia disto pelas razões sobreditas, e assim não se partiram, e ficaram como primeiro estavam.

 

Nota 1. Há uma nota de Zurita a este capítulo que se omitiu na edição de Eugénio de Amírola, ei-la: «Este capítulo e os seguintes até ao XX, o das vistas delRei D. Pedro com elRei D. Alonso de Portugal em Ciudad Rodrigo, não estão no de mão». E. H.

Nota 2. Em alguns livros de mão está «Bienfetrias». Z.

Nota 3. Dom Juan Alfonso de Alburquerque era filho de Dom Alonso Sanchez e neto delRei de Portugal Dom Donis. Sua mãe foi filha de Dom Juan Alonso Tellez, Senhor de Alburquerque, sucessor de Dom Alonso Tellez, povoador daquela vila. Dona Isabel de Meneses, mulher de Dom Juan Alfonso, foi filha de Dom Tello de Meneses, filho de Dom Alonso, irmão da Rainha Dona Maria de Molina, mulher delRei Dom Sancho. E.

 

14. EM QUE MANEIRA FORAM AS BEHETRIAS NOS REINOS DE CASTELA E DE LEÃO.

Pois que agora fizemos menção das Behetrias, queremos dizer, segundo o que ouvimos, como foram ao começo estes lugares que são chamados Behetrias.

Deveis saber que vilas e lugares há em Castela que são chamados Behetrias. Uns há que são chamados de mar a mar, que quer dizer que os vizinhos e moradores nos tais lugares podem tomar Senhor – a quem sirvam e acolham neles – qual eles quiserem e de qualquer linhagem que seja, e por isto são chamados Behetrias de mar a mar, que quer dizer que tomam Senhor seja ele de Sevilla, seja de Vizcaya ou de outra parte. Outros lugares de Behetrias são os que tomam Senhor de certa linhagem e dentre seus parentes, e outras Behetrias há que hão natureza com linhagens que sejam naturais delas, e estas tais tomam Senhor de estas linhagens qual se pagam (1). E dizem que todas estas Behetrias podem tomar e mudar de Senhor sete vezes ao dia, e isto quer dizer quantas vezes lhes prouver e entenderem que as agrava aquele que as tem.

E deveis saber que – segundo se pode entender e o dizem os antigos, embora não esteja escrito – quando a terra de Espanha foi conquistada pelos Mouros, no tempo em que o Conde Dom Illan fez a maldade de trazer os Mouros à Espanha e elRei Dom Rodrigo foi desbaratado e morto, e depois ao cabo de um tempo os Cristãos começaram a guerrear, vinham-lhes ajudas de muitas partes para a guerra, e na terra de Espanha não havia então senão poucas fortalezas, e quem era Senhor do campo era Senhor da terra, e os Cavaleiros que eram numa companha cobravam alguns lugares chãos onde se assentavam e comiam das viandas que ali achavam e mantinham-se, e povoavam-nos e partiam-nos entre si, e nem os Reis curavam de mais salvo da justiça dos ditos lugares.

E puseram os ditos Cavaleiros entre si, nos seus ordenamentos, que, se algum deles tivesse um tal lugar para o guardar, não recebesse dano nem desaguisado dos outros, salvo que lhes desse viandas por seus preços razoáveis, e, se porventura aquele Cavaleiro não os defendesse e lhes fizesse sem-razão, que os do lugar pudessem tomar outro daquela linhagem qual a eles prouvesse e quando quisessem para os defender, e por esta razão dizem Behetrias, que quer dizer, quem bem lhes fizer que os tenha.

E sobre isto houve entre os Cavaleiros as suas posturas e condições. Que alguns lugares foram conquistados por homens estranhos de outros Reinos que se tornaram depois às suas terras, e estes são chamados de mar a mar e tomam defendedor qual querem, e dizem que estes lugares são quatro, a saber, Becerril, Avia, Palácios de Meneses e Villasilos. E outros lugares foram ganhos por certas linhagens e segundo estas tomam Senhor. E puseram mais os Cavaleiros naturais das Behetrias que, posto que o lugar tenha defendedor designado que esteja em possessão de os guardar e ter, contudo os que são naturais daquela Behetria hajam certos dinheiros em reconhecimento daquela natureza a cada ano, para que não se olvide a natureza, e que aquele que os arrecada por eles prenda os dos lugares das Behetrias quando não lhos paguem. E de como devem passar nisto, e nas forças, se alguns aos outros as fizerem, e em todas as outras coisas, elRei Dom Alfonso, pai delRei Dom Pedro de quem fala este livro, proveu a tal com o conselho dos Senhores, Ricos homens e Cavaleiros do Reino nas leis que fez em Alcalá de Henares, e ali o achareis, e por conseguinte não curamos de o pôr aqui. Outrossim foi feito um livro, no tempo deste Rei Dom Pedro, em que se diz quais Senhores e Cavaleiros são naturais e de quais Behetrias, e é chamado o livro do Bezerro e trazem-no sempre na Câmara del Rei, e como quer que, segundo dizem alguns Cavaleiros antigos, há nele alguns erros, no entanto parte muitas contendas, pois está ordenado, e mais vale sofrer algum pouco de erro que nele haja do que não haver declaração nenhuma sobre tais porfias nas Behetrias.

 

Nota 1. Nas impressas: «que não hão natureza…tomam Senhor de linhagens…». E.

 

15. COMO ELREI DOM PEDRO ENVIOU POR SEUS EMBAIXADORES À FRANÇA DOM JUAN SANCHEZ DAS ROELAS, NATURAL DE TOLEDO, BISPO QUE FOI DE BURGOS, E DOM ALVAR GARCIA DE ALBORNOZ, PARA FIRMAR O SEU CASAMENTO COM DONA BLANCA, FILHA DO DUQUE DE BORBON E SOBRINHA DELREI DE FRANÇA.

Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque, e Dom Vasco, Bispo de Palencia e Chanceler delRei, com conselho da Rainha Dona Maria, mãe delRei Dom Pedro, e de outros do conselho delRei, enviaram Embaixadores à França a tratar de casamento para elRei, porquanto lhes disseram que o Duque de Borbon, que era primo delRei de França (1) e da linhagem da flor-de-Lis, tinha filhas, e enviou elRei como seus Embaixadores Dom Juan Sanchez das Roelas, Bispo que foi de Burgos, que era natural de Toledo, e Dom Alvar Garcia de Albornoz, um Cavaleiro que vivia no Bispado de Cuenca, que era homem mui honrado. E foram à França e viram as filhas do dito Duque de Borbon, e nomearam a uma delas, que diziam Dona Blanca, por mulher para elRei Dom Pedro de Castela, e falaram com elRei de França, que diziam Dom Juan, e prouve-lhe muito disso. E levaram poder delRei Dom Pedro para o desposar com ela por palavras de presente, e outrossim para fazer as suas ligas e amizades com elRei de França, e assim o fizeram.

E havia o dito Duque de Borbon um filho que depois dele foi Duque de Borbon, e outrossim houve seis filhas, e uma era esta Dona Blanca que casou com elRei Dom Pedro de Castela, e houve outra filha que casou com elRei de França Dom Carlos, filho deste Rei Dom Juan que neste tempo reinava, e outra casou com o Conde de Saboya, um grande Senhor do Império, outra casou com o Conde de Harecourt (2), um grande Senhor do Reino de França na partida de Normandia, e outra casou com o Senhor de Lebret, um grão Senhor em Guiana, e esta casou com o dito Senhor de Lebret porquanto elRei de França o quis haver da sua parte, pois ele era primeiro da parte delRei de Inglaterra, e a outra foi monja.

E, desde que os embaixadores delRei Dom Pedro houveram firmado o seu casamento com a dita Dona Blanca, fizeram-no logo saber ao Rei, e ele enviou-lhes mandar que viessem logo e trouxessem a dita sua esposa a Castela, e assim o fizeram, segundo adiante contaremos.

 

Nota 1. De facto era tio por afinidade do rei João o Bom, e Branca de Borbon era prima co-irmã deste, dado que sua mãe, Isabel, e o rei antecessor e pai de João o Bom, Filipe VI, eram irmãos. E. H.

Nota 2. Assim se há-de ler, em lugar de «Haricoran», como têm alguns livros de mão, e de «Haricote», como está nos impressos. Enquanto aqui se diz que a sexta filha do Duque de Borbon foi monja, já não aparece assim nas Histórias de França, mas que casou com o conde de Torastes, se chamava Isabel e tiveram uma filha que casou com Beraldo, Delfim de Alvérnia. Z. Jerónimo Zurita, na segunda parte desta nota, terá feito provavelmente confusão com uma irmã do Duque Pedro de Borbon, chamada Joana, que desposou um Conde de “Torastes” e teve deste uma filha, a qual por sua vez se casou com Beraldo, Delfim de Alvérnia. E. H.

 

16. COMO NESTAS CORTES HOUVE PORFIA ENTRE TOLEDO E BURGOS SOBRE QUEM FALARIA PRIMEIRO, E QUAL É A RAZÃO POR QUE TAIS PORFIAS SOEM SER, E COMO SE DETERMINOU.

Num dia que elRei Dom Pedro se assentou nas Cortes que fazia em Valladolid e os do Reino lhe houveram de responder, houve entre estes grande porfia, especialmente entre os Procuradores de Toledo e de Burgos, sobre quem deles responderia primeiro ao que elRei dissera. E esta porfia sempre foi costume nas Cortes que os Reis fizeram, e igualmente existe entre as outras cidades e vilas do reino.

E elRei, quando viu esta porfia, disse que ele houvera já o seu conselho sobre quem deveria falar primeiro, Toledo ou Burgos, e que encontrava que já em outras Cortes que elRei Dom Alfonso, seu pai, fizera na vila de Alcalá de Henares, onde os Procuradores de Toledo e Burgos porfiaram sobre o falar, houvera grande porfia, pois Dom Juan Nuñez de Lara, Senhor de Vizcaya, sustinha a parte de Burgos, porquanto é cabeça de Castela, e Dom Juan, filho do Infante Dom Manuel, a parte de Toledo, dizendo que foi e é cabeça de Espanha, e por esta razão todos os grandes Senhores que ali eram se fizeram em duas partes, pelo qual chegaram as coisas nas ditas Cortes a estado que não cumpria, e, por conseguinte, que elRei Dom Alfonso, seu pai, achara para seu conselho, e ele isso mesmo achava agora, que devia fazer assim, mandar aos Procuradores de Toledo e de Burgos que se calassem, e que elRei dissesse estas palavras, que assim as havia dito seu pai nas ditas Cortes de Alcalá, e que assim as ia dizer ele nestas: «Os de Toledo farão tudo o que eu lhes mandar, e assim o digo por eles, e portanto fale Burgos» (1). E assim se fez, e duma parte e da outra se tiveram por contentes.

 

Nota 1. Há-de-se ler assim, como nas impressas, e parece que deve ser assim, mas é de muita consideração ver que, de um modo conforme, esta passagem se acha em todos os originais de mão mui contrariamente, o que assinala estar o texto aqui viciado, pois têm assim: «Os de Toledo farão tudo o que eu mandar, e assim o digo por os de Burgos, e portanto fale Burgos, e fez-se assim». Deu elRei Dom Pedro privilégio seu desta preeminência aos de Toledo – e não se põem nele as palavras formais por onde se poderia haver luz para emendar esta passagem – que é do seguinte teor: «Saibam quantos esta carta virem como eu, Dom Pedro, pela graça de Deus Rei de Castela, de Toledo, de Leão, de Galícia, de Sevilla, de Córdoba, de Múrcia, de Jaen, de Algezira e Senhor de Molina, porque achei que Toledo foi e é cabeça do Império de Espanha do tempo dos Reis Godos para cá, e foi e é povoada de Cavaleiros Filhos dalgo dos bons solares de Espanha, e não lhes deram pendão nem selo, e foram e são na mercê dos Reis donde eu venho, e não hão senão o meu e os selos dos meus Oficiais, e porque o achou assim elRei Dom Alfonso, meu pai, que Deus perdoe, nas Cortes que fez em Alcalá de Henares, e era em contenda quais falariam primeiramente nas Cortes, por esta razão teve ele, por bem, de falar nas ditas Cortes primeiramente por Toledo, e por isto eu tive, por bem, de falar nas Cortes que eu agora fiz aqui, em Valladolid, primeiramente por Toledo, e disto mandei dar aos de Toledo esta minha carta, selada com o meu selo de chumbo. Dada nas Cortes de Valladolid, nove dias de Novembro, Era de mil e trezentos oitenta e nove anos. Eu, elRei». E que está bem a passagem impressa confirma-se pelas postremeiras palavras do capítulo seguinte, que dizem: «Por isso os Reis acostumaram nas suas Cortes dizer as sobreditas palavras por eles». Z. Todavia dura este costume de Toledo e Burgos disputarem a precedência quando se celebram Cortes e Juras de Reis e de Príncipes, e elRei diz as mesmas ou equivalentes palavras. Aquando da Jura delRei e do Príncipe nossos Senhores, no ano de 1760, chegaram a um tempo os Deputados de Burgos e Toledo, e disse elRei: «Toledo jurará quando eu o mandar, jure Burgos». Pediu-o Toledo por testemunho, e S. M. mandou que se lhe desse. E.

 

17. POR QUE RAZÃO DISSE ELREI TAIS PALAVRAS POR TOLEDO, E PORQUE TOLEDO NÃO FALA COMO AS OUTRAS CIDADES NAS CORTES, SALVO DESTA GUISA.

Deveis saber que aquando elRei Dom Alfonso, filho do Rei Dom Ferrando o magno e irmão do Rei Dom Sancho que morreu sobre Zamora, ganhou dos Mouros a cidade de Toledo, porquanto é a mais forte cidade do mundo no seu assentamento, por ser tão grande, os Mouros que nela estavam, quando se houveram de dar ao Rei Dom Alfonso – que os conquistou pela muita guerra e muitos talamentos que lhes fez – houveram a sua preitesia com ele desta maneira: que todos os Mouros vizinhos da cidade que então ali viviam ficassem em suas casas e com as suas herdades, com a sua mesquita maior e com seus Alcaides e Oficiais, segundo primeiro estavam no tempo delRei Mouro cujos eram; mas no entanto, para se apoderar da dita cidade, que elRei fizesse um Alcazar em alguma parte dela e tomasse, juntamente com ele, algum apartamento onde tivesse gentes suas, para ser seguro deles e da cidade. E elRei Dom Alfonso, para cobrar uma cidade tal, que era uma tão nobre, tão grande e tão honrada conquista, houve-lho de outorgar – aos Mouros que estavam em Toledo – segundo o demandavam, e mandou então deixá-los estar quedos nas casas e moradas que possuíam, assim como nas suas herdades, e mandou fazer um Alcazar, o qual é hoje ali, e um muro desde o Alcazar até o mosteiro de Sant Pablo, e tinha aquele muro o adarve da parte de fora e as ameias viradas contra a cidade, e fizeram-se nele torres. E pôs elRei por Alcaide do dito Alcazar o Cid Rui Diaz, e este foi o primeiro Alcaide que ali houve, e o Cid deixou por si um Cavaleiro seu mui bom que chamavam Dom Alvar Yañez Minaya, o qual tinha o Alcazar (1). E como quer que o dito Alcazar de Toledo não foi logo acabado, salvo que o fizeram então como castelo defendível onde o Alcaide podia ter algumas companhas, todavia depois passado tempo foi lavrado segundo hoje está, pois que elRei Dom Alfonso, filho delRei Dom Ferrando que ganhou Sevilla, mandou lavrar, em tudo melhorado, o que agora existe.

Outrossim deixou elRei então por guarda da dita cidade de Toledo, e para o seguro que havia prometido aos Mouros que nela viviam, mil homens a cavalo dos Filhos dalgo de Castela, e deu-lhes as casas que foram delRei Mouro nas quais se criara uma sua filha que diziam Galiana, a qual dizem que levou Carlos Magno a França, a tornou Cristã e casou com ela, segundo o escreve Vicencio nas suas Histórias. E algumas outras pousadas que ficavam a fora deu-as a outros Cavaleiros que ali deixou, e também eles lavraram outras casas, pois o Cid Rui Diaz lavrou e mandou aí fazer uma pousada que é agora da Ordem de Sant Juan, a qual hoje em dia é chamada Sant Juan dos Cavaleiros, e o mesmo fizeram outros Senhores e Cavaleiros que ali assim ficaram como fronteiros. E quando elRei fazia a sua hoste e mandava chamar por alguns deles, iam até ele e guardavam o corpo delRei, e eram mui honrados na hoste e corte delRei porquanto estavam em tão grande e nobre guarda como a da cidade de Toledo. E isso mesmo os que na guarda da cidade ficavam, quando enviavam cartas suas ao Rei, não se chamavam concelho, que o não eram, pois os Mouros eram concelho e tinham a cidade, mas chamavam-se os Alcaides e Alguazil e Cavaleiros de Toledo, e selavam as cartas com os selos de seus oficiais (2). E não levavam pendão de concelho, pois que o não era (3), salvo que cada Rico homem ou Cavaleiro levava o seu pendão com as suas armas. E por esta razão (4), como quer que adiante digamos como se passou este feito de Toledo, o costume ficou assim, que nunca se chamou concelho nem falou à maneira de concelho, nem havia razão de se chamar concelho, pois os Mouros que tinham toda a cidade eram o concelho. E, por conseguinte, os Reis acostumaram nas suas Cortes dizer as sobreditas palavras por eles (5).

 

Nota 1. Este capítulo, à mistura com alguma informação verídica, contém muitos elementos de carácter fabuloso. Um exemplo disso é o que se afirma sobre o Cid. Na realidade, Sesnando David foi o primeiro a governar Toledo como mandatário de Afonso VI, e não o fez com o título de alcaide. E. H.

Nota 2. Estes oficiais, com cujo selo selavam, eram os alcaides e o Alguazil de Toledo, e assim se encontra nos instrumentos, que diziam: «Selada com os selos de nós, os Alcaides e Alguazil de Toledo». E quanto a dizer o Autor que não se chamavam concelho, mas sim «Alcaides e Alguazis e Cavaleiros de Toledo», assim é, todavia acrescentavam «os Homens bons», dizendo: «De nós, os Alcaides e Alguazil e os Cavaleiros e os Homens bons de Toledo», e ainda muito depois mais acrescentaram, após os Cavaleiros, os Fiéis. Z.

Nota 3. Impressas, «porque não o havia». E.

Nota 4. Impressas, «E por esta razão este feito de Toledo e este costume ficou…». E. Na verdade, o «como se passou este feito de Toledo» não é referido na Crónica «adiante», mas sim atrás. As impressas limitaram-se a eliminar tal lapso. E. H.

Nota 5. Há toda uma série de expressões e mesmo uma palavra, «andamio», que apenas encontramos neste capítulo. Eis algumas das expressões: «hoy dia», «por ser tan grande», «todo lo mejor que alli es». E. H.

 

18. COMO PREITEARAM OS CRISTÃOS QUE VIVIAM EM TOLEDO COM OS MOUROS QUANDO SE PERDEU ESPANHA.

Deveis saber que, porquanto havemos feito menção da cidade de Toledo, convém que digamos algumas coisas que aconteceram na sua conquista pelas quais os de Toledo vieram a haver alguns costumes que ainda hão hoje em dia. E como quer que achareis, nas Crónicas de Castela que falam de quando elRei Dom Alfonso ganhou Toledo, como se passou a preitesia que elRei Dom Alfonso fez com os Mouros vizinhos de Toledo aquando a ganhou e conquistou, todavia, porque pertence à matéria presente, diremos ademais algumas coisas, especialmente o que diz a Crónica antiga e segundo o que se acha noutros livros antigos que falam disto e que são autênticos, e ainda segundo o que ficou como relembrança de geração em geração até hoje. E deveis saber que, segundo já dissemos, a cidade de Toledo, pela grande fortaleza do seu assentamento, sempre, nas conquistas em que houve de ficar noutro poderio e de mudar de Senhorio, tratou as suas preitesias com maior vantagem que outra cidade alguma.

E no tempo delRei Rodrigo sem ventura, que foi o postremeiro Rei dos Godos, se perdeu Espanha de mar a mar, que se perdeu desde a cidade de Caliz, que é no mar de poente que é dito Oceano, até ao lugar de Belcayre, que é em França cerca de Aviñon (1) que está na ribeira do rio de Ruédano, o qual entra no mar de levante, e assim foi de mar a mar perdida Espanha. E ainda se perdeu em África, que é além-mar, grande terra que era de Cristãos, que era sua Cepta e Tanjar e muita outra terra. E tudo isto se perdeu por ajuda e conselho, traição e maldade do Conde Dom Illan, que era Conde de Espartaria, que quer dizer da Mancha que hoje dizem de Monte Aragão (2), quando fez entrar pela terra a Tarif Abenciede e Musa Abennacir, que eram dois caudilhos dos Árabes, aos quais Sant Isidro na sua Crónica chama Caldeus, e estes então passaram de África e conquistaram e roubaram toda a terra, e depois passou Hulit Amiramomelin, filho de Abdelmelec (3), que quer dizer na língua dos árabes – a palavra Amiramomilin – o Senhor maior dos crentes, ou seja, daqueles que creram na nova seita de Mahomad. E o Conde Dom Illan fez isto dizendo que elRei Dom Rodrigo lhe tomara uma sua filha que se criava no palácio real, à qual diziam a Caba, e era filha do Conde e de sua mulher, Dona Faldrina, que era irmã do Arcebispo Dom Opas e filha delRei Vitiza (4), e este Conde Dom Illan não era Godo de linhagem, mas sim de linhagem dos Césares, que quer dizer dos Romanos.

E os Príncipes Mouros entraram em Espanha no ano do Senhor de setecentos e catorze, na Era de César de setecentos e cinquenta e dois anos, e depois pelejaram com elRei Dom Rodrigo cerca de Xerez de la Frontera, no campo de Sengonera (5), perto do rio Guadalete, e venceram-no e foram desbaratados os Cristãos e elRei Dom Rodrigo perdido. E como quer que não foi ali achado morto, depois passado tempo foi achada em Portugal, numa cidade que dizem Viseo, uma sepultura em que estavam umas letras que diziam assim, «Aqui jaz Dom Rodrigo, postremeiro Rei dos Godos». E foi esta peleja no ano do Senhor setecentos e dezasseis (6), na Era de César de setecentos e cinquenta e quatro anos, no mês de Junho, e estava-se na quaresma dos Mouros que eles chamam ramadão, e andava o ano em que Mahomad havia começado a predicar a sua falsa lei em noventa e cinco anos.

E os Mouros depois disto, ganhando e conquistando à Espanha, chegaram à cidade de Toledo, e como quer que a cidade se conservou e se defendeu alguns dias, porém dizem que um dia, com maldade, os Judeus que ali viviam disseram aos Mouros como os Cristãos de Toledo saíam no dia de Ramos todos fora da cidade, para ouvir as Horas daquele dia e tomar os ramos benditos, a uma Igreja que está na veiga que dizem Sancta Leocadia a de fora, e que pondo ali as suas ciladas os podiam tomar e ganhar a cidade. Os Mouros assim o fizeram, e os Cristãos, no dia de Ramos, como o haviam acostumado, saíram a ouvir as suas Horas à dita Igreja que é fora da cidade. E os Mouros tinham posta a sua cilada numas hortas aí perto, e saíram a eles e tomaram os mais cativos e mataram muitos, mas alguns acolheram-se à cidade que é cerca.

E os que se acolheram à cidade e alguns outros que não saíram dela defenderam-na, mas porquanto eram mui poucos não puderam longamente amparar-se e então fizeram a sua preitesia com os Mouros nesta guisa. Que dessem a cidade aos Mouros, outorgando-lhes eles estas coisas. Primeiramente, que fossem livres e quites de toda a peita. Outrossim que houvessem seis Igrejas na cidade que não fossem destruídas, mas que ficassem Igrejas segundo então eram, nas quais pudessem ouvir as suas Missas e as suas Horas, as quais nomearam, conforme que adiante diremos. Outrossim que houvessem Alcaide Cristão entre eles, tanto no criminal como no civil, e que todos os seus pleitos se livrassem por o seu Alcaide. Outrossim que ao seu foro que haviam, que era dos Godos, ao qual chamavam Livro juzgo – que um Rei Godo que chamaram Recesuindo (7) fizera num Concílio de Toledo – que este mesmo foro houvessem e por aí fossem julgados, que era bom e fora aprovado por muitos Reis Godos que o viram.

E os Mouros, desde que ouviram as petições dos Cristãos moradores de Toledo, com a grande vontade que haviam de cobrar uma tal e tão nobre cidade, que era cabeça de todas as Espanhas, era chamada a cidade Real e era tão grande fortaleza (8) que por aí se apoderava toda a terra de Espanha, outorgaram-lhes todas estas petições, segundo que as demandaram, e responderam-lhes desta guisa.

Ao primeiro capítulo, em que demandaram que fossem livres de toda a peita, responderam que lhes prazia, e por consequência, desde então até ao dia de hoje, em Toledo não houve peita nenhuma, assim aos Filhos dalgo como aos homens de outra qualquer condição, e este privilégio houveram sempre no tempo dos Mouros, e muito mais o houveram depois, no tempo dos Cristãos, assinaladamente porquanto os Cristãos que ali ficaram – depois que a cidade se deu ao Rei Dom Alfonso, que a ganhou – eram homens Filhos dalgo, e todos os outros que aí vieram do mesmo modo foram liberados. E no tempo delRei Dom Alfonso que venceu a batalha de Tarifa, que dizem de Benamarin, de quem este livro fez menção ao começo, quando ele deitou no reino uma peita que dizem sisa, que eram duas mealhas do maravedi – a qual peita não houve no Reino até ao seu tempo, pelo que hoje dizem-na Alcavala – houve grande porfia sobre isso, porque diziam os de Toledo que a não deviam pagar, e elRei dizia que esta era uma peita tal que não a deitava às pessoas, mas a certas viandas e mercadorias, e que ele mesmo, que era Rei, e a Rainha, sua mulher, e os Prelados, ricos homens e todos os liberados do seu Reino assim se peitavam, e ainda que se o Papa, ou Rei estranho, viesse ao seu Reino, assim o peitariam. E com esta razão se pôs a dita peita de sisa e a pagaram e outorgaram em Toledo, mas nunca outra peita nem pedido se pagou aí até ao dia de hoje.

Outrossim outorgaram os Mouros aos Cristãos que ficaram moradores em Toledo que houvessem as seis Igrejas que demandaram para ouvir as suas Missas e as suas Horas, as quais perduraram e perduram sempre até hoje a este dia, e dizem em três Igrejas delas o Ofício segundo a ordenança de Sant Leandre e nas outras três segundo a ordenança de Sant Isidro, que foram Arcebispos de Sevilla e santos homens e ordenaram o Ofício e serviço Divinal em como se dissessem as horas, e foram estes dois Arcebispos do tempo dos Godos. E a letra Gótica dos livros hoje em dia existe, e dizem a Missa com outras cerimónias que as demais Missas, porém as palavras da consagração todas são unas. E quem isto quiser ver e saber mais especialmente ali o poderá achar, pois ainda hoje dizem ali as Missas e Ofícios segundo se diziam no tempo dos Godos. E chamaram àquelas Igrejas e aos Cristãos que ali ficaram entre os Mouros, de então para cá, Mozárabes, que quer dizer Cristãos mesclados com Árabes (9). E ainda existem hoje em Toledo aquelas mesmas Igrejas onde dizem as tais Horas e Ofícios, as quais são Sant Lucas, Sant Sebastian, Sancta Olalla, Sancta Justa e Rufina, Sant Torcad e Sant Marcos.

 

Nota 1. Belcaire, ao invés de ser «cerca», está bem longe de Avinhão e do Ródano. E. H.

Nota 2. Assim está em todos os livros de mão e impressos, e este é um passo mui assinalado que nos mostra de onde teve a sua origem o nome da região que chamamos Mancha, porque alguns tinham por certo que o que hoje dizemos «Mancha de Aragão» se corrompeu no nome «Mancha», do qual deduziam o de Marca, ou Comarca, porque aquela região confina com o Reino de Valencia, que foi conquista do Reino de Aragão, e de modo semelhante Dom Pedro Lopez de Ayala, no livro que compôs de Cetraria, no título dos Alfeneques, diz que Alicante é em Aragão, quando está tão ao ocidental do Reino de Valencia, e nesta História, no ano décimo delRei Dom Pedro, capítulo 11, chama a Tortosa cidade do Reino de Aragão, e assim parecia coisa mui conforme à razão que se dizia Mancha de Aragão em lugar de marca ou comarca de Aragão. Todavia já só este passo nos podia desenganar disto, que nem se disse Mancha por esta causa, nem tampouco «de Aragão», mas sim «de Monte Aragão», de onde se veio a chamar «de Aragão». No que toca ao primeiro nome, «Mancha», parece que Dom Pedro Lopez teve verdadeira relação dele, de que significa terra de espartos, terra seca, e segundo foi mui nomeada aquela Região no tempo dos Godos, chamando-se-a Espartaria, os Árabes, em sua linguagem, deviam de ter-lhe aplicado o mesmo nome, e tenho eu para mim por mui certo que pela mesma causa ficou ao lugar de Almansa o seu. Acho em Registro delRei Dom Pedro de Aragão sobre as coisas da guerra que teve com elRei Dom Pedro de Castela, e tratando das entradas que se podiam fazer por aquela parte, o seguinte: «Por Magen é por Almesa, que es tierra de Don Juan é es seca Manja, é tal que poder de Rey no y poria turar, é com hi fos entrat no y poria dar dany». Igualmente Dom Pedro Lopez de Ayala, no seu livro de Cetraria, tratando da carne das ánates, diz «que é manchina (seca) e selvagem…». Quanto ao nome «de Monte Aragão», é mui averiguado que se chama assim, e que se há corrompido em «de Aragão» não nos fica dúvida nenhuma. Na História geral, no capítulo 7 da primeira parte, diz-se assim: «E povoou outra Vila que dizem Cartagena, e soíam-na chamar antigamente Cartagena Espartera, porque toda a terra onde há o esparto e que chamam agora Monte Aragão obedecia a ela». E Florian Docampo, por cuja diligência se publicou aquela História geral, havendo-se então impresso como está em todos os livros de mão, pensando que estava errado, em lugar de «Monte Aragão» emendou «Mancha de Aragão», e por isso se acha também na mesma impressa em alguns livros esta verdadeira lição, e nos de mão, e em outros, como parece que se devia de corrigir. Também existem certos instrumentos originais do tempo delRei de Portugal Dom Dionis, em Português, nos quais se faz menção do lugar de Alhambra da Mancha do Monte Aragão. E nas Cortes que se fizeram na cidade de Burgos pela Rainha Dona Maria e pelos Infantes Dom Juan e Dom Pedro, nas tutorias delRei Dom Alonso, diz-se assim (o documento é das Cortes de Palencia de 1313, e não das de Burgos de 1315): «Outrossim, porque dizeis que recebeis grandes danos dos gados que vão e vêm dos extremos, que saem das trilhas antigas e entram pelos pães (searas) e vinhas, as quais trilhas são uma que dizem de Leão, outra que dizem Segoviana e outra que dizem da Mancha de Monte Aragão». E numa carta do mesmo Rei Dom Alonso, dada em Madrid no ano (da Era) de mil e trezentos e sessenta e sete, pela qual fez a Iñigo Lopez de Orozco Alcaide e Entregador do Concelho da Mesta, nomeando as trilhas, chama-as trilha de Monte Aragão, Segoviana, Toledana, Leonesa e de Cuenca. Também o próprio Dom Pedro Lopez de Ayala, no quarto Ano delRei Dom Enrique o Segundo, capítulo 10, a torna a chamar Mancha de Monte Aragão, como está em todos os livros de mão e impressos, nos quais se há conservado o seu verdadeiro nome, havendo-se este, ao invés, vulgarmente corrompido. Por que causa se chamasse Monte Aragão se declara mais em algumas memórias antigas, nas quais se diz que a serra que se estende desde a cidade de Chinchilla até o Reino de Valencia se chama Monte Aragão, e ainda hoje lhe perdura este nome nessa comarca. Z.

Nota 3. Assim se acham estes nomes escritos nos livros antigos do Autor que trata dos sucessores de Mahoma até este Hulit, que ali se chama filho de Abdelmelec, e conforme a isto se há-de emendar no postreiro capítulo da Crónica delRei Dom Juan o Primeiro. Z.

Nota 4. Na impressa em Toledo no ano de 1526 diz-se: «à qual diziam a Caba, e era filha do Conde Julian e da Condessa Dona Frandina, que era irmã do Bispo Dom Opas, filha delRei Beriza». A que se imprimiu em Sevilla no ano de 1542 tem: «à qual diziam a Caba, e era filha do Conde Julian e da Condessa Fandina, que era irmã do Bispo Dom Opas, filha delRei Beriza». Estes nomes da mulher e da filha do Conde Dom Julian não se podem emendar por Autor a quem se possa dar crédito, neles somente se segue o fabuloso que se trata na História vulgar delRei Dom Rodrigo, que é livro cheio de ficção e burla. Z. No de P., em lugar de «Vetiza» está «de Erisa». E.

Nota 5. Assim está nos livros de mão, e não «Sigonera» como nos impressos. Em livros mui antigos dos Anais está escrito, «Fez elRei Rodrigo a batalha com os Mouros em campos de Sanguinera», e não dizem aonde eram, nem o prólogo do Foro de Sobrarbe, que diz, «fez sair a batalha elRei Dom Rodrigo entre Múrcia e Lorca no campo de Sanguinera». O mesmo se refere na História geral, parte 2, capítulo 4, assim: «Porém alguns dizem que foi esta batalha no campo de San Nogera, que era entre Múrcia e Lorca, mas não é verdade». Z. É de assinalar a curiosa confusão que neste capítulo se faz entre os dois hipotéticos locais da batalha referidos pela Crónica Geral, o de «perto de Jerez de la Frontera» e o dos «campos de Sangonera». E. H.

Nota 6. No ano desta batalha, que foi a em que acabou para sempre o Reino dos Godos, há grande diversidade nos Anais dos mesmos Godos, porque nuns diz-se que foi na Era de setecentos e cinquenta e oito, e noutros na de setecentos e quarenta e nove, e a Era aqui referida é a de setecentos cinquenta e quatro. E o ano que se põe de Mahoma não conforma com o critério do Autor, pois haviam de ser cento e dezoito anos, e não, como se diz, noventa e cinco. O Arcebispo Dom Rodrigo escreve que foi no ano dos Árabes de noventa e três, a um domingo, cinco idus do mês de Jabél. Z. Segundo fontes historiográficas actuais, o ano muçulmano referido por Rodrigo de Rada teria sido, ao invés de 93, o de 92. A única versão digitalizada da Crónica de Rada que conseguimos encontrar não refere o ano da Hégira (ver sua p. 166). Alguns cronistas árabes deixaram escrito que foi no ano da Hégira de 92, tendo-se as escaramuças iniciado no final de Ramadão e a batalha travado a 5 de Shawwal, ou, como se diria no século XIV, «aos cinco dias andados do mês de Jabél». Estas datas correspondem ao mês de Julho, e não ao de Junho. Por fim, como já Zurara aparentemente dera fé, não há nenhuma crónica antiga que situe esta batalha no ano de 716 (Era de César de 754). E. H.

Nota 7. Em todos os livros de mão está depravado o nome deste Rei, em alguns está «Escrinando», noutro «Susunando», e nos impressos puseram o nome de Cisnando, em cujo tempo se celebrou o quarto Concílio de Toledo, que foi do mais célebre que em Espanha houve, no qual assistiu aquele santíssimo varão e luzeiro, o glorioso São Isidoro, Metropolitano de Sevilla. Mas eu tenho por certo que o Autor entendeu nomear elRei Recesuindo, em cujo tempo se celebrou o oitavo Concílio, presidindo Eugenio, Arcebispo de Toledo e Primado, e nele foram promulgadas certas leis por elRei Recesuindo que se põem na continuação do mesmo Concílio. De nenhum Rei Godo, a não ser do próprio Recesuindo, se refere no mesmo Foro juzgo que promulgasse livro de leis, e aquela mesma lei e decreto que está no oitavo Concílio se põe no Foro juzgo. Junto com isto é de muita consideração que, contendo aquele livro leis de diversos Reis Godos até elRei Wamba, nenhuma nele se acha delRei Sisenando. Z. Como, a nosso ver, este capítulo é apócrifo, o rei nele nomeado muito provavelmente seria Sisenando. E. H.

Nota 8. Nas impressas, «e era tão forte…». E.

Nota 9. Assim é declarado o nome de Muzárabes pelo Arcebispo Dom Rodrigo. Z.

 

19. PORQUE HÁ EM TOLEDO UM ALCAIDE QUE DIZEM DOS MOZÁRABES E OUTRO QUE DIZEM DOS CASTELHANOS.

Outrossim, segundo havemos já contado, quando os Mouros conquistaram a Espanha e ganharam a cidade de Toledo, os Cristãos que ficaram em Toledo demandaram aos Mouros, na sua preitesia, que houvessem Alcaide seu que os julgasse segundo o seu foro, que era o Libro juzgo, e assim lhes foi outorgado e guardado. E não obstante que estiveram em poder dos Mouros, sempre foram julgados por aquele foro.

E depois que os Mouros perderam Toledo e a cobraram os Cristãos (a qual cidade de Toledo se ganhou num domingo, aos vinte e cinco dias de Maio, dia de Sant Urban, no ano do Senhor de mil e oitenta e cinco, Era de César de mil e cento e vinte e três anos), então aqueles Cristãos antigos que ali viviam mantiveram Alcaide seu dentro da cidade, e eram julgados pelo dito foro do Libro juzgo, segundo o usaram naquele tempo que foram em poder dos Mouros. Todavia os Cavaleiros de Castela que elRei Dom Alfonso – que ganhou a cidade – deixou, segundo já dissemos, como guarda da dita cidade pediram ao Rei que lhes desse Alcaide segundo o seu foro de Castela, e elRei deu-lho, e a este chamavam Alcaide dos Castelhanos, e julgava-os segundo o seu foro. E assim haviam os Cristãos da cidade de Toledo dois Alcaides, os Mozárabes, que eram os antigos, que sempre viveram na cidade, o haviam pelo foro do Libro juzgo, e os Castelhanos que elRei deixou para guarda da cidade haviam Alcaide pelo seu foro Castelhano.

E depois que a cidade, pela graça de Deus, tornou a ser de Cristãos e muitos entraram a viver e morar lá dentro, porquanto o Alcaide que tinham os Cristãos que antigamente ali ficaram fora o primeiro – e chamavam-lhe Alcaide dos Mozárabes – ordenou elRei que aquele julgasse de civil e de crime, para dar maior honra aos que sempre viveram na cidade, e que o outro Alcaide – que diziam dos Castelhanos – julgasse somente de civil, e assim ficou até hoje a este dia. E se hoje algum vizinho da cidade, que seja Castelhano e seja ali vindo como novo vizinho, for demandado pelo Alcaide dos Mozárabes e pedir que o enviem ao seu Alcaide dos Castelhanos, enviá-lo-ão, e dessa mesma guisa farão ao que for Mozárabe e vizinho, de pai e de avô, da cidade, que se for demandado ante o Alcaide Castelhano e pedir que o enviem ao seu Alcaide dos Mozárabes, outorgá-lho-ão, salvo no caso de crime, em que especialmente o Alcaide dos Mozárabes julga. E chama-se em Toledo Castelhano a todo aquele que é de terra do Senhorio delRei de Castela onde não se julga pelo Libro juzgo.

 

20. COMO SE VIRAM EM CIBDAD RODRIGO ELREI DOM PEDRO E ELREI DOM ALFONSO DE PORTUGAL, SEU AVÔ.

Agora deixaremos de falar destas coisas e tornaremos a contar de como fez elRei Dom Pedro depois das Cortes de Valladolid (1).

Assim foi que, estando elRei nas ditas Cortes de Valladolid, foi tratado entre ele e elRei Dom Alfonso de Portugal, seu avô, pai da Rainha Dona Maria, sua mãe, que se vissem em uno. E fez muito para que se fizessem estas vistas Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque, que governava então o Reino de Castela, porquanto ele havia divedo com elRei de Portugal. E assim fizeram, e partindo das ditas Cortes elRei foi-se para Cibdad Rodrigo, e elRei Dom Alfonso de Portugal, seu avô, veio ali. E pousava elRei de Portugal dentro da cidade, e elRei Dom Pedro de Castela, seu neto, pousou no arrabalde da dita cidade, que era então mui grande, e ali se viram em uno, e fez elRei muitas honras ao Rei Dom Alfonso, seu avô, e deu-lhe muitas jóias, e elRei de Portugal a ele. E então firmaram os dois Reis as suas amizades e partiram-se mui amigos dali, assim como era de razão, segundo o divedo que entre eles havia.

E ali rogou elRei de Portugal ao Rei de Castela, seu neto, por o Conde Dom Enrique, que estava no seu Reino por temor dele, e perdoou-lhe elRei e ele tornou-se para as Astúrias. E estava o Conde Dom Enrique em Portugal, que se fora para lá quando elRei Dom Pedro esteve em Burgos e matou Garci Laso, porque não ousou então estar nas Astúrias.

 

Nota 1. Ainda duravam as Cortes a 12 de Dezembro, segundo a data duma confirmação de privilégio que cita Herrera, História do Convento de S. Augustin de Salamanca, p. 120. Manteve-se elRei em Valladolid até passado de 20 de Março do ano que se seguiu de 1352, pois: em 15 de Janeiro confirmou, estando ali, os Foros de Naxera, segundo Salazar, Casa de Lara, tomo I, p. 335; em 20 de Fevereiro expediu um privilégio a favor do Cabido de Castroxeriz, que cita o dito Herrera na mesma p. 120; e em 20 de Março confirmou ao Mestre Dom Fadrique e à Ordem de Santiago o privilégio que Dom Fernando IV concedeu ao Mestre Dom Juan Osorez, libertando os vassalos da Ordem da metade dos serviços e pedidos que deviam dar ao Rei, Bulário de Santiago, p. 321. Disto se infere que as vistas delRei Dom Pedro com elRei de Portugal e a sua viagem à Andalucia foram depois de 20 de Março de 1352. E.

 

21. COMO ELREI DOM PEDRO SOUBE QUE DOM ALFONSO FERRANDEZ CORONEL ABASTECIA OS SEUS CASTELOS, E COMO ELREI FOI À ANDALUCIA.

Depois destas vistas que elRei Dom Pedro fez com elRei Dom Alfonso de Portugal, seu avô, em Cibdad Rodrigo, conforme dito é, elRei Dom Pedro foi-se para a Andalucia, porquanto Dom Alfonso Ferrandez Coronel não viera às suas Cortes e elRei soube que ele abastecia a sua vila de Aguilar e todos os seus castelos. E para que saibais a razão deste feito, pela qual Dom Alfonso Ferrandez fizera isto, contar-vo-la-emos.

Assim foi que Dom Alfonso Ferrandez Coronel, em vida delRei Dom Alfonso, demandava a Aguilar, que dizia que lhe pertencia por herança da sua linhagem. E no tempo do dito Rei Dom Alfonso houve grande contenda com Dom Bernal de Cabrera, um Visconde e grande Senhor que veio de Aragão e dizia que lhe pertencia a ele a vila de Aguilar por herança (1), e Dom Alfonso Ferrandez dizia que não, que lhe pertencia a si. Todavia elRei Dom Alfonso contentou a Dom Bernal – que lhe deu em emenda de Aguilar a Puebla de Alcocer, que tomara à cidade de Toledo, e depois a vendeu Dom Bernal à cidade – deu Capilla a Dom Alfonso Ferrandez Coronel – um castelo mui forte e de boa renda que fora da Ordem do Templo – e tomou Aguilar para si e não a deu a nenhum.

E deu elRei isto que dito é a Dom Bernal de Cabrera e a Dom Alfonso Ferrandez Coronel – em emenda de Aguilar, se algum direito a ela tinham – como quer que dizia elRei que Dom Gonzalo Ferrandez, Senhor que fora de Aguilar, houvera razão de a perder, que lhe correra a terra e lhe fizera guerra da dita vila, e mais dizia que lavrara nela moeda, e que por isso tornava à sua coroa. Outros diziam que, posto que assim fora, depois perdoara elRei Dom Alfonso a Dom Gonzalo e este o servira mui bem, mas que não ficaram herdeiros que pudessem demandar o senhorio, e que cessou assim. Todavia, para contentar elRei a estes dois Cavaleiros, deu-lhes isto que dito é.

E depois que elRei Dom Pedro reinou o primeiro ano, logo o dito Dom Alfonso Ferrandez Coronel falou com Dom Juan Alfonso de Alburquerque – que tinha ao Rei sob a sua governança, e por ele se faziam todos os livramentos do Reino – e pediu-lhe que o ajudasse a cobrar a dita vila de Aguilar, a que elRei lha desse, o fizesse Rico-homem e lhe concedesse pendão e caldeira (que então o dito Dom Alfonso Ferrandez era Cavaleiro, e mui bom, mas não o tinham por Rico homem), e que o dito Dom Alfonso Ferrandez daria ao dito Dom Juan Alfonso uma sua vila, com um castelo mui formoso e mui bom, que dizem Burguillos, a qual elRei Dom Alfonso lhe dera quando a Ordem do Templo foi desatada, segundo que partiu outros bens da dita Ordem e os deu a outros Cavaleiros do Reino (2), e depois lhe deu elRei Dom Alfonso a Capilla, segundo dito é. E outros dizem que comprara o dito Dom Alfonso Ferrandez a elRei alguns desses castelos.

E o dito Dom Juan Alfonso prometeu ao dito Dom Alfonso Ferrandez Coronel de o ajudar a cobrar Aguilar, com o que o dito Dom Alfonso Ferrandez lhe daria Burguillos, e assim ajudou Dom Juan Alfonso a Dom Alfonso Ferrandez, em guisa que elRei Dom Pedro lhe deu a vila de Aguilar, o fez Rico homem e lhe concedeu pendão e caldeira, segundo a maneira e costume de Castela. E velou Dom Alfonso Ferrandez na Igreja de Sancta Ana de Sevilla, que é em Triana, o seu pendão que então lhe davam, e foi mandado entregar-lhe a dita vila de Aguilar. E trazia ao primeiro Dom Alfonso Ferrandez por armas cinco águias brancas em campo vermelho (3), e daquele dia em diante trouxe por armas uma águia Índia em campo branco, que estas eram as armas de Aguilar. E desde então Dom Alfonso Ferrandez Coronel foi chamado Rico homem.

E depois Dom Alfonso Ferrandez, quando elRei Dom Pedro adoeceu em Sevilla e esteve para morrer, crendo que se elRei Dom Pedro morresse reinaria Dom Juan Nuñez de Lara, entendeu-se com este, do que Dom Juan Alfonso de Alburquerque foi mui queixado, querendo-lhe grande mal por isso, pois mais prouvera a Dom Juan Alfonso, se elRei viesse a morrer, que reinasse o Infante Dom Ferrando de Aragão, primo delRei, e não Dom Juan Nuñez, e também todos os maiores do Reino assim o queriam, entendendo que havia mais direito a isso. E então – quando elRei Dom Pedro adoeceu e chegou àquele perigo – conforme havemos contado, Dom Alfonso Ferrandez Coronel e Garci Laso de la Vega tratavam que Dom Juan Nuñez de Lara casasse com a Rainha Dona Maria, mãe delRei Dom Pedro, no caso delRei vir a morrer, para que reinasse Dom Juan Nuñez.

E assim Dom Alfonso Ferrandez, crendo que Dom Juan Alfonso tinha sanha dele porque não lhe quisera dar o dito castelo de Burguillos, foi descobertamente do bando de Dom Juan Nuñez, que ainda então era vivo quando isto se tratou, pelo que Dom Juan Alfonso lhe buscava quanto mal podia junto delRei, dizendo-lhe que quando ele adoecera em Sevilla e Dom Juan Nuñez cuidara de haver o Reino, Dom Alfonso Ferrandez Coronel estivera com este, esforçara o seu partido e pusera grandes bandos em Sevilla, e que lhe prazia da sua morte. E por estas coisas Dom Alfonso Ferrandez houve grande medo do dito Dom Juan Alfonso, mormente desde que soube que Dom Juan Nuñez era já finado, e por esta razão se pôs em Aguilar e não foi às Cortes que elRei fez em Valladolid. E Dom Juan de la Cerda, filho de Dom Luis de la Cerda, era casado com Dona Maria Coronel, filha do dito Dom Alfonso Ferrandez, e também não foi às Cortes delRei. E por estas coisas abastecia Dom Alfonso Ferrandez as suas fortalezas, que tinha as de Aguilar, Burguillos, Montalvan, Capilla e Torija e, em Campos, a casa de Bolaños. Outrossim tinha Dom Alfonso Ferrandez grande esforço em muitos de Castela, seus amigos, pensando que estariam com ele, e em alguns outros da Andalucia com quem havia falado, que queriam mal a Dom Juan Alfonso, mas depois não o ajudaram.

E elRei, desde que soube que Dom Alfonso Ferrandez abastecia os seus castelos e fortalezas, houve por seu conselho de ir à Andalucia e pôr recado nestes feitos, para que os Mouros, pelo atrevimento de um tão grande Cavaleiro como este – que tinha tão grandes fortalezas no Reino, e tinha por genro a Dom Juan de la Cerda (4), que era mui grande homem no Reino de Castela – não se movessem a fazer guerra. E assim o fez, que logo se enviou o seu mandamento a chamar por muitas gentes, assim de Castela como da Andalucia, para cercar Dom Alfonso Ferrandez na dita vila de Aguilar.

 

Nota 1. Pelo Registro delRei Dom Pedro IV de Aragão parece que o filho de Dom Bernal de Cabrera era herdado em Castela, e assim esta pretensão devia ser por parte da mulher do Visconde, que seria Castelhana. Z.

Nota 2. Na Abreviada, «mas Dom Alonso Ferrandez houve daí grande parte, que houve Burguillos e Montalvan, e depois lhe deu elRei, segundo dito havemos, Capilla, que são três castelos dos mais formosos e fortes que há no Reino de Castela, e de grande renda». Z.

Nota 3. Assim está na de mão que cita Zurita e nas duas da Academia. Nas impressas, «águias vermelhas em campo branco». E.

Nota 4. Abreviada, «Dom Juan de la Cerda, que era mui grande e mui natural no Reino de Castela». Z.

Nota 5. Nas Emendas e Advertências, ps. 57/60, Zurita faz mais alguns comentários a este capítulo. Amírola só não os reproduziu porque as emendas neles sugeridas já estão incorporadas na edição de 1779. E. H.

 

22. DO QUE ACONTECEU ESTE ANO NO REINO DE FRANÇA.

Porque conforme a boa ordenança das Crónicas (1) é usado e acostumado que no final do ano, desde que a História é acabada, se contem alguns feitos notáveis e grandes que aconteceram por outras partidas do mundo em tal ano, por isso nós queremos ter aqui este estilo e ordenança, e cada vez que o ano se cumpra contaremos no final dele o que aconteceu noutras partes, pois bom é que se saibam tais feitos.

Assim foi que neste ano que dito é, que foi o Ano do Senhor mil e trezentos e cinquenta e um, na Era de César de mil e trezentos e oitenta e nove anos, morreu elRei Phelipe de França que diziam o sexto que assim houve nome (2). E reinou este Rei Phelipe vinte e três anos, e foi primeiro Conde de Valois e houve o Reino de França por herança de Carlos IV que chamaram o Bel, o qual morreu sem filho varão herdeiro, mas que deixou uma filha – que depois foi Duquesa de Orliens (3), sendo casada com um filho deste Rei Phelipe – e porquanto era filha não herdou o Reino de França.

E este Rei Phelipe foi o que pelejou com elRei Eduarte de Inglaterra na batalha de Creci, em Picardia, cerca de uma vila que chamam Sant Requier (4), que é no Condado de Pontis, e foi vencido elRei de França. E morreu aí aquele dia elRei de Boémia, que viera ajudar ao Rei de França e era cego que não via, mas por proeza de cavalarias veio aquele dia a ser na batalha. E era este Rei de Boémia pai de Madama Bona, que era casada então com Dom Juan, primogénito de França, que depois foi Rei de França, filho deste Rei Phelipe, E morreram aí o Conde de Flandes e o Conde de Alanzón, irmão delRei de França, e muitos outros Senhores da parte delRei de França. Outrossim morreram aí dois mil Besteiros de Génova que estavam ao soldo delRei de França. E foi esta batalha no Ano do Senhor mil e trezentos e quarenta e seis, na Era de César de mil e trezentos e oitenta e quatro anos.

 

Nota 1. Não está no de mão este capítulo. Z.

Nota 2. Todas as Histórias se conformam em que a morte delRei Filipo de França foi no ano de 1350. Z.

Nota 3. Nas impressas, «de Valois». E.

Nota 4. Impressas, «Sauriquez». Foi esta batalha entre Abdevilla e Crecy, e tomou o nome de Creci. Z.