Ano Quarto

Que foi ano do nascimento de Nosso Senhor Jesu-Christo de mil e trezentos cinquenta e três, e da Era de César, segundo o costume de Espanha, de mil trezentos noventa e um, e da Criação do mundo, segundo a conta dos Hebreus, cinco mil cento e treze, e dos Árabes, em que Mahomad começou sua seita, setecentos e cinquenta e cinco (1).

Nota 1. Não está nas de mão o que está nas impressas antes do primeiro capítulo. Z.

1. COMO ELREI DOM PEDRO TOMOU A VILA DE AGUILAR E FEZ MATAR DOM ALFONSO FERRANDEZ CORONEL E OUTROS CAVALEIROS QUE AÍ ESTAVAM.

ElRei Dom Pedro, passados quatro meses (1) que havia cercado a vila de Aguilar, tomou-a pela força, fazendo minas e cavas, nesta maneira: quinta-feira, primeiro dia de Fevereiro, deram fogo às cavas que tinham feito e caiu uma grande parte do muro, e muitos da vila saíam por aí e vinham-se para elRei; e ao outro dia, sexta-feira, elRei mandou armar todos os da sua hoste para combater a vila, e assim o fizeram, e não havia já na vila salvo mui poucos para a defender.

E antes que as gentes delRei chegassem, Gutier Ferrandez de Toledo, que era mui amigo de Dom Alfonso Ferrandez, chegou à vila de Aguilar e viu o dito Dom Alfonso Ferrandez, que andava num cavalo requerendo as barreiras, e disse Gutier Ferrandez a Dom Alfonso Ferrandez Coronel, «Compadre amigo, como me pesa da porfia que tomastes», e respondeu-lhe Dom Alfonso Ferrandez, «Gutier Ferrandez, pode haver algum remédio?», e disse-lhe Gutier Ferrandez, «Em verdade não o vejo, a tal estado são chegados já os feitos», e Dom Alfonso Ferrandez lhe disse, «Pois que é assim, eu o vejo», e perguntou Gutier Ferrandez, «Que remédio, Dom Alfonso Ferrandez?», e disse ele então, «Gutier Ferrandez amigo, o remédio daqui em diante é este: morrer o mais apostamente que eu puder como Cavaleiro». E armou-se de um gambax, uma loriga e uma capelina, e assim foi a ouvir Missa. E, estando na Igreja, chegou a ele um seu Escudeiro e disse-lhe, «Que fazeis, Dom Alfonso Ferrandez? Que a vila se entra pela brecha do muro que caiu, e Dom Pero Estebanez Carpentero, Comendador-mor de Calatrava, é já entrado na vila com muita gente», e Dom Alfonso Ferrandez respondeu, «Como quer que seja, primeiro verei a Deus». E esteve quedo até que alçaram o corpo de Deus, e depois saiu da Igreja, viu que as gentes delRei eram já entradas na vila e pôs-se numa torre da vila armado como estava.

E chegou aí então Dia Gomez de Toledo – que era caudilho dos Escudeiros do corpo delRei – e, quando o viu, Dom Alfonso Ferrandez disse-lhe, «Dia Gomez amigo, pôr-me-eis diante delRei, meu Senhor, vivo?», e Dia Gomez lhe disse: «Não sei se o poderei fazer, mas sede certo, Dom Alfonso Ferrandez, que farei por isso tudo em meu poder», e disse Dom Alfonso Ferrandez, «pois levai-me lá convosco, e rogo-vos, Dia Gomez amigo, que mandeis a vossos homens que façam o que puderem para guardar que os meus filhos, que estão na minha pousada, não passem mal».

E descendeu Dom Alfonso Ferrandez da torre e foi logo preso e desarmado, salvo do gambax, e assim o levaram ao Rei preso dois Escudeiros do corpo delRei, um que diziam Ferrando Diaz Calderon e outro chamado Alfonso Ruiz de Torices (2), por mandado de Dia Gomez de Toledo. E encontraram Dom Juan Alfonso de Alburquerque, e, quando ele viu Dom Alfonso Ferrandez, disse-lhe, «Que porfia tomastes tão sem prol, sendo tão bem andante neste Reino!», e Dom Alfonso Ferrandez lhe disse, «Dom Juan Alfonso, esta é Castela, que faz os homens e os gasta. Assaz o entendi, mas não foi ventura minha de me desviar deste mal. E não vos peço de mesura senão que me dêem hoje aquela morte que eu fiz dar a Dom Gonzalo Martinez de Oviedo, Mestre de Alcántara».

E confessou ali que ele houvera culpa na morte do dito Mestre Dom Gonzalo Martinez (3), e dizem que em tal dia e em tal mês morrera o dito Dom Gonzalo Martinez, Mestre, como morreu Dom Alfonso Ferrandez Coronel.

E, estando assim, chegou elRei e viu a Dom Alfonso Ferrandez, mas não lhe falou, e Dom Alfonso Ferrandez não via ao Rei (4). E então ali foi entregue aos Alguazis delRei, e logo ali o mataram, a Dom Alfonso Ferrandez Coronel e a Juan Alfonso Carrillo, um Cavaleiro mui nobre e mui bom, compadre e amigo de Dom Alfonso Ferrandez, que soía ter os lugares de Cabra e Lucena por Dona Leonor de Guzman, mas quando ela foi presa elRei mandou-o entregá-los a outros Cavaleiros, e ele então veio-se para Dom Alfonso Ferrandez, que era seu amigo, e esteve alguns dias com ele, e depois, quando o viu neste mester, pôs-se em Aguilar pelo grande amor que havia com ele. E mataram esse dia Pero Coronel, sobrinho de Dom Alfonso Ferrandez, Juan Gonzalez de Deza, Ponce Diaz de Quesada e Rodrigo Iñiguez de Biedma. E mandou elRei derribar os muros de Aguilar.

 

Nota 1. Na de mão está como se segue: «E passados os ditos quatro meses tomou a vila de Aguilar pela força, fazendo-lhe minas e cavas; e caíra uma grande parte do muro, e foi preso Dom Alfonso Fernandez Cornel, e também outros Cavaleiros que aí estavam, e mandou-os elRei matar. Mataram aí Dom Alfonso Fernandez Cornel e Juan Alfonso Carrillo, que era um Cavaleiro mui bom – amigo e compadre de Dom Alfonso Fernandez Cornel – e veio de Castela para se juntar com ele em Aguilar. E aí mataram Pero Cornel, sobrinho do dito Dom Alfonso Fernandez, Juan Gonzalez de Deça, Ponce Diaz de Córdoba e Rodrigo Iñiguez». E não se põe nenhuma outra coisa das que neste capítulo se contêm. Z.

Nota 2. Impressas, «Turces». E.

Nota 3. Outros chamam-no Dom Gonzalo Nuñez. Dona Leonor de Guzman, anojada com este Mestre, acusou-o ante elRei Dom Alonso XI de que falava mal da sua Real pessoa e dizia muitas afrontas contra ela, atestando-o com Cavaleiros émulos do Mestre, um dos quais seria talvez Dom Alonso Fernandez Coronel. Chamou-o elRei à sua corte, mas o Mestre, receoso de que o queriam prender, fez-se forte nos seus castelos e, por último, no de Valencia de Alcántara, onde o cercou elRei. As gentes do Mestre dispararam pedras e flechas contra o próprio Rei, do que resultou que o deu por traidor e o condenou à morte; e, havendo-se rendido, foi entregue a Dom Alonso Fernandez Coronel, que o levou à vila, o fez degolar e mandou queimar-lhe o corpo. Veja-se a Crónica deste Rei (p. 377). E.

Nota 4. «Ferrandez bem viu ao Rei…». P.

 

2. COMO ELREI DOM PEDRO FOI PARA CÓRDOBA E NASCEU AÍ DONA BEATRIZ, SUA FILHA.

Depois que elRei tomou a vila de Aguilar, segundo dito havemos, foi-se para a cidade de Córdoba, e aí nasceu então Dona Beatriz, sua filha, a qual houve em Dona Maria de Padilla (1). E deu elRei a Dona Beatriz, sua filha, os castelos de Montalvan, Capilla e Burguillos, o lugar de Mondejar e Yuncos, que foram de Dom Alfonso Ferrandez Coronel.

 

Nota 1. Na Abreviada, «E nasceu-lhe ali, de Dona Maria de Padilla, uma filha que disseram Dona Beatriz, a qual morreu depois em Bayona de Inglaterra, segundo adiante diremos. E partiu daí e veio para terra de Toledo…». Z.

 

3. COMO ELREI DOM PEDRO FOI FERIDO NUM TORNEIO, E COMO SOUBE QUE VINHA DONA BLANCA DE BORBON, SUA ESPOSA.

Depois disto partiu elRei de Córdoba e veio para terra de Toledo, e esteve alguns dias num seu lugar que chamam Torrijos, a cinco léguas de Toledo (1). E mandou elRei fazer ali um torneio e entrou nele, e foi ferido na mão direita de uma ponta de espada, em guisa que esteve em grande perigo, que não lhe podiam estancar o sangue, e esteve ali até que sanou.

Outrossim já sabia elRei como o Bispo de Burgos, Dom Juan das Roelas, e Dom Alvar Garcia de Albornoz – que ele havia enviado como mensageiros ao Rei Dom Juan de França a demandar-lhe que lhe desse por mulher Dona Blanca, sua sobrinha, filha do Duque de Borbon – então vinham e traziam a dita Dona Blanca (2), e que enviava elRei de França com ela o Visconde de Narbona (3) e outros grandes cavaleiros de França, e que eram já em Castela e que haviam chegado a Valladolid, onde estava a Rainha Dona Maria, mãe do dito Rei Dom Pedro, segunda-feira, aos vinte e cinco dias de Fevereiro deste ano. E elRei (4) tinha então consigo em Torrijos Dona Maria de Padilla, que a havia tomado na vila de Sant Fagund quando ia sobre Gijón, segundo dito havemos, e elRei amava muito à dita Dona Maria de Padilla, tanto que já não havia vontade de casar com a dita Dona Blanca de Borbon, sua esposa, que sabei que era Dona Maria mui formosa e de bom entendimento, e pequena de corpo.

 

Nota 1. Não está na Abreviada desde «a cinco léguas» até «que sanou». Z.

Nota 2. Os Sancta Martha, História Genealógica da Casa de França, livro 11 (p. 809), dizem que o primeiro tratado matrimonial entre esta Princesa e elRei Dom Pedro se celebrou a 7 de Julho de 1352, e que houve outro a 10 do mesmo mês em que se lhe fixou o dote de trezentos mil florins de ouro. Na História de Languedoc, escrita pelos Padres de S. Mauro, acrescenta-se que elRei de França lhe deu vinte e cinco mil florins de ouro sobre as rendas da senescalia de Beaucaire em obséquio a este casamento. Ao fim do ano atravessou por a dita senescalia para vir à Espanha pelo Rosellon. Estava em Bagnols (quiçá Bagnols-sur-Cèze) a 17 de Dezembro, partiu de Nimes a 26 e deteve-se em Narbona dez dias, esperando os Embaixadores de Castela que haviam de a conduzir. Veja-se no Apêndice a Genealogia desta Rainha, e veja-se também a nota ao capítulo 27 do Ano IV. E.

Nota 3. Almerico VIII. E. A Wikipédia em francês chama-lhe «Aymeri VI» ou «Amaury IX». E. H.

Nota 4. Na Abreviada, «E elRei tinha então consigo Dona Maria de Padilla, que a havia tomado no Arraial sobre Gijón, segundo dito havemos, e elRei amava muito à dita Dona Maria de Padilla, tanto que não havia vontade de se ir casar com a dita Dona Blanca de Borbon. E era Dona Maria mui formosa e de bom entendimento, e pequena de corpo». Z.

 

4. COMO DOM JUAN ALFONSO DE ALBUQUERQUE CHEGOU A TORRIJOS E TROUXE CONSIGO DOM JUAN DE LA CERDA.

Estando elRei em Torrijos, segundo havemos já contado, chegou aí Dom Juan Alfonso de Alburquerque, o qual havia enviado elRei, depois que tomara Aguilar, a Portugal em mensageria ao Rei Dom Alfonso de Portugal, seu avô, pai da Rainha Dona Maria, sua mãe, e Dom Juan Alfonso trouxe consigo por aquele caminho Dom Juan de la Cerda – filho de Dom Luis, genro de Dom Alfonso Ferrandez Coronel – de quem acima dissemos que estava em Portugal, que era já vindo de além-mar, e havia-lhe ganhado elRei de Portugal perdão delRei de Castela, seu neto, pois Dom Alfonso Ferrandez, seu sogro, fora morto e todos seus castelos e fortalezas tomadas.

E elRei Dom Pedro recebeu bem a Dom Juan, mas não lhe tornou nenhuns bens dos que foram de Dom Alfonso Ferrandez, seu sogro, pois já os havia dado, que dera a Dona Beatriz, sua filha, que então lhe nasceu em Córdoba de Dona Maria de Padilla, os castelos de Montalvan, Capilla e Burguillos com as suas terras, e Mondejar e Yuncos, segundo dito havemos, e deu Bolaños, que é em Campos, a Pero Suarez de Toledo o moço, seu Reposteiro-mor, e deu Casarubios do Monte a Dia Gomez de Toledo, irmão do dito Pero Suarez, que era seu Notário-mor do Reino de Toledo, e deu Torija a Iñigo Lopez de Orozco, e assim entregou os seus bens a estes e a outros, que era Dom Alfonso Ferrandez mui herdado em Castela.

E depois que Dom Juan Alfonso veio de Portugal e chegou ao Rei em Torrijos, porquanto sabia que Dona Blanca de Borbon, sobrinha delRei de França, mulher que havia de ser delRei, era já em Valladolid, e entendera que elRei não havia grande vontade de ir fazer as suas bodas, falou com ele e disse-lhe que fosse para Valladolid e tomasse a dita Dona Blanca, sua esposa, por sua mulher, segundo que era desposado, e fizesse as suas bodas, dizendo-lhe que nisto faria em seu próprio serviço, pois bem sabia que estes Reinos de Castela e de Leão haviam estado em grande aventura quanto a quem tomariam por seu Rei e Senhor no primeiro ano em que ele reinara, quando estivera para morrer da grande doença que houve em Sevilla, e que ele havendo filhos da sua mulher todas estas coisas cessariam.

Outrossim que atentasse em como a Rainha Dona Leonor de Aragão, sua tia, e seus filhos, os Infantes Dom Ferrando e Dom Juan, eram legítimos herdeiros destes Reinos, e que não catavam por mais senão que ele morresse sem filhos legítimos, e que a isto tudo Deus não o quisesse, porém, sucedendo isto assim, que haveriam no Reino grande partido e que poderiam daí recrescer muitas guerras e males, o qual seria um grande perigo para toda a Cristandade pela vizinhança que os Reinos de Castela hão com os Mouros de Granada, que são aquém mar, e com os outros Mouros dalém-mar, e que fosse sua mercê de partir-se logo de Torrijos e ir fazer as suas bodas com a sua esposa, Dona Blanca, à qual chamavam já Rainha de Castela, e que – fazendo-o ele assim – todo o seu Reino tomaria grande prazer.

E como quer tudo isto dizia (1) Dom Juan Alfonso aconselhando bem ao Rei, todavia prazia-lhe de o arredar de Dona Maria de Padilla, porque parentes dela estavam então contra ele, que eram já privados delRei Juan Ferrandez de Henestrosa, tio de Dona Maria, irmão de sua mãe, Diego Garcia de Padilla, irmão da dita Dona Maria, e Juan Tenorio, que o havia feito elRei seu Reposteiro-mor e era mui amigo dos parentes de Dona Maria.

 

Nota 1. Falta na Abreviada desde «E como quer que tudo isto dizia» até ao fim do capítulo. Z.

 

5. COMO ELREI PARTIU DE TORRIJOS PARA IR A VALLADOLID FAZER AS SUAS BODAS, E COMO DEIXOU DONA MARIA DE PADILLLA EM MONTALVAN.

ElRei Dom Pedro, se bem que não de boa vontade, fê-lo assim, segundo que Dom Juan Alfonso o aconselhava, e deixou Dona Maria de Padilla no castelo de Montalvan, cerca de Toledo, que é um castelo mui forte, e ficou com ela um seu irmão bastardo que diziam Juan Garcia, que depois foi Mestre de Santiago, e outros de quem elRei fiava, para que estivesse segura, pois receava-se de Dom Juan Alfonso, porque o pesava que a tanto amasse elRei, como quer que ao começo foi do conselho que ele a tomasse, porquanto a dita Dona Maria andava donzela em casa de Dona Isabel, mulher de Dom Juan Alfonso, e cuidou o dito Dom Juan Alfonso de apoderar-se mais delRei por ela, pois que era de sua casa, e não lhe sucedeu isto depois assim.

E elRei partiu de Torrijos e foi-se a Valladolid, onde eram já ajuntados para as bodas, por seu mandado, todos os Grandes do Reino. E logo que ali chegou ordenou de fazer as suas bodas com a dita Dona Blanca de Borbon, sua esposa, que era em idade de dezasseis anos (1) e mulher bem formosa, e da linhagem delRei de França da flor-de-Lis.

 

Nota 1. Dezassete está na Abreviada, e melhor que nas outras originais e nas impressas, que têm dezoito anos, considerando que adiante – Ano V, capítulo 21 – se diz que a Rainha Dona Blanca tinha dezoito anos quando entrou em Toledo. Z. Amírola há-de ter alterado de 17 para 16 anos. E. H.

 

6. COMO ELREI HOUVERA DE PELEJAR COM O CONDE DOM ENRIQUE EM CIGALES, E COMO VIERAM O CONDE E DOM TELLO À SUA MERCÊ.

Estando elRei Dom Pedro em Valladolid, logo que ali chegou, soube como o Conde Dom Enrique e Dom Tello, seus irmãos, vinham às suas bodas, mas que traziam muitas companhas a cavalo e a pé, e que estavam em Cigales, a duas léguas de Valladolid, e diziam que não entrariam em Valladolid, às bodas delRei, a menos que toda a sua companha entrasse com eles, e que isto diziam por receio que haviam de Dom Juan Alfonso de Alburquerque, que vinha ali (1) mui poderoso, do qual se temiam.

E ao outro dia depois que elRei chegou a Valladolid, por conselho do dito Dom Juan Alfonso, acordou de os ir prender ou matar – ao Conde e a Dom Tello – em Cigales, dizendo-o e afincando-o o dito Dom Juan Alfonso ao Rei, e dando-lhe a entender que os ditos Conde e Dom Tello não vinham às suas bodas como deviam, e que era ao Rei grande vergonha, e pouco de seu serviço, virem assim assunados, ademais que diziam que não viriam a Valladolid, onde elRei estava, senão com todas as suas companhas que com eles eram.

E elRei partiu sábado de manhã, no mês de Maio do ano sobredito, e foi-se para Cigales com todas as companhas que com ele eram em Valladolid, que iam esse dia com ele os Infantes de Aragão Dom Ferrando e Dom Juan, seus primos, Dom Juan de la Cerda, Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque, e muitos Ricos homens e Cavaleiros.

E – indo elRei para Cigales – veio a ele um Escudeiro que lhe enviava o Conde Dom Enrique (que disseram ao Conde que elRei vinha contra si, mas ele não o sabia ao certo), ao qual Escudeiro diziam Alvaro de Carreño – e era Asturiano – e vinha num cavalo castanho, com um lorigão vestido e seus coxotes e caneleiras, e outros dois Escudeiros com ele. E disse ao Rei que o Conde lhe beijava as mãos e o enviava à sua mercê a contar-lhe como ele e Dom Tello, seu irmão, tinham vindo
às suas bodas por seu mandado, mas que, por temor de Dom Juan Alfonso, que estava na sua Corte e tinha grandes companhas que eram de seu bando, lhe pediam por mercê que não lhes pusesse culpa por se quererem defender do dito Dom Juan Alfonso, vindo acompanhados às suas bodas, e que eles estavam em Cigales, com aquelas gentes que com eles vieram, mas que eram prestos a tudo o que a sua mercê mandasse, sendo seguros de Dom Juan Alfonso de Alburquerque, que era seu privado e tinha grande poder com ele e no Reino.

E elRei disse a Dom Juan Alfonso, «Vede estas razões que o Conde e Dom Tello me enviam dizer por este Escudeiro, pois tangem a vós», e o dito Dom Juan Alfonso respondeu, e disse que aquelas razões que o Conde e Dom Tello enviavam dizer por aquele Escudeiro não eram boas, nem o Conde e Dom Tello tinham boa escusa em vir assim assunados com gentes a cavalo e a pé, armados de fuste e de ferro, aonde elRei estava, que elRei a todos havia de ter em paz na sua Corte, e assim lho enviara dizer elRei – ao Conde e a Dom Tello – por Juan Gonzalez de Bazan (2), quando o enviara a eles, e enviara-lhes suas cartas de seguro para virem às bodas, das quais cartas não deveram duvidar, e que o Conde e Dom Tello não deveram (3), cerca de seu Rei e seu Senhor que ali estava, vir assunados com gentes de armas e homens a pé como vinham, e que tudo isto fazia Pero Ruiz de Villegas, que punha ao Conde e a Dom Tello nestas dúvidas.

E elRei disse então ao dito Escudeiro que dissesse ao Conde que ele lhe enviava dizer e mandar – a ele, a Dom Tello e a todos os seus – que logo sem outra detença se viessem para ele, à sua mercê, e que os assegurava de todos aqueles de quem o dito Conde, Dom Tello e os seus se receavam e tinham temor, e que às companhas que tinham em Cigales as enviassem para suas terras. E o dito Alvaro de Carreño, ouvidas as razões que Don Juan Alfonso de Alburquerque lhe disse e o que disse elRei, não ousou de tornar resposta salvo que iria a seu Senhor, o Conde, e lhe diria todas aquelas razões que o mandavam dizer. E assim o fez, e tornou-se para o Conde em Cigales e contou-lhe tudo o que elRei e Dom Juan Alfonso lhe disseram.

 

Nota 1. Que aí viam mui poderoso. P.

Nota 2. Na de mão, «de Bastan». Z.

Nota 3. Na mesma, «E que o Conde não devera, tão cerca de seu Rei e seu Senhor que ali estava, vir tão assunado com gentes de armas e de pé, armados de fusta e de ferro, e que tudo isto fazia Pero Ruiz de Burgos…». Numa Abreviada está também «de Burgos». Z.

 

7. COMO FEZ O CONDE DOM ENRIQUE QUANDO SOUBE EM CIGALES QUE VINHA ELREI.

O Conde Dom Enrique tinha nesse dia em Cigales seiscentos homens a cavalo e mil e quinhentos homens a pé das Astúrias, e logo que soube como elRei saíra de Valladolid, com todas as companhas que ali eram vindas, para vir contra ele, e ouviu as razões que o dito Alvaro de Carreño – o Escudeiro que enviou ao Rei – lhe disse que elRei e Dom Juan Alfonso lhe enviavam dizer, houve o seu conselho em como faria.

E como quer que alguns dos seus lhe aconselhavam que não esperasse elRei, e outros lhe diziam que logo se fosse pôr em poder delRei, o Conde não o quis fazer, mas antes fez armar todas as suas companhas, saiu da aldeia de Cigales e parou-se fora da aldeia nuns pães (searas) que ali estavam. E elRei chegou e pôs-se numas vinhas que eram da outra parte, cerca donde estava uma ermida pequena, e estava de entremeio um pequeno arroio, e era isto no mês de Maio do sobredito ano.

E elRei não havia vontade de pelejar com o Conde (1), porquanto já não amava tanto a Dom Juan Alfonso de Alburquerque como soía, como quer que o não entendiam assim todos. Outrossim os parentes de Dona Maria de Padilla, que eram Juan Ferrandez de Henestrosa, seu tio, e Diego Garcia de Padilla, seu irmão, e outros Cavaleiros que aí estavam que lhes queriam bem e os ajudavam, tratavam já com o Conde – sabendo-o elRei – contra Dom Juan Alfonso, e punham com o Conde as suas amizades quanto podiam. E o que trazia estas preitesias entre eles era um Cavaleiro do Conde e diziam-no Juan Gonzalez de Bazán, e havia estado antes disto três meses na Corte delRei, trazendo todas estas preitesias e sabendo-o elRei.

 

Nota 1. Na de mão, «não havia vontade de matar o Conde, nem de o prender». Z.

 

8. COMO ELREI ENVIOU MANDAR A PERO CARRILLO QUE NÃO TROUXESSE A VANDA, POIS QUE NÃO ERA SEU VASSALO.

Aquele dia viu elRei, diante as azes do Conde, andar regendo a batalha um Cavaleiro que trazia uns sobressinais vermelhos (1) com Vanda de ouro, e perguntou quem era, e disseram-lhe alguns dos seus, que o conheciam, que era Pero Carrillo. E elRei enviou a ele um seu Donzel (2), e mandou-lhe que dissesse a Pero Carrillo, pois que não era seu Vassalo, que não havia por que trazer a Vanda. Porque esta Ordem da Vanda, que elRei Dom Alfonso fizera, era mui honrada, mui escolhida e mui preciada no Reino de Castela e ainda noutras partes, e não a traziam senão mui escolhidos homens (3), esmerados em costumes, em linhagem e em cavalaria, sendo Vassalos delRei ou do Infante, seu filho, primogénito herdeiro, e não a haviam por outra maneira.

E o Donzel delRei chegou a Pero Carrillo e disse-lhe o que elRei lhe havia dito que lhe dissesse. E logo Pero Carrillo tirou os sobressinais que trazia – e eram de um pano colorado com uma Vanda de ouro – e disse assim ao Donzel: «Dizei a meu Senhor, elRei, que quando Abulhacen, Rei de Benamarin, cercou a vila de Tarifa, me mandou elRei Dom Alfonso, seu pai, entre outros nobres e bons que lá enviou para a ajudar a defender, que eu fosse com eles, e uma noite houvemos peleja com os Mouros que queriam entrar na vila de Tarifa por uma brecha no muro, que caíra dos golpes dos engenhos, e aquela noite morreu ali o Senhor dos Montes claros, que era um Mouro mui poderoso e tinha ali muitas gentes. E logo daí a quinze dias me enviou meu Senhor, elRei Dom Alfonso, que Deus perdoe, estas sobrevestes do seu corpo, e me enviou mandar que trouxesse a Vanda, e de então para cá a tenho, mas daqui em diante eu não a trarei mais sem a licença delRei, pois que não lhe praz».

E ao Rei prouve quando viu que a tirou de sobre si, que tão perto estavam uns dos outros que se viam bem. E esta regra na Ordem da Vanda guardou-se sempre nas Cortes dos Reis de Castela, que homem que que não fosse Vassalo delRei, ou do seu filho herdeiro, não trouxesse Vanda.

 

Nota 1. Impressas, «sobrevestes vermelhas». Z.

Nota 2. Na de mão acrescenta-se, «que chamavam Pedro de Ayala, e mandou-lhe que dissesse a Pero Carrillo…». Este Pedro de Ayala é o Autor desta História. Z.

Nota 3. Na de mão, «e que não a traziam senão mui poucos, mui escolhidos e mui esmerados em linhagem e em Cavalaria». Z.

 

9. COMO DOM JUAN ALFONSO DE ALBURQUERQUE DESEJAVA QUE ELREI PELEJASSE COM O CONDE, E COMO ELREI ENVIOU OS SEUS MENSAGEIROS AO DITO CONDE.

Como quer que Dom Juan Alfonso de Alburquerque desejava que elRei pelejasse naquele dia com o Conde, dizendo que era já hora de vésperas e que o Conde o mantinha com palavras para esperar a noite e fugir, porém elRei não o queria nem havia em vontade, e antes enviou, como mensageiros ao Conde, Dom Alvar Garcia de Albornoz, Copeiro-mor da Rainha Dona Blanca, sua esposa, que havia de ser então sua mulher, e Sancho Sanchez de Rojas, seu Besteiro-mor, pelos quais lhe enviou mandar que se viesse logo à sua mercê, e que lhe desse Cavaleiros em arreféns até que lhe entregasse as fortalezas que tinha nas Astúrias, mais as que tinha Dom Tello, seu irmão, e que lhe assegurava que lhes faria muitas mercês, a ele e a Dom Tello, seu irmão, e aos que com ele eram, e que nisto não pusesse dúvida nenhuma e que o fizessem assim. E os ditos Dom Alvar Garcia de Albornoz e Sancho Sanchez de Rojas chegaram até ao Conde e Dom Tello e disseram-lhes todas as razões que elRei lhes enviava dizer e mandar, e aconselharam-nos a que o fizessem assim.

 

10. COMO O CONDE HOUVE SEU CONSELHO EM COMO FARIA, E COMO ELE, DOM TELLO E OS QUE COM ELE ESTAVAM VIERAM À MERCÊ DELREI.

O Conde houve o seu conselho com os Cavaleiros que aí eram consigo sobre como faria, e Juan Gonzalez de Bazán, que era com o Conde e sabia bem como estavam os feitos na Corte delRei, pois havia tempo que por mandado do Conde ali estivera e conhecia bem a vontade delRei, disse-lhe que mais não fizesse, de nenhuma maneira, salvo ir à mercê delRei, seu Senhor e seu irmão. E ele assim o fez, e logo (1) foram desarmados das lorigas, o Conde, Dom Tello e os que com eles iam, e foram-se para elRei em cavalos e mulas, conforme estavam, até trinta, e quando chegaram perto donde elRei estava queriam descavalgar das bestas e vir a pé até ele para lhe beijar as mãos, estando elRei em seu cavalo, mas elRei não quis que nenhum descavalgasse e assim lho mandou.

E, desde que chegaram, beijaram ao Rei as mãos, e, desde que lhas houveram beijado, descavalgou elRei do cavalo e entrou numa ermida que ali estava com o Conde, Dom Tello, alguns dos delRei e outros do Conde, e disse o Conde ao Rei assim, «Senhor, Dom Tello, meu irmão, e eu e os Cavaleiros que aqui estão connosco, e todos os outros que comigo e com ele são, vimos à vossa mercê, e se tão prestes não o fizemos não foi por nos faltar vontade de vos servir, mas foi pelo algum receio que tínhamos dalgumas coisas que nos diziam que alguns dos vossos privados vos informavam contra nós. Mas, Senhor, pois que nós outros somos vindos à vossa mercê, daqui em diante vós fazeis de nós e dos nossos como da vossa mercê for, que nós outros em vosso poder e na vossa mercê nos pomos». E elRei respondeu assim, «Conde, irmão, a mim praz muito hoje da vossa vinda e de Dom Tello, meu irmão, à minha mercê, e de todos os vossos, e eu farei a vós e a eles muitas mercês, em guisa que vós sejais bem contentes».

E isto feito, elRei cavalgou e mandou ao Conde, a Dom Tello e aos Cavaleiros que com eles eram vindos à sua mercê que cavalgassem. E elRei e todos estes juntos com ele tornaram-se para Valladolid, do qual houveram muitos grande prazer, mas a outros não prouve, e estes foram Dom Juan Alfonso de Alburquerque e os que tinham a sua partida, pelo que adiante diremos como estes feitos sucederam.

E cearam aquela noite em Valladolid com Dom Juan Alfonso de Alburquerque o Conde, Dom Tello e os seus Cavaleiros que eram com eles. E nessa noite o Conde e Dom Juan Alfonso de Alburquerque puseram as suas amizades em uno, porém durou pouco a amizade, consoante adiante o contaremos.

E logo ao outro dia depois que elRei chegou a Valladolid, deu o Conde, em arreféns de que entregaria ao Rei as fortalezas que ele e Dom Tello tinham no Reino, estes Cavaleiros: Per Alvarez Osorio, Pero Carrillo, Pero Ruiz de Villegas, Gonzalo Bernal de Quirós, Juan Rodriguez de Villegas o calvo, Ferrand Alvarez de Nava (2) e Garci Laso de la Vega – filho de Garci Laso, o que mataram em Burgos – que era então moço. E ficaram todos estes Cavaleiros em poder de Dom Juan Alfonso de Benavides, Alguazil-mor delRei, para que os tivesse até que os Castelos fossem entregues.

 

Nota 1. Não está na de mão desde «e Juan Gonzalez de Bastán» até «e vosso irmão», e também se põe diferente o que se segue, desta maneira: «E logo foram desarmados das lorigas o Conde, Dom Tello e os que com ele iam, e vieram a pé à mercê delRei o dito Conde, Dom Tello, seu irmão, e outros Cavaleiros que estavam com eles, até trinta, todos a pé, estando ele em seu cavalo, e de todos aqueles que com ele estavam não descavalgou nenhum, salvo que fizeram uma passagem por onde o Conde e Dom Tello vinham. E beijaram ao Rei o pé e depois as mãos, e elRei descavalgou do cavalo e entrou numa ermida que ali estava» – que é em tudo o contrário do que na Vulgar se refere, mas porventura o Autor não quis que quedasse memória de tamanha sujeição do Conde de Trastamara, pelo que depois sucedeu, vendo-o sublimado na dignidade Real. Z. Zurita esqueceu-se de pôr aqui uma outra hipótese, a de que o texto tivesse sido alterado por alguém que não Ayala. E. H.

Nota 2. Na de mão, «Fernand Alvarez de Nava, Gonçalo Bernal de Quirós e Juan Rodriguez de Villegas o Calvo, e elRei mandou-os receber». Z.

 

11. COMO ELREI DOM PEDRO FEZ BODAS EM VALLADOLID COM A RAINHA DONA BLANCA DE BORBON.

Depois que todas estas coisas assim se passaram, segundo que havemos já contado, elRei Dom Pedro fez as suas bodas com sua esposa, Dona Blanca de Borbon, e tomou-a por sua mulher, e velou-se com ela em Sancta Maria a nova de Valladolid (1), e fizeram-se muitas alegrias, muitas justas e torneios.

E iam elRei Dom Pedro e a Rainha Dona Blanca, sua mulher, naquele dia vestidos (2) de uns panos de ouro brancos enforrados de arminhos, e em cavalos brancos, e era padrinho delRei Dom Juan Alfonso, Senhor de Alburquerque, e a madrinha da Rainha era a Rainha Dona Leonor de Aragão, que ia numa mula e levava panos de lã brancos com peles grises. E iam a pé com a Rainha Dona Blanca, mulher delRei, que a levavam nesse dia pelas rédeas do cavalo, o Conde Dom Enrique, Dom Tello, seu irmão, Dom Ferrando de Castro, Dom Juan de la Cerda, o Mestre de Calatrava Dom Juan Nuñez de Prado e Dom Pedro de Haro e outros muitos senhores. E o Infante Dom Ferrando de Aragão levava pela rédea sua mãe, a Rainha Dona Leonor, que era madrinha. E ia a Rainha Dona Maria, mãe delRei Dom Pedro, numa mula, e levava panos de xametes brancos com peles veras, e levava-a pela rédea o Infante Dom Juan de Aragão. E esteve aquele dia das bodas nas espaldas da Rainha Dona Blanca, segundo se soe usar em Castela, Dona Margarida de Lara, irmã de Dom Juan Nuñez, que era donzela e nunca casou.

E eram ali com elRei nestas bodas o Infante dom Ferrando e o Infante Dom Juan, seus primos, filhos delRei de Aragão, a Rainha Dona Maria, mãe delRei, a Rainha Dona Leonor, mãe dos ditos Infantes, o Conde Dom Enrique, Dom Tello, seu irmão, Dom Ferrando de Castro, Dom Juan de la Cerda, Dom Juan Alfonso de Alburquerque, Dom Pedro de Haro, o Mestre de Calatrava Dom Juan Nuñez de Prado e muitos outros Grandes do Reino. E foram as bodas numa segunda-feira, a três de Junho deste dito ano (3).

 

Nota 1. No de mão, «Santa Maria de Valladolid a maior». Z.

Nota 2. Não está no de mão desde «E iam…vestidos» até «que...nunca casou». Z. Neste parágrafo reescreveu-se o seguinte. E. H.

Nota 3. Na de mão, «E foram estas bodas a uma segunda-feira no mês de Maio deste dito ano». Z.

 

12. COMO ELREI DOM PEDRO, LOGO QUE FEZ AS SUAS BODAS, PARTIU DE VALLADOLID E FOI-SE PARA MONTALVAN, AONDE ESTAVA DONA MARIA DE PADILLA.

Logo na quarta-feira seguinte depois das bodas, elRei comia em seu palácio, nas casas do Abade de Santander onde pousava, que são cerca do mosteiro que é agora das Huelgas, e comia nesse dia sem outras companhas, apartadamente. E, estando elRei à mesa, chegaram a ele a Rainha Dona Maria, sua mãe, e a Rainha Dona Leonor, sua tia, chorando, e elRei levantou-se da mesa e elas falaram à parte com ele; e disseram-lhe assim, segundo depois ele e elas o contavam, «Senhor, a nós é dito que vos quereis logo partir daqui para ir onde está Dona Maria de Padilla, e pedimos-vos por mercê que não o queirais fazer, pois se tal coisa fizésseis, em primeiro faríeis nisso mui pouco em vossa honra, ao deixar assim a vossa mulher logo que casastes (1), estando aqui convosco todos os maiores e melhores dos vossos Reinos. Outrossim elRei de França se teria de vós por mui mal contente, que por o dito casamento novamente se há aliado a vós e vos enviou esta sua sobrinha, a qual vós lhe enviastes demandar para casar com ela, e ele vo-la enviou mui honradamente, como era de razão, e mui acompanhada. E igualmente, Senhor, poríeis nos vossos Reinos mui grande escândalo em vos partir assim daqui, onde estão todos os mais Grandes do vosso Reino – e são vindos aqui por vosso mandado – e não seria de vosso serviço partir-vos assim sem lhes dizer nenhuma coisa nem lhes falar». E elRei lhes respondeu que se maravilhava muito em elas crerem que ele se partiria assim de Valladolid e da sua mulher, e que o não cressem. E as Rainhas lhe disseram que por certo lhes era dito que ele se queria ir logo aonde estava Dona Maria de Padilla. E elRei as assegurou quanto a isto que o não faria nem o tinha em vontade de fazer, e que não o cressem. E as Rainhas com tanto se partiram dele, como quer que sabiam ao certo que elRei se partia logo, mas não puderam mais fazer.

E logo (2) uma hora depois disto elRei disse que lhe trouxessem as mulas, que queria ir ver a Rainha Dona Maria, sua mãe, e logo que lhas trouxeram partiu de Valladolid, e foi esse dia dormir a um lugar que dizem Pajares, que é uma aldeia para lá de Olmedo, a dezasseis léguas de Valladolid, e ao outro dia foi para a Puebla de Montalvan onde estava Dona Maria de Padilla, pois, como quer que ele a deixara no castelo de Montalvan, já lhe havia enviado dizer que se viesse à Puebla de Montalvan, que é duas léguas aquém, e ali a achou. E tinham já elRei e os que com ele iam mulas em lugares certos, mas não chegaram com ele senão três em mulas (3), os quais eram estes, Diego Garcia de Padilla, irmão de Dona Maria de Padilla, Juan Tenorio, Reposteiro-mor delRei, e Suer Perez de Quiñones, e muitos outros que iam para o acompanhar chegaram ao outro dia (4).

 

Nota 1. Com motivo nesta separação se forjou aquela fábula da serpente que alguns Escritores referem. O mais antigo dos quais julgamos ser o Autor da «Primeira vida de Inocencio VI», que se encontra entre as vidas dos Papas de Aviñon publicadas por Baluzio. Ver, no tomo I, p. 324, a partir de «Dicto etiam durante tempore Petrus Rex Castellae Blancham filiam…». E.

Nota 2. Na de mão, «E logo duas horas depois disto elRei disse que queria ir à caça». Z.

Nota 3. Na mesma, «E não iam com ele senão quatro em mulas, ou cinco, e eram estes, elRei, Diego Garcia de Padilla, irmão de Dona Maria, Juan Tenorio, seu Reposteiro-mor, Suer Perez de Quiñones, seu Guarda-mor, e Juan Garcia de Valagera (Villagera), irmão bastardo de Dona Maria». Z.

Nota 4. Oderico Raynaldo, nos Anais, tomo 25, p. 554, ano 1353, número 16, diz que o Papa Innocencio_VI, sabedor de que elRei Dom Pedro havia deixado a Rainha Dona Blanca, volvendo-se para a Padilla, lhe escreveu a 1 de Maio admoestando-o a arrepender-se da ofensa que fazia a Deus, e que também escreveu à Rainha Dona Maria que procurasse a emenda delRei seu filho, e a Dona Blanca, a fim de que pusesse todo o empenho em ganhar o afecto de seu marido. Mas se o Pontífice escreveu estas cartas não poderia ser a 1 de Maio – «Kal. Maij» – pois elRei não celebrou as suas bodas até 3 de Junho, segunda-feira, nem deixou Dona Blanca senão quarta-feira, 5. Quiçá no original esteja a data do ano seguinte. E.

 

13. COMO OS INFANTES DE ARAGÃO, O CONDE DOM ENRIQUE, DOM TELLO E DOM JUAN DE LA CERDA SE FORAM EM PÓS DELREI.

Logo aos dois dias que elRei partiu de Valladolid, partiram o Conde Dom Enrique, Dom Tello, seu irmão, e Dom Juan de la Cerda, filho de Dom Luis, e foram em pós delRey, e ao outro dia partiram os Infantes de Aragão, primos delRei, os quais eram Dom Ferrando, Marquês de Tortosa e Senhor de Alvarracin, e Dom Juan, seu irmão, e todos estes eram então amigos dos parentes de Dona Maria de Padilla, para fazer prazer ao Rei, e todos eram contra Dom Juan Alfonso de Alburquerque.

Outrossim Dom Ferrando de Castro, que viera às bodas delRei, desde que viu o Rei partido de Valladolid foi-se para a Galícia. E, logo que elRei Dom Pedro partiu de Valladolid, foram livres os Cavaleiros que o Conde Dom Enrique havia dado em arreféns para entregar os castelos ao Rei – aqueles que ele havia e os de Dom Tello, seu irmão, como dito havemos – e isto foi por vontade delRei, que deu mandamento para isso antes que partisse de Valladolid, e foram-se depois a elRei os ditos Cavaleiros, como quer que o Conde e Dom Tello entregaram ao Rei todos os seus castelos, segundo o puseram com ele.

 

14. DO CONSELHO QUE DOM JUAN ALFONSO DE ALBURQUERQUE E O MESTRE DE CALATRAVA HOUVERAM COM AS RAINHAS DONA MARIA, MÃE DELREI, E DONA BLANCA DE BORBON, SUA MULHER, DEPOIS QUE ELREI PARTIU DE VALLADOLID, E DO QUE ACONTECEU POR ISTO.

Logo que na vila de Valladolid se soube como elRei era partido, e que ia adonde estava Dona Maria de Padilla, houve grande alvoroço e grande movimento, e os Infantes de Aragão Dom Ferrando e Dom Juan, primos del Rei, depois que ele partiu de Valladolid, isso mesmo fizeram eles e seguiram o caminho delRei, que não se atreveram a outra coisa fazer. Outrossim o Conde Dom Enrique e Dom Tello, seu irmão, foram em pós delRei (1), e prazia-lhes muito porque Dom Juan Alfonso não era deste conselho, pois sem sua vontade se fazia isto.

Outrossim Dom Juan Alfonso de Alburquerque, Dom Juan Nuñez de Prado, Mestre de Calatrava, e outros Cavaleiros foram logo ver as Rainhas Dona Maria, mãe delRei, e Dona Blanca, sua mulher, e Dona Leonor, Rainha de Aragão, sua tia, e acharam-nas mui tristes. E estavam todos os que ali ficaram mui desmaiados e mui cuidosos, entendendo que aquele dia se levantaria muita guerra e muito mal em Castela, como foi. E houveram o seu conselho dizendo que não fizera elRei bem em se partir assim da sua mulher, e pesava-lhes muito disso, e ordenaram que o Mestre de Calatrava Dom Juan Nuñez de Prado e Dom Juan Alfonso partissem logo para elRei, e muitos outros Cavaleiros com eles, dos quais diremos adiante quais eram, e que trabalhassem muito por modo a fazer tornar elRei à sua mulher, a Rainha Dona Blanca, e que se emendassem estes feitos.

 

Nota 1. Mais um caso de reescrita do texto original, dado que no capítulo anterior se repetiu o que aqui é dito. E. H.

 

15. COMO DOM JUAN ALFONSO PARTIU DE VALLADOLID E SE IA PARA ELREI, A TOLEDO, E QUAIS CAVALEIROS IAM COM ELE.

Segundo o conselho que havemos dito que Dom Juan Alfonso e Dom Juan Nuñez, Mestre de Calatrava, tiveram com as Rainhas Dona Maria, Dona Blanca e Dona Leonor, partiu logo de Valladolid o dito Dom Juan Alfonso, e iam com ele mil e quinhentos a cavalo e em mulas.

E os Cavaleiros delRei que iam com Dom Juan Alfonso eram estes: Juan Rodriguez de Cisneros (1), Juan Rodriguez de Sandoval, Alvar Rodriguez Daza, Lope Rodriguez de Villalobos, Ferrand Ruiz Girón, Alfonso Tellez Girón e Juan Alfonso Girón, Dom Alvar Perez de Castro, irmão de Dom Ferrando de Castro, Dom Garci Ferrandez Manrique (2), Lope Diaz de Rojas, Rui Gonzalez de Castañeda, Suer Yañez de Parada, Alvar Gonzalez Moran, Garci Jufre Tenorio, filho do Almirante Dom Alfonso Jufre, Gutier Gomez de Toledo, Juan Martinez de Rojas e outros. Outrossim vassalos de Dom Juan Alfonso eram estes: Diego Perez Sarmiento, Rui Diaz Cabeza de Vaca, seu Mordomo-mor, Ferrand Garcia Duque, Pero Diaz de Sandoval e Ferrand Gutierrez, seu irmão, Ferrand Sanchez de Tovar e Juan Ferrandez de Tovar, Martin Alfonso de Arenillas (3), Juan Ferrandez Cabeza de Vaca o romo e outros muitos.

E quarta-feira, oito dias depois que elRei partiu de Valladolid, Dom Juan Alfonso foi-se a caminho de Toledo, onde estava elRei, e chegou a umas aldeias cerca de Olmedo, e ao outro dia, quinta-feira, foi dali dormir a Parraces, e no outro dia, sexta-feira, foi comer ao Espinar de Segóvia e dormir ao Filipal, e no outro, sábado, foi comer e dormir a Sant Martin de Valde Iglesias, e no domingo chegou a Almorox, uma aldeia de Escalona.

 

Nota 1. Desde «Juan Rodriguez de Cisneros» até «Dom Alvar Perez de Castro», falta no de mão. Z.

Nota 2. Na de mão, «Dom Garci Fernandez Manrique, Fernan Perez de Ayala, Lope Diaz de Rojas, Ruy Gonzalez de Castañeda, Suer Yañez de Jarada…». Adiante aparece que Dom Fernan Perez de Ayala e seu filho, que foi o Autor desta Crónica, seguiram esta voz de Dom Juan Afonso, Senhor de Alburquerque. Z. Em rigor, o que mais à frente se diz é que os dois Ayala seguiram a voz favorável à Rainha Dona Branca, mas sem discriminar, entre Dom João Afonso, o Conde Dom Henrique, os Infantes de Aragão e o próprio movimento das cidades que Toledo encabeçou, qual dessas facções apoiaram. E. H.

Nota 3. Na mesma, «Ainillas». No livro das Behetrias, «Arnilla». Z. Na edição de 1865, «Arniellas»; porém, no nome do avô, «Areniellas». E. H.

 

16. COMO ELREI ENVIOU MENSAGEIROS SEUS A DOM JUAN ALFONSO PARA QUE APRESSASSE O SEU CAMINHO ATÉ ELE, EM TOLEDO.

No domingo em que Dom Juan Alfonso tinha chegado à aldeia de Almorox, à meia-noite veio a ele Dom Simuel o Levi, Tesoureiro-mor delRei – o qual foi primeiro Almoxarife de Dom Juan Alfonso e era mui privado delRei e seu conselheiro, e servia quanto podia a Dona Maria de Padilla – e disse a Dom Alfonso que elRei o enviava a ele para apressar a sua ida a Toledo, onde elRei estava, e que não havia por que tomar nenhum temor, pois elRei dizia que queria fazer com o conselho do dito Dom Juan Alfonso tudo aquilo que houvesse de fazer, tal como o fizera até então, e que os parentes de Dona Maria isso mesmo diziam, e que não lhe cumpria de levar tantas gentes como ali iam com ele, e que as mandasse tornar.

E apesar de que Dom Simuel mais entendia, não ousava de dizer outra coisa, mas houve aí alguns dos que iam com Dom Simuel que contavam, por novas que deram em casa de Dom Juan Alfonso, como elRei, porquanto sabia que Dom Juan Alfonso levava muitas companhas, mandara guardar todas as portas de Toledo, e que não havia aberta salvo uma porta que dizem a de Visagra, e que tirara o Alguazilado-mor da dita cidade a Suer Tellez de Meneses, porque este queria bem a Dom Juan Alfonso, e dera o dito ofício a Alfonso Jufre Tenorio, irmão de Dom Juan Tenorio, Reposteiro-mor delRei e seu privado, que era amigo dos parentes de Dona Maria de Padilla. E Don Juan Alfonso, desde que soube estas novas que contaram os que vinham com Dom Simuel, se bem que Dom Simuel lho encobriu, houve o seu conselho com aqueles Ricos homens e Cavaleiros que vinham com ele, e acordaram que ao outro dia fosse a Fuentsalida, uma aldeia a caminho de Toledo, e que dali enviaria recado ao Rei e saberia como estavam estes feitos.

 

17. COMO DOM JUAN ALFONSO HOUVE RECEIO DAS PRESSAS QUE ELREI LHE FAZIA PARA QUE FOSSE ATÉ ELE, E COMO SE TORNOU PARA TRÁS E ENVIOU AO REI UM SEU CAVALEIRO A ESCUSAR-SE PORQUE NÃO IA ATÉ ELE.

Havido este conselho, Dom Juan Alfonso quis partir de Almorox, e, já quando as azémolas e o rastro (1) eram partidos a caminho de Fuentsalida, chegou um Cavaleiro que elRei enviava a Dom Juan Alfonso, que diziam Pero Gonzalez Orejon, natural de Liébana e homem de quem elRei fiava, pelo qual elRei igualmente enviava recado a Dom Juan Alfonso de apressar o seu caminho.

E Dom Juan Alfonso houve grande receio de tantas pressas como elRei lhe fazia, e houve o seu conselho com os Cavaleiros que estavam com ele, e acordaram que se tornasse, e que todos estariam com Dom Juan Alfonso para mostrar todos estes feitos ao Rei, e enviaram por suas azémolas que eram já partidas, e deram-lhe – todos aqueles que vinham com Dom Juan Alfonso – grande esforço, dizendo-lhe que elRei não o queria perder por nenhuma guisa, e entretanto que se tornasse e enviasse ao Rei os seus mandadeiros, e não se pusesse noutra aventura.

E Dom Juan Alfonso acordou de fazer segundo o conselho deles, e enviou Rui Diaz Cabeza de Vaca ao Rei – um bom Cavaleiro que era seu Mordomo-mor – e este chegou a Toledo e achou elRei fora da cidade, que andava folgando, e com elRei todos os Senhores e Cavaleiros que ali eram vindos a ele. E Rui Diaz Cabeza de Vaca chegou ao Rei e disse-lhe, diante todos os que ali estavam com ele, assim: «Senhor, Dom Juan Alfonso beija as vossas mãos e encomenda-se na vossa mercê, e vos faz saber que vinha para vós, mas soube que alguns dos vossos privados vos informavam mal contra ele, e houve medo da morte, por o qual se tornou no caminho. E Senhor, vós sabeis como Dom Juan Alfonso há grande divedo na vossa mercê e na de minha Senhora, a Rainha Dona Maria, vossa mãe, e como, depois que vós nascestes, sempre foi vosso Mordomo-mor e passou muitos perigos por vós em tempo delRei Dom Alfonso, vosso pai, e de Dona Leonor de Guzman. E diz que não pode saber qual é a razão porque vós haveis sanha dele, e se algum ou alguns dizem que ele fez contra o vosso serviço alguma coisa, que ele está prestes para se salvar disso por aquela guisa que vós, Senhor, mandardes. E se algum Cavaleiro mais quiser dizer contra Dom Juan Alfonso, que seja contra o que eu digo, Senhor, e eu sou prestes, assim como seu Vassalo e Mordomo-mor, para lhe pôr o meu corpo por tudo o que tocar ao serviço do meu Senhor Dom Juan Alfonso”.

 

Nota 1. A palavra «rastro» talvez designe a carriagem que seguiria na cauda da coluna. E. H.

 

18. DA RESPOSTA QUE ELREI DEU A RUI DIAZ CABEZA DE VACA.

ElRei, depois que ouviu as razões que Rui Diaz Cabeza de Vaca lhe disse, respondeu em poucas palavras, dizendo a Rui Diaz que Dom Juan Alfonso fizera a sua vontade ao se tornar para trás e crer em tais coisas, e que melhor fizera em vir-se à sua mercê. E mandou a Rui Diaz que se tornasse logo para ele, e deu-lhe as suas cartas de credença para Dom Juan Alfonso acerca disto. E Rui Diaz partiu-se delRei então, e foi-se a Dom Juan Alfonso e contou-lhe a resposta que achara em elRei, e encontrou Dom Juan já em Valladolid (1), mas com aquela resposta Dom Juan Alfonso não se assegurou, pois tinha grande temor delRei.

 

Nota 1. Nas impressas, «em Santa Olalla». E.

 

19. COMO DOM JUAN ALFONSO, DEPOIS QUE TORNOU DE ALMOROX, SE VIU NO LUGAR DO FERRADON COM DOM JUAN NUÑEZ, MESTRE DE CALATRAVA.

Dom Juan Alfonso de Alburquerque, depois que se tornou de Almorox, segundo havemos contado, foi comer a Sancta Maria do Tiemblo (1) e dormir ao Ferradon, e achou aí Dom Juan Nuñez de Prado, Mestre de Calatrava, que vinha de Valladolid e queria chegar a Toledo, onde estava elRei, segundo o que ele e Dom Juan Alfonso haviam acordado em Valladolid, pois era seu amigo – de Dom Juan Alfonso – e falaram em uno. E Dom Juan Alfonso contou ao Mestre Dom Juan Nuñez todas as novas que soubera da Corte delRei e a razão porque se tornara, e o Mestre de Calatrava houve outrossim receio e medo delRei, porquanto ele e Dom Juan Alfonso eram de comum acordo e vinham para estranhar ao Rei a partida que fizera de Valladolid. E acordaram em uno que o Mestre de Calatrava se fosse para o seu Mestrado e Dom Juan Alfonso para os seus castelos que tinha junto à Vera de Portugal (2), e que esperassem até ver como se punham estes feitos.

E ao outro dia partiu Dom Juan Alfonso do Ferradon e foi comer a uma aldeia de Ávila que dizem Sancto Domingo, e ali ordenou que todos os seus se fossem a caminho de Carvajales, que era sua e é em terra de Alva de Liste, salvo aqueles maiores que fossem com ele, que eram até duzentos em mulas. E ele tomou o caminho de Valladolid e viu aí nas Huelgas, que eram então fora da vila, a Rainha Dona Maria, mãe delRei Dom Pedro, e a Rainha Dona Blanca, sua mulher. Mas não entrou Dom Juan Alfonso em Valladolid, e logo partiu depois e se foi para Ampudia, e daí a Montalegre, a Castromonte e a Villalva do Alcor, lugares seus, e levou dali tesouros que lá tinha, e passou por Castrotorafe – que era da Ordem de Santiago, e tinha-a ele pelo Mestre (3) – e depois foi para Carvajales, e ali se juntaram com ele todas as outras companhas que iam por outras partes (4).

 

Nota 1. Na de mão, «do Templo». Z.

Nota 2. Em rigor, Trás-os-Montes. E. H.

Nota 3. Deu o Mestre Dom Fadrique esta vila e o castelo a Dom Juan Alfonso em Maio de 1351, pelos motivos que expressa a seguinte cédula delRei Dom Pedro. «Dom Pedro,» etc. «Pela razão que Eu enviei rogar por minha carta a vós, Dom Fadrique, Mestre da Cavalaria da Ordem de Santiago, e aos outros Freires da vossa Ordem que se ajuntaram convosco no Cuervo em Cabido Geral, no mês de Maio que agora passou da Era desta carta, que désseis a Dom Johan Alfonso de Alborquerque, meu Vassalo e meu Chanceler-mor, o vosso Castelo de Castro Torafe com a sua Vila e com o seu termo, para que o tivesse de vós em seus dias, vós, para cumprir o meu rogo, e outrossim pelas ajudas que o dito Dom Joan Alfonso fez e fará a vós e à vossa Ordem, tivestes por bem de lhe dar o dito Castelo. E sobre isto Dom Bernaldo, Comendador de Oreja, vosso Freire e vosso Procurador, pediu-me em mercê que vos mandasse assegurar e assegurasse que depois dos seus dias ficará à Ordem livre…Dada em Valladolid aos 4 dias de Julho, Era de 1389 anos». Com data de 7, outorgou o Mestre instrumento no qual declarava que tinha por bem que Dom Juan Alfonso tivesse de «nós e da nossa Ordem», para todos os dias de sua vida, «o nosso castelo de Castro Torafe», e Dom Juan Alfonso fez-lhe preito homenagem e jura por ele – Bulário de Santiago, páginas 318 e 319. E.

Nota 4. Na de mão, «e ali se juntaram com todas as outras companhas que iam pelas outras partes, e todos iam já roubando». E parece ter-se depois deixado isto que se acrescenta, para não condenar o seu levantamento. Z.

 

20. COMO FEZ ELREI DOM PEDRO DEPOIS QUE PARTIU DE VALLADOLID.

Agora tornaremos a contar (1) o que fez elRei Dom Pedro no outro dia depois que partiu de Valladolid. Assim foi que chegou à Puebla de Montalvan e achou aí Dona Maria de Padilla, pois ele havia enviado mandar que lá viesse desde o castelo de Montalvan, onde estava, que é a duas léguas dali.

E elRei chegou ao dito lugar da Puebla e esteve ali com Dona Maria de Padilla no dia em que chegou e no outro dia, e depois partiu elRei e veio-se para Toledo, trazendo consigo Dona Maria. E logo tirou os ofícios aos Cavaleiros a quem os haviam dado, no tempo em que Dom Juan Alfonso era seu privado, e deu-os a outros. E pousou elRei no Alcazar de Toledo.

 

Nota 1. Não está este capítulo na de mão. Z.

 

21. COMO ELREI TORNOU A VALLADOLID À RAINHA DONA BLANCA, SUA MULHER, E QUANTO TEMPO ESTEVE AÍ COM ELA.

ElRei Dom Pedro, desde que soube que Dom Juan Alfonso de Alburquerque e o Mestre de Calatrava Dom Juan Nuñez eram tornados, que não haviam ousado de ir a ele e que o Mestre era ido para a sua terra e Dom Juan Alfonso para a fronteira de Portugal, aos seus castelos que lá tinha, partiu logo de Toledo e acordou de se ir para Valladolid, onde estavam a Rainha Dona Maria, sua mãe, e a Rainha Dona Blanca, sua mulher, para que não houvesse escândalo no Reino. E deram-lhe este conselho os Cavaleiros que estavam com ele, que eram Gutier Ferrandez de Toledo (1), os parentes de Dona Maria de Padilla e Juan Tenorio, os quais eram privados seus.

E assim elRei partiu de Toledo e veio a Valladolid, e esteve com a Rainha Dona Blanca, sua mulher, dois dias, e não puderam acabar com ele que mais ali assossegasse, que logo partiu de Valladolid e foi a Mojados, uma aldeia cerca dali, e ao outro dia foi a Olmedo, e esteve lá alguns dias, e nunca mais viu a Rainha Dona Blanca, sua mulher.

E o Visconde de Narbona (2) e outros cavaleiros de França, que tinham vindo com a Rainha Dona Blanca, partiram-se logo dela, sem despedir-se delRei, e tornaram-se para França. E a Rainha Dona Maria, mãe delRei, tomou consigo a Rainha Dona Blanca, sua nora, e foi-se para Oterdesillas.

 

Nota 1. Alguns livros têm «Gutier Gomez de Toledo», de quem se faz muita menção nesta obra, porém, ao dizer que eram privados, tenho por mais verdadeira a lição da Abreviada e duma do Marquês de Santillana, que conformam com as impressas, que têm «Gutier Fernandez de Toledo», porque foi nestes tempos o mais nomeado dos que estavam no conselho delRei. Também se diz na Abreviada que interveio neste conselho Suer Perez de Quiñones. Z.

Nota 2. Desde «E o Visconde…» até ao fim do capítulo, não está na de mão. Z.

 

22. COMO ELREI PARTIU DE VALLADOLID E FOI A OLMEDO, E COMO VEIO AÍ DONA MARIA DE PADILLA, E DAS PREITESIAS QUE TRAZIA DOM JUAN ALFONSO DE ALBURQUERQUE COM ELREI.

Depois que elRei partiu de Valladolid foi-se para Olmedo, segundo dito havemos, e ali chegou Dona Maria de Padilla, a qual ele havia mandado buscar a Toledo, onde estava, ao Alcazar da dita cidade onde ele a deixara, e era ido por ela Don Juan de la Cerda.

E trouxe elRei então preitesias suas com Dom Juan Alfonso de Alburquerque que estava em Carvajales, em terra de Alva de Liste, e enviou a ele Juan Tenorio, seu Reposteiro-mor, e Suer Perez de Quiñones, que servia o trinchante diante delRei, e trataram com Dom Juan Alfonso que desse ao Rei em arreféns Dom Martin Gil, seu filho legítimo, que havia de Dona Isabel, sua mulher, filha de Dom Tello de Meneses – e não havia Dom Juan Alfonso outro filho legítimo – o qual filho Dom Juan Alfonso logo lhe enviou com Juan Tenorio e com Suer Perez de Quiñones, aqueles que elRei enviara a ele. E foi a preitesia nesta guisa, que Dom Juan Alfonso não faria guerra de suas fortalezas nem bulício nenhum no Reino, e que ficassem seguros todos os seus castelos e bens que tinha em Castela, e assim lho prometeu elRei, e que, se a vontade de Dom Juan Alfonso fosse de estar em Portugal, assim o fizesse.

 

23. COMO DOM JUAN ALFONSO ENVIOU O SEU FILHO, DOM MARTIN GIL, AO REI DOM PEDRO EM ARREFÉNS.

Assossegada esta preitesia entre elRei e Dom Juan Alfonso, segundo havemos já contado, enviou Dom Juan o seu filho Dom Martin Gil com Juan Tenorio e com Suer Perez de Quiñones, e enviou com ele Diego Alfonso, um outro seu filho, bastardo. Outrossim acordou de enviar ao Rei a Dom Alvar Perez de Castro, Juan Martinez de Rojas, filho de Rui Diaz Cencerro, Gutier Gomez de Toledo, Alvar Gonzalez Moran e Diego Gonzalez de Oviedo, filho do Mestre de Alcántara Dom Gonzalo Martinez.

E estes Cavaleiros enviava Dom Juan Alfonso para lhe contar toda a sua intenção, e em como a sua vontade foi sempre, e era agora, de guardar o seu serviço. E todos estes Cavaleiros que Dom Juan enviava eram Vassalos delRei, mas guardavam a Dom Juan Alfonso, como faziam outros Grandes e muitos bons do Reino, pela privança que Dom Juan Alfonso havia com elRei.

E estes Cavaleiros partiram-se de Dom Juan Alfonso em Carvajales e foram no primeiro dia a Zamora, ao outro dia a Toro, ao outro a Villalar e ao outro a Oterdesillas, e ali acharam as Rainhas Dona Maria e Dona Blanca. E, segundo as novas que lá acharam da Corte delRei, tiveram medo de ir adiante e tornaram-se dali Gutier Gomez de Toledo e Juan Martinez de Rojas. E o Juan Martinez de Rojas partiu daquela companhia e foi-se para a sua terra, e ali o prendeu Ferrand Perez Puertocarrero, que era Adiantado-mor de Castela, por mandado delRei, mas depois elRei mandou-o soltar. E Gutier Gomez de Toledo foi preso logo ao outro dia que se partiu de Dom Martin Gil em Oterdesillas, e levaram-no preso ao Rei, que estava em Olmedo, com uma cadeia deitada ao pescoço, todavia Dona Maria de Padilla ganhou-lhe o perdão delRei, a rogo de parentes seus que estavam na corte, e foi logo solto.

 

24. COMO DONA MARIA DE PADILLA ENVIOU RECADO A AVISAR DOM ALVAR PEREZ DE CASTRO E ALVAR GONZALEZ MORAN QUE NÃO FOSSEM AO REI.

Don Alvar Perez de Castro e Alvar Gonzalez Moran foram-se a caminho de Olmedo, onde elRei estava, e não saiu nenhum a eles salvo Dom Samuel o Levi, Tesoureiro-mor delRei, e este saiu a eles para os assegurar. Mas depois chegou a eles um Escudeiro, antes que entrassem na vila, e apartou a Dom Alvar Perez de Castro e a Alvar Gonzalez Moran e disse-lhes que lhes enviava dizer Dona Maria de Padilla, mui secretamente, que se pusessem a salvo, pois se entrassem na vila que eram mortos. E como isto ouviram Dom Alvar Perez de Castro e Alvar Gonzalez Moran subiram cada um em seu cavalo e volveram-se no caminho, e todos os seus com eles.

E isto lhes enviou (1) dizer Dona Maria de Padilla com bondade, porque não lhe prazia de muitas coisas que elRei fazia. E era assim verdade, que, mal os ditos Dom Alvar Perez de Castro e Alvar Gonzalez Moran chegassem ao Rei, logo haviam de ser mortos, segundo que elRei o dizia depois publicamente.

 

Nota 1. Não está na de mão desde «E isto lhes enviou…» até ao fim do capítulo. Z.

 

25. COMO ELREI MANDOU A JUAN ALFONSO DE BENAVIDES, JUSTIÇA-MOR DA SUA CASA, QUE FOSSE PRENDER DOM ALVAR PEREZ DE CASTRO E ALVAR GONZALEZ MORAN.

ElRei, desde que soube como Dom Alvar Perez de Castro e Alvar Gonzalez Moran eram tornados e não vinham a ele, mandou a Juan Alfonso de Benavides, seu Alguazil e justiça-mor da sua casa (1), que fosse em pós deles, os prendesse e lhos trouxesse presos. E Juan Alfonso de Benavides logo partiu de Olmedo e foi em pós deles para os prender, conforme elRei lho mandava.

E Dom Alvar Perez de Castro e Alvar Gonzalez Moran, depois que foram apercebidos e se tornaram, chegaram a Medina do Campo e acharam aí as Rainhas Dona Maria, mãe delRei, e Dona Blanca, sua mulher, que nesse dia lá tinham chegado, e contaram-lhes como iam fugindo delRei, e deu-lhes a Rainha mãe delRei a cada um o seu cavalo, e Alvar Gonzalez Moran tomou o caminho de Salamanca, e Alvar Perez de Castro tomou caminho de Castro Nuño.

E Juan Alfonso de Benavides, Alguazil-mor delRei, que ia em pós deles, seguiu o caminho de Castro Nuño, e tomou todos os homens em mulas e a pé e todas as azémolas que levava Dom Alvar Perez de Castro, mas logo soltou todos os homens, salvo as azémolas e o que levavam nelas. E Dom Alvar Perez chegou a Castro Nuño e achou aí o Prior de Sant Juan, que diziam Dom Ferrand Perez Daza (2), e rogou-lhe que lhe acorresse com um cavalo folgado, que levava mui cansado o que a Rainha Dona Maria lhe dera. E, estando Dom Alvar Perez de Castro falando com o Prior de Sant Juan, entrou Juan Alfonso de Benavides pela vila de Castro Nuño, e Dom Alvar Perez, quando o soube, acorreu-se ao cavalo em que havia vindo, o que lhe havia dado a Rainha Dona Maria, e saiu pela outra parte da vila, passou o Duero e tomou o caminho de Tiedra, um castelo de Dom Juan Alfonso de Alburquerque. E Juan Alfonso de Benavides e os que com ele iam catavam a vila de Castro Nuño, a ver se achariam Dom Alvar Perez de Castro, tendo que se haveria posto em alguma casa escondido, pois já sabiam que chegara ali.

E Dom Alvar Perez, desde que partiu de Castro Nuño, passou o Duero e foi por Morales, e não ia com ele senão Alfonso Gomez de Lira – um Cavaleiro de Galícia (3) que o guardava – numa mula. E depois que passou de Morales um terço de légua chegou aí Juan Alfonso de Benavides, que o seguia, e achou aí um Cavaleiro que diziam Alvar Rodriguez Osorio (4), e disse-lhe como ia por mandado delRei em pós de Dom Alvar Perez de Castro, e que ele e os seus levavam os cavalos tão cansados que o não podiam seguir, pela muita terra que haviam andado, e que lhe rogava que subisse num cavalo que Alvar Rodriguez trazia consigo e – com homens seus que iam com ele – que o alcançasse e o prendesse. E Alvar Rodriguez Osorio, já que isto lhe dizia Juan Alfonso de Benavides, que era Alguazil delRei, houve de ir em pós de Dom Alvar Perez de Castro, embora contra sua vontade, e alcançou-o cerca de Tiedra, um castelo de Dom Juan Alfonso de Alburquerque. E falou com Dom Alvar Perez, e disse-lhe e aconselhou-lhe que não se encerrasse de nenhuma maneira em Tiedra, senão que o tomariam, e mostrou-lhe um caminho que ia a Castrotorafe, onde estava Don Juan Alfonso. E Dom Alvar Perez de Castro fê-lo assim, segundo Alvar Rodriguez lhe aconselhou, e agradeceu-lho muito.

E Dom Alvar Perez chegou a Castrotorafe e achou ali Dom Juan Alfonso de Alburquerque, que tinha aí muitas companhas, e prouve-lhe muito a Dom Juan Alfonso, e ele contou-lhe tudo o que lhe havia acontecido e como escapara de ser morto. E desde que Dom Juan Alfonso entendeu qual era a vontade delRei, logo ao outro dia se tornou para Carvajales, e daí se foi para Portugal, que não se assegurou de estar ali por medo delRei, porque já os feitos se danavam mais a cada dia, e era já Dom Juan Alfonso mui arrependido porquanto enviara seu filho, Dom Martin Gil, em arreféns ao Rei.

 

Nota 1. Na de mão, «seu Alguazil-mor, que fosse». Z.

Nota 2. Um dos livros do Marquês de Santillana tem «Fernand Perez de Aza», a Abreviada, «de Cea», e em outros está «Deça»; mas não se deve mudar o das impressas, que têm «Daça», os quais foram mui antigos Cavaleiros. Z. «Daza» é o mesmo que «de Aza». E.

Nota 3. Num Manuscrito, «Leria», em outro, «Liria», e nos impressos em lugar de «Galícia» está «Castela». E.

Nota 4. Na Abreviada acrescenta-se «filho de Nuño Alvarez». Z. Na de P., «de Dom Nuño Alvarez Osorio». E.

 

26. COMO DOM ALVAR PEREZ DE CASTRO SE FOI PARA PORTUGAL.

Dom Alvar Perez de Castro (1), depois que viu que não podia estar seguro no Reino de Castela, pelo medo que havia delRei, foi-se a Portugal para o Infante Dom Pedro de Portugal, o qual foi depois Rei, que tinha então Dona Inês de Castro, sua irmã, da qual este Infante Dom Pedro, depois que foi Rei de Portugal, disse que era casado com ela, e chamaram-na a Rainha Dona Inês e jaz enterrada com o dito Rei Dom Pedro de Portugal no Mosteiro de Alcobaça. E dela teve o dito elRei Dom Pedro por filhos o Infante Dom Juan, o Infante Dom Donis e a Infanta Dona Beatriz, que casou com o Conde Dom Sancho, irmão delRei Dom Enrique de Castela, dos quais diremos em seu lugar. E o dito Infante Dom Pedro de Portugal recebeu mui bem o dito Dom Alvar Perez de Castro e fez-lhe mui bem, muitas mercês e deu-lhe terras no Reino de Portugal, e ele ali fez a sua vida.

 

Nota 1. Na de mão, «E Dom Alvar Perez de Castro foi-se para o Infante Dom Pedro de Portugal, que tinha a Dona Inês de Castro, sua irmã, a qual depois houve por Rainha, e teve dela o dito Infante Dom Pedro o Infante Dom Juan, o Infante Dom Donis e a Infanta Dona Beatriz, que casou com o Conde Dom Sancho, irmão delRei Dom Enrique de Castela. E o dito Infante de Portugal recebeu-o mui bem», etc. Z.

 

27. COMO O MESTRE DE SANTIAGO DOM FADRIQUE VEIO AO REI A CUELLAR.

Dom Fadrique, Mestre de Santiago, irmão delRei Dom Pedro, filho delRei Dom Alfonso e de Dona Leonor de Guzman, chegou à vila de Cuellar, onde elRei estava (1), e elRei recebeu-o mui bem, e não havia visto o Mestre elRei depois que havemos contado que viera a ele em Llerena, logo que elRei reinou, quando levaram presa a Talavera Dona Leonor de Guzman, sua mãe. E, estando o Mestre com elRei em Cuellar (2), tiraram a Encomenda-mor de Castela a Dom Rui Chacon (3) e deram-na então a Juan Garcia de Villagera, irmão de Dona Maria de Padilla, de ganhança, porquanto o Mestre Dom Fadrique esse caminho pôs em suas amizades – com a dita Dona Maria de Padilla, com Juan Ferrandez de Henestrosa, seu tio, e com Diego Garcia de Padilla, seu irmão – para fazer prazer ao Rei.

 

Nota 1. Na Abreviada acrescenta-se, mui particularmente, a ida de Dom Pedro de Exerica a Cuellar, o que não está nas impressas nem nos originais da vulgar, e diz-se assim: «ElRei Dom Pedro partiu de Olmedo e veio para Cuellar, e ali veio a ele Dom Pedro de Xerica, um grande Senhor do Reino de Aragão e da Casa Real, a ver elRei e a fazer-lhe reverência, e trouxe-lhe muitos presentes de Falcões, porquanto elRei Dom Pedro era mui caçador de Aves. E outrossim lhe trouxe o dito Dom Pedro de Xerica – ao Rei – muitos arneses de justar, e outras jóias. E elRei o recebeu mui bem e lhe fez muita honra, e deu-lhe de suas jóias e de seus cavalos, e justaram ali os seus, e elRei pôs-lhe dinheiros que tivesse dele a cada ano o dito Dom Pedro, e este ficou por seu e foi-se para a sua terra. E ali houve elRei novas de como o Infante Dom Fernando, seu primo, filho delRei de Aragão, era posto em seu casamento com a Infanta Dona Maria, sua prima, neta delRei Dom Alfonso de Portugal, e prouve disso ao Rei. E tiraram então, estando aí o Mestre Dom Fadrique, a Encomenda-mor de Castela a Dom Ruy Chacon…». Z.

Nota 2. A 29 de Julho deste ano achava-se elRei em Cuellar, onde deu Despacho para que vários povos do Bispado de Segóvia não pagassem azémolas e fossadeira. Colmenares, p. 276. E. No capítulo 2 do Ano II disse-se que «o Mestre ficou assegurado na mercê delRei», e que este «mandou-lhe que se fosse para a sua terra e deu-lhe licença que não fosse às Cortes que se haviam de fazer em Valladolid». Com efeito não assistiu a elas, e vê-se por uma Cédula Real que se copiou no capítulo 19 do Ano IV que foi seu procurador Dom Bernaldo, Comendador de Oreja. Tampouco se achou na expedição contra Dom Alonso Fernandez Coronel, nem assistiu às bodas delRei, em Valladolid, nem interveio nos lances que houve antes e depois delas. Não se pôde averiguar os lugares em que esteve desde Março de 1351 até finais de Fevereiro de 1353, mas ao que parece é de supor que residiu no seu Mestrado, pois estava então na obediência delRei, que lhe mandara que se fosse para a sua terra e lhe deu licença para não ir às Cortes. No dia 4 de Março desse ano achava-se em Fuente de Cantos, onde concedeu a vários lugares da Mancha privilégio para que pudessem formar Ajuntamento de comum – Chaves, Apuntamiento, fol. 50 (na edição digital, p. 103). A 19 do mesmo estava em Usagre, onde, com outorgamento de Dom Rui Chacon, Comendador-mor, e de outros Comendadores e Cavaleiros, confirmou as suas devesas à Puebla de Sancho Perez. E a 1 de Abril achava-se na Fuente do Maestre, com vários Comendadores, e conferiu a Fernan Ruiz de Tauste a Encomenda-mor de Montalvan, em Aragão. Neste tempo celebravam-se as bodas delRei, e dado que não assistiu a elas, tampouco terá acompanhado a Rainha Dona Blanca na sua viagem, como quiseram supor os que depois não tiveram escrúpulos em divulgar calúnias contra o honor desta infeliz Princesa, uns para desculpar os modos com que a tratou elRei, seu marido, e outros para dar mais alta origem à sua família. E.

Nota 3. Este Cavaleiro uniu-se depois com os inimigos do Mestre Dom Fadrique, procurando a dissensão entre ele e elRei Dom Pedro, por cujo motivo o Mestre, acompanhado de Sancho Sanchez, Comendador de Uclés, e de outros Cavaleiros, o seguiu de arma na mão até à vila de Consuegra e, havendo-o tirado duma Igreja onde se refugiou, ali o fez degolar. O Mestre recorreu ao Papa, pedindo absolvição para si e os seus cúmplices, e concedeu-lha o Vice-Penitenciario Apostólico, por Letras dadas em Aviñon a 13 de Agosto de 1356 – Bulário de Santiago (p. 333). E.

 

28. COMO CASOU DOM TELLO EM SEGÓVIA COM DONA JUANA DE LARA, E COMO MANDOU ELREI QUE À RAINHA DONA BLANCA, SUA MULHER, A LEVASSEM A ARÉVALO, E COMO SE MUDARAM ALGUNS OFÍCIOS NA CASA DELREI.

ElRei Dom Pedro partiu de Cuellar e foi-se para Segóvia, e ali fez fazer bodas a Dom Tello, seu irmão, com Dona Juana de Lara, Senhora de Vizcaya – filha de Dom Juan Nuñez de Lara e de Dona Maria, sua mulher – com quem o dito Dom Tello fora desposado em vida delRei Dom Alfonso, seu pai, e logo partiu Dom Tello (1) de Segóvia com Dona Joana, sua mulher, e foi tomar o Senhorio de Vizcaya. E este casamento foi feito pelos parentes de Dona Maria de Padilla a fim de cobrar Dom Tello para a sua parte, e o Conde Dom Enrique e o Mestre Dom Fadrique, seus irmãos, que queriam mal a Dom Juan Alfonso de Alburquerque.

Outrossim enviou mandar elRei que a Rainha Dona Blanca, sua mulher, que estava em Medina do Campo, fosse para Arévalo, e que ali estivesse em guisa que a Rainha Dona Maria, sua mãe, não a visse, nem outros viessem a ela, pois a enviava já como que a modos de presa, e iam com ela por guardas Dom Pero Gomez Gudiel, natural de Toledo, Bispo de Segóvia, Tel Gonzalez Palomeque, um Cavaleiro de Toledo, e Juan Manso de Valladolid, que eram oficiais da casa da Rainha, e um outro, Escudeiro Asturiano, que diziam Suer Gutierrez de Navales, criado de Ferrand Perez Puertocarrero, que servia a escudela da Rainha por ele.

Outrossim ordenou elRei os ofícios de sua casa nesta guisa, deu a sua câmara, que tinha Gutier Ferrandez de Toledo, a Diego Garcia de Padilla, irmão de Dona Maria, e tirou a copa a Juan Rodriguez de Biedma, sobrinho do dito Gutier Ferrandez, e deu-a a Alvar Garcia de Albornoz, e a escudela, que tinha Gutier Gomez de Toledo, deu-a a Pero Gonzalez de Mendoza. E assim se mudaram outros ofícios tanto em sua casa como no Reino, em guisa que nenhum que ofício houve por ajuda de Dom Juan Alfonso de Alburquerque ficou nele.

 

Nota 1. Não está na de mão desde «e logo partiu Dom Tello» até «que servia a escudela da Rainha por ele». Z.

 

29. COMO ELREI FOI À ANDALUCIA E SE ORDENARAM OS OFÍCIOS DO REINO.

Depois disto partiu elRei Dom Pedro de Segóvia e foi-se para Sevilla (1), e ali se mudaram todos os outros ofícios do Reino, porquanto os tinham homens a quem Dom Juan Alfonso os dera com o poder delRei, e deram-nos àqueles que quiseram os parentes de Dona Maria de Padilla, que já estavam mui apoderados no Reino e tudo o que eles faziam havia elRei por bem feito, e estes eram Juan Ferrandez de Henestrosa, tio da dita Dona Maria, irmão de sua mãe, e Diego Garcia de Padilla, irmão de Dona Maria.

E deu elRei o Alguazilado maior de Sevilla a Dom Juan de la Cerda, filho de Dom Luis, e o Adiantamento de Castela deu-o a Ferrand Perez Puertocarrero, e tinha-o Dom Garci Ferrandez Manrique, e tiraram-lho porquanto era casado com Dona Teresa (2), sobrinha de Gutier Ferrandez de Toledo. E isto foi porquanto o Arcebispo de Toledo, Dom Vasco, e todos estes queriam bem a Dom Juan Alfonso de Alburquerque. E então o Conde Dom Enrique era aliado e avindo com os parentes de Dona Maria de Padilla, e também o Mestre Dom Fadrique e Dom Tello, seus irmãos, e o Mestre de Alcántara Dom Ferrand Perez Ponce, seu parente, e outros. E tornou elRei ao dito Mestre de Alcántara os castelos de Moron, Cote e outros castelos da Ordem de Alcántara, os quais tomara logo que reinou, segundo dito havemos, por não se fiar dele dado que era parente de Dona Leonor de Guzman, e tornou-lhos então elRei – ao dito Mestre – e elRei mesmo foi a lhos entregar, e isto era no mês de Novembro deste dito ano.

E este ano houve em Sevilla mui grandes crescimentos do rio Guadalquivir, em guisa que cerraram e calafetaram as portas da cidade e houveram mui grande medo de que a cidade seria em grande perigo (3).

 

Nota 1. Estava naquela cidade a 30 de Novembro, e a 2 de Dezembro mandou que o arrendamento das Penas e Calonhas se desfizesse em todo o Reino, deixando às cidades o encargo da sua cobrança – Instrumentos que se citam no Informe de Toledo sobre Pesos e Medidas, a págs. 104 e 105. E.

Nota 2. Os impressos dizem «casado com uma filha de Gutier Ferrandez…». E.

Nota 3. Reinaldo, Anais, tomo 25, p. 576, ano 1354, número 23, refere um facto de que o Cronista não fez menção e que corresponde ao tempo em que elRei esteve em Sevilla. Diz que enquanto Dom Alonso o XI estava sobre Gibraltar, tratou com este Abdalla, Rei dos Montesclaros, acerca de abraçar a Religião Cristã; que morto Dom Alonso e permanecendo Abdalla em seu desígnio, enviou ao Rei Dom Pedro Embaixadores e um filho, em arreféns, pedindo-lhe que para levar isto a efeito o auxiliasse com as suas armas; que Dom Pedro prometeu fazê-lo e enviou ao Papa Innocencio VI as cartas de Abdalla por Diego Garcia, Prebendado de Sevilla, pedindo-lhe subsídio, o estandarte da Igreja e indulgência para esta expedição; que o Papa louvou o desígnio e ofereceu favorecê-lo; porém que Dom Pedro, olvidando as suas promessas, ocupou-se em dissensões intestinas. Copia um Breve que o Papa dirigiu a Abdalla com data de 25 de Março de 1354, exortando-o a permanecer no seu propósito (número 24, p. 577). E.