Apontamentos sobre a Campanha de Galípoli - Parte I

A Campanha de Galípoli (1)

A Campanha de Galípoli, que os Britânicos chamam Gallipoli Campaign e os Franceses preferem Bataille des Dardanelles, ocorreu, como estas designações indicam, no Estreito de Dardanelos e nos territórios a norte, a Península de Galípoli, e a Sul, a Anatólia ou Ásia Menor (Ver Mapa a seguir indicado). A Campanha foi lançada pelo Reino Unido, com o apoio da França, contra o Império Otomano que entrou na guerra como aliado da Alemanha. As operações navais e terrestres ocorreram entre 19 de fevereiro de 1915 e 9 de janeiro de 1916 e terminaram com a retirada das forças invasoras, britânicas e francesas, que admitiram o fracasso da campanha. Os Aliados tinham como objetivo colocar a Turquia (Império Otomano) fora da guerra e abrir a passagem pelo Estreito de Dardanelos, Mar de Mármara e Estreito do Bósforo, controlados pela Turquia, para restabelecer a linha de comunicações com a Rússia, uma das potências da Tríplice Entente.

[Ver mapa da Península de Galípoli em https://collections.leventhalmap.org/search/commonwealth:4m90fm99x, visto em 2025.11.23]

O Estreito de Dardanelos e a Península de Galípoli

O percurso entre o Mar Egeu e o Mar Negro é feito pelo Estreito de Dardanelos, seguindo-se o Mar de Mármara e o Estreito do Bósforo. A margem norte dos estreitos e do Mar de Mármara é europeia e a margem sul é asiática. A norte do Estreito de Dardanelos fica a Península de Galípoli. A norte do Mar de Mármara e do Estreito do Bósforo fica a região europeia que conhecemos a Trácia Oriental. A Península de Galípoli é uma península na Trácia Oriental. É na entrada do Estreito do Bósforo, no extremo oriental do Mar de Mármara, que se situava a capital da Turquia, Constantinopla. Era na região de Constantinopla que se encontrava grande parte das infraestruturas industriais da Turquia. O Estreito de Dardanelos é um dos estreitos mais apertados utilizados pela navegação internacional. Tem 61 km de comprimento, a sua largura varia entre 1,2 e 6 km e tem uma profundidade média de 55 metros. 

A Península de Galípoli é uma faixa de terra com uma largura que varia entre os 6,5 e os 18 km e um comprimento de aproximadamente 83 km. O solo é árido e rochoso, com colinas e planaltos, cortado por ravinas íngremes; a sua cobertura vegetal, típica do clima mediterrâneo, é composta predominantemente por plantas baixas e arbustos. As suas margens são rochosas e íngremes, com falésias abruptas. Esta topografia não apresenta muitas praias para desembarcar tropas — as que existem são normalmente estreitas em profundidade e em largura — e dificulta o avanço para o interior.

 

A importância do Estreito de Dardanelos

O Estreito de Dardanelos é parte da ligação do Mar Egeu — portanto, do Mediterrâneo — com o Mar Negro, o que o torna muito importante para as potências da região e, no caso em questão, para a ligação entre a Rússia e os seus aliados ocidentais, a França e o Reino Unido. Para a Rússia, o controlo dos Estreitos foi, desde cedo, uma questão fundamental e esteve perto de o conseguir na a Guerra Russo-Turca de 1877-1878 que terminou com o Tratado de San Stefano (3 março 1878), posteriormente substituído pelo Tratado de Berlim (13 julho 1878). O domínio destes estreitos foi, ao longo dos anos, o motivo de ações diplomáticas e militares por parte da Rússia que pretendia garantir a navegação em segurança dos seus navios, mercantes ou de guerra, entre o Mar Negro, onde se situavam os seus portos de águas quentes (utilizáveis no inverno) e o Mar Mediterrâneo por onde tinha acesso ao Oceano Atlântico e, desde 1869, ao Canal de Suez. Entre as Guerras Napoleónicas e a Primeira Guerra Mundial, e depois desta, o tráfego marítimo nos Estreitos era regulado pelo Tratado de Hünkâr İskelesi (8 julho 1833), assinado entre o Império Otomano e a Rússia, e, pela Convenção de Londres (13 julho 1841), estabelecida entre as grandes potências europeias - Rússia, Reino Unido, França, Áustria e Prússia, mas não pelo Império Otomano.

Quando começou a Primeira Guerra Mundial, a Rússia estava ligada à França por um tratado de aliança (1892) e ao Reino Unido por uma convenção, a “Entente” anglo-russa (1907). Estas três potências formavam um bloco que ficou conhecido como “Entente Cordiale”. A convenção de 1907 não continha disposições relativas a apoio militar entre a Rússia e o Reino Unido, nem era esse o seu objetivo, mas o tratado de 1892, entre a Rússia e a França, estipulava as ações militares a serem desenvolvidas em caso de guerra com a Alemanha. Era, pois, natural que fosse estabelecida uma linha de comunicação marítima entre a Rússia e os seus aliados ocidentais. Esta linha deveria permitir à Rússia receber os apoios necessários para se manter no conflito e por outro lado, escoar os seus produtos, especialmente os cereais, para o ocidente. A linha de comunicações que podia funcionar todo o ano, longe do controlo alemão, era a via marítima entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo.

A Convenção de Londres de 13 de julho de 1841, resultou de um consenso entre as principais potências europeias: Reino Unido, França, Prússia, Áustria e Rússia. Não houve participação do governo turco na Convenção de Londres, apesar do texto da Convenção impor obrigações àquele governo [GASSET, «1841: Segunda Convenção Londrina sobre Império Otomano»]:

«Artigo 1º: Sua Alteza o Sultão declara de sua parte que está firmemente decidido a manter no futuro o princípio básico fixo e imutável como velha regra do seu império, por força do qual é proibida em qualquer época aos navios de guerra das potências estrangeiras o cruzamento dos estreitos marítimos de Dardanelos e do Bósforo, e enquanto o governo turco se encontrar em paz, Sua Alteza não permitirá a entrada de nenhum navio de guerra estrangeiro nos citados estreitos marítimos […].»

A Convenção de Londres de 13 de julho de 1841 [ANDERSON, 1978, p. 106; GESSAT, Rachel, «1841: Segunda Convenção Londrina sobre Império Otomano»; «Straits Convention» in Encyclopedia of the Modern Middle East and North Africa] estabeleceu duas regras que se mantiveram em vigor até 1936:

  • Restabelecia o controle otomano sobre os estreitos;
  • Em tempo de paz, era proibida a entrada nos Estreitos de navios de guerra estrangeiros; em tempo de guerra, era permitia a entrada de navios de guerra de potências aliadas do Império Otomano.

De acordo com a Convenção de 1841, a Rússia perdeu a posição preferencial estabelecida pelo Tratado de Unkiar Iskelesi (1833), que obrigava a Turquia a fechar os estreitos a pedido da Rússia e também previa a sua defesa conjunta pela Turquia e pela Rússia; as Potências Ocidentais não poderiam levar os seus navios de guerra ao Mar Negro, a menos que fossem aliadas da Turquia, o que sucedeu na Guerra da Crimeia (1853-1856), mas os navios de guerra russos não poderiam sair do Mar Negro para o Mediterrâneo. Após a conclusão do Canal de Suez (1869), esta cláusula teve especial significado para os britânicos na proteção da rota para a Índia. A Convenção de Londres de 1841 foi substituída pela Convenção de Montreux relativa ao Status dos Estreitos, de 1936, que continua em vigor.

A capital turca (do Império Otomano), Constantinopla, situava-se no extremo oriental do Mar de Mármara, na entrada do Estreito do Bósforo. Era na região de Constantinopla que se encontrava grande parte das infraestruturas industriais da Turquia. Dominado o Estreito de Dardanelos, a capital turca ficava à mercê dos navios de guerra do Reino Unido, da França e, eventualmente, da Rússia. Assim, ao concretizar-se esta ameaça sobre Constantinopla, a Turquia ficaria fora da guerra. Neste caso, a Turquia deixaria de ser uma ameaça para as potências balcânicas, como era o caso da Grécia e da Bulgária, facilitando a possibilidade de entrada destas potências na guerra, ao lado dos Aliados. Por outro lado, ficava aberta a passagem marítima entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Negro, ou seja, entre as potências da “Entente” e a Rússia.

 

A situação na Frente Ocidental

Quando começou a Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, a Alemanha pôs em prática o seu plano que ficou conhecido como Plano Schlieffen. Este plano previa, na Frente Ocidental, derrotar a França e as forças britânicas que eventualmente fossem enviadas para o Continente, em poucas semanas. Conseguida a vitória na Frente Ocidental, contra a França e seus aliados, muitas das forças alemãs podiam ser enviadas para a Frente Oriental, seguindo-se a derrota da Rússia. A realidade é que o plano fracassou, as forças francesas e britânicas conseguiram deter os exércitos alemães e nenhuma das partes conseguiu obter sucesso nas sucessivas tentativas de manobras de envolvimento e agarraram-se ao terreno construindo trincheiras. No final do ano de 1914, a Frente Ocidental estava definida por uma longa linha de trincheiras, na Bélgica (Flandres) e na França, entre o Mar do Norte e a fronteira com a Suíça.

Este dispositivo, em que as trincheiras das forças adversárias mantinham em alguns locais uma proximidade de poucas dezenas de metros, impedia qualquer tipo de manobra. Rapidamente se concluiu que a guerra ia ser longa e exigir um esforço enorme não só dos militares, mas de toda a nação dos países envolvidos. Era a Guerra Total: «nações e não exércitos travam as guerras.» [EVANS & NEWNHAM, 1998, «Total war», p. 536] O número de baixas era elevadíssimo. Não sendo possível uma manobra de envolvimento, porque um extremo do sistema de trincheiras estava na costa do Mar do Norte e o outro extremo tocava a fronteira de um país neutral, a Suíça, os ataques teriam de ser sempre ataques frontais, apoiados por um volume nunca experimentado de fogo de artilharia. As indústrias demoraram a responder a estas necessidades. A perspetiva de uma guerra de desgaste era cada vez mais constante.

Perante esta situação, foram discutidos dois conceitos sobre a estratégia a adotar para a continuação da guerra. Os defensores destes dois conceitos ficaram conhecidos, na língua inglesa, por Westerners e Easterners [PAYNE, The Battle of the Allies’ Western Fronters Versus the Eastern Fronters] ou por duas escolas de pensamento: a escola continental e a escola marítima [EVANS, abril 2000, p.8]. Os primeiros defendiam que a guerra seria decidida na Europa, contra a Alemanha, na Frente Ocidental. Após ter sido formada a longa linha de trincheiras que impedia a manobra de envolvimento, começaram a acreditar que a vitória sobre a Alemanha poderia ser alcançada por uma guerra de atrito, como vieram a ser as batalhas de Verdun ou do Somme. Generais como Sir John French ou Douglas Haig foram defensores dessa abordagem.

Os Easterners defendiam que a Alemanha poderia ser enfraquecida atacando os seus aliados nos outros teatros de operações, como na Itália, nos Balcãs ou no Médio Oriente. Acreditavam que desta forma poderiam evitar a guerra de atrito na Frente Ocidental e obter uma vitória mais rápida e com menos custos. Um dos primeiros defensores desta abordagem estratégica foi Winston Churchill. Também em França existiam defensores desta estratégia. Eram os casos, entre outros, dos generais Maurice Sarrail e Louis Franchet d'Espèrey. Foram os Easterners, em especial Winston Churchill, então First Lord of the Admiralty que defenderam o ataque à Turquia, aliada da Alemanha. Esta foi a estratégia escolhida, mas com muita relutância por parte do Field Marshal Horatio Herbert Kitchener (1850-1916), Secretary of State of War do governo britânico.

 

O apoio da Grécia

O apoio da Grécia podia oferecer importantes vantagens logísticas, militares e políticas para a Campanha de Galípoli. A sua posição geográfica próxima ao campo de batalha, combinada com a possibilidade de envolver mais forças contra o Império Otomano, fazia da Grécia um aliado altamente desejável. O apoio grego permitiria usar portos e bases navais gregas, como os de Salónica (Tessalónica) ou ilhas próximas, para preparar e apoiar a ofensiva. Apesar do apoio grego não se ter concretizado, o governo grego cedeu aos britânicos a ilha de Lemnos, para constituírem uma base para as operações. Por outro lado, a Grécia possuía um exército e uma marinha relativamente desenvolvidos e já com experiência de combate recente nas Guerras dos Balcãs (1912–1913). A sua participação seria um reforço importante das forças aliadas. Por vários motivos, o único apoio concretizado foi a cedência da ilha de Lemnos.

A Grécia era, em 1914, uma monarquia constitucional em que o poder executivo pertencia ao rei que governava por meio de ministros escolhidos por si, mas que respondiam perante o parlamento. Os partidos políticos baseavam-se fundamentalmente nas figuras dos líderes, mais do que em algum programa político, criando um sistema instável em que os governos se mantinham por pouco tempo. Constantino I (1868-1923) era o Rei da Grécia desde 18 de março de 1913. O seu pai, Jorge I (1845-1913), era filho de Cristiano IX (1818-1906) da Dinamarca e da rainha Louise of Hesse-Kassel (1817-1898), de origem alemã. Constantino I foi o primeiro herdeiro da Coroa grega a nascer em solo grego.  Formou-se em 1882 na Academia Militar Helénica e foi enviado para Berlim para completar a sua formação militar. Prestou serviço na Guarda Imperial Alemã. Em 1889 casou-se com a Princesa Sofia da Prússia (1870-1932), irmã de Guilherme II da Alemanha.

Entre 6 de outubro de 1910 e 25 de fevereiro de 1915, e por vários outros períodos, alguns de apenas algumas semanas (10 de agosto a 24 de setembro de 1915, por exemplo), foi primeiro-ministro da Grécia Elefthérios Kyriákou Venizélos (1864-1936). No seu primeiro mandato como primeiro-ministro, Venizelos reorganizou as forças armadas com a ajuda das missões militares do Reino Unido e da França. Durante as Guerras Balcânicas (1912-1913), a Grécia aumentou o seu território. Venizelos mantinha um relacionamento difícil com o Rei Constantino I. Enquanto este demonstrava simpatia pela causa alemã, Venizelos pretendia colocar a Grécia ao lado das Potências da Entente.

A Grécia e a Turquia mantêm um contencioso antigo e que ainda não está resolvido. Creta e Chipre, por exemplo, ficaram em mãos turcas após a independência da Grécia. A questão de Creta deu origem à Guerra Greco-Turca de 1897, que deu origem a um Estado autónomo cretense sob a suserania otomana (Estado de Creta). Só em 1908 a Grécia voltou a controlar a ilha. Atualmente, Chipre continua a ser uma ilha dividida entre gregos e turcos. Outras ilhas, algumas muito próximas da Anatólia, continuam a ser disputadas entre a Grécia e a Turquia. É o caso, entre outras, de Samos, Lesbos ou Rodes.

[Ver mapa - As fronteiras na Turquia europeia, Grécia e Bulgária, no início da guerra. Imagem em https://es.wikipedia.org/wiki/Grecia_durante_la_Primera_Guerra_Mundial#/media/Archivo:FronterasBalc%C3%A1nicas1913.svg, visto em 2025.11.29]

No início da guerra, Constantino I estava inclinado a manter a neutralidade da Grécia. No dia 4 de agosto de 1914, a Alemanha convidou a Grécia para se juntar às Potências Centrais, mas Constantino recusou e explicou ao seu cunhado, Guilherme II, que «o Mediterrâneo está à mercê das frotas unidas da Inglaterra e da França» pelo que «a navegação grega, as ilhas gregas e os portos gregos enfrentariam a aniquilação». Ficavam duas opções: entrar na guerra ao lado das Potências da Entente ou manter a neutralidade [BEATON, 2020, p. 201.]. A 23 de agosto de 1914, «Venizelos anunciou que embora o lugar da Grécia fosse com os Aliados, considerações de ordem militar impossibilitavam a sua participação, a menos que a Turquia se envolvesse na guerra. Contra os protestos de Venizelos, Constantino declarou que a neutralidade da Grécia só terminaria no caso de um ataque turco.» [HAYTHORNTHWAITE, 1998, p. 238]

«Comprometer-se com um dos lados tornaria o povo grego refém de forças e acontecimentos que nunca estaria em posição de controlar. Porquê arriscar tudo o que tinha sido conseguido em quase um século, por promessas que dependiam do resultado de um conflito incerto» e que, por isso, poderiam nunca serem cumpridas? [BEATON, 2020, p. 203] Este era o raciocínio de Constantino I e daqueles que o apoiavam. Por outro lado, Venizelos ambicionava unir todos os povos de origem grega. Em 1912, em Londres, David Lloyd George e Winston Churchill apresentaram a Venizelos, no âmbito das Guerras Balcânicas, a possibilidade de a Grécia obter alguns ganhos na Anatólia, no mínimo um enclave que incluía a cidade de Esmirna, cidade que, segundo Heródoto, terá sido estabelecida pelos gregos e se tornou um importante centro cultural e comerciais. Em 1914, Esmirna tinha a maior concentração de gregos de qualquer cidade do mundo [BEATON, 2020, p. 202.].

No início de 1915, Venizelos concordou em apoiar militarmente os Aliados, tanto no reforço das forças sérvias como na participação num ataque aos Dardanelos, mas o rei Constantino opôs-se a estas ações e, a 6 de março, exigiu a demissão do seu Primeiro-Ministro. O que estava em causa não era uma luta pessoal entre Constantino I e Venizelos, mas o confronto de ideias que determinariam caminhos diferentes a serem seguidos pela Grécia no cenário da Primeira Guerra Mundial.

 

A situação na Turquia

O Império Otomano estava enfraquecido, o que não era uma situação recente. O Czar Nicolau I (1796-1855) da Rússia referiu-se ao Império Otomano como «o homem doente da Europa.» Já no século XX, em 1911, a Turquia (a metrópole do Império Otomano) perdera a Tripolitânia (região da Líbia) bem como Rodes e outras ilhas para os Italianos. Com as Guerras Balcânicas (1912 e 1913), os territórios turcos na Europa ficaram reduzidos aproximadamente à dimensão atual. O Egito, oficialmente uma província do Império, estava ocupado pelos Britânicos.

A Rússia era a principal ameaça para os Turcos. A ambição russa sobre os Estreitos do Bósforo e de Dardanelos — e, portanto, sobre Constantinopla — mantinha-se atual. O acesso ao mar por parte da Rússia, sem os constrangimentos do gelo no inverno, era feito a partir dos portos do Mar Negro, o que implicava que os seus navios chegariam ao Mediterrâneo através dos Estreitos dominados pela Turquia. Para o Governo otomano, formado pelos “Jovens Turcos” que tomaram o poder em 1909, o Império estava ameaçado pela Rússia, que procurava obter a passagem dos seus navios, sem restrições, nos Estreitos do Bósforo e de Dardanelos. Enfraquecido, o Império Otomano não podia enfrentar sozinho o Império Russo e, por essa razão, necessitava de aliados.

O Império Otomano tinha boas relações com as potências europeias, mas não poderia, certamente, contar com o apoio de todas as Grandes Potências. A França era aliada da Rússia desde 1892. A ligação do Reino Unido à Rússia assentava apenas numa "entente". A presença dos navios britânicos no Mediterrâneo Oriental era forte e visava a defesa do Canal de Suez. A Turquia contava com o apoio da Missão Naval Britânica desde 1867. No entanto, a tentativa por parte do Governo Otomano em garantir o apoio britânico no caso de conflito com a Rússia, não foi correspondida por Londres e, em 1909, a Missão Militar Britânica foi oficialmente encerrada.

Entre as Grandes Potências com capacidade para apoiarem militarmente o Império Otomano, restava a Alemanha. Se a Grã-Bretanha apoiou o Império Otomano na organização da sua marinha de guerra e na formação dos seus oficiais, a Alemanha teve um papel importante na organização e equipamento do exército e formação dos seus recursos humanos. O apoio direto alemão começou em 1882 com o fornecimento de armamento e consultoria em logística. No ano seguinte foi estabelecida a Missão Militar Alemã, chefiada pelo Coronel Colmar von der Goltz (1843-1916) que ali permaneceu até 1895. Quando a Turquia entrou na guerra, em 1914, o chefe da Missão Militar Alemã era o General Otto Liman von Sanders (1855-1929) que assumiu o comando do Quinto Exército otomano na defesa da Península de Galípoli. Outras personalidades, como o embaixador alemão em Constantinopla, Hans Freiherr von Wangenheim (1859-1915), tiveram grande influência na aproximação política e militar entre a Alemanha e o Império Otomano.

 

O General Otto Liman von Sanders

A cooperação entre o Império Otomano e a Alemanha tinha antecedentes que remontavam ao século XVIII (neste caso, ainda com a Prússia). Após as Guerras Napoleónicas, seguiram-se épocas de cooperação mais intensa, como foi o caso das missões do Capitão Helmuth Karl Bernhard von Moltke (1800-1891) entre 1836 e 1839 e, mais tarde, o General Wilhelm Leopold Colmar Freiherr von der Goltz (1843-1916) entre 1883 e 1887 e novamente entre 1909 e 1913. Após a derrota sofrida pela Turquia na Guerra Balcânica de 1912, o Grão-Vizir Mahmud Sefket Pachá (1856-1913) decidiu solicitar mais assistência militar alemã para reorganizar as suas forças [IREDALE, «Role of German Officers in the Gallipoli Campaign»].

Em dezembro de 1913, o General Otto Liman von Sanders (1855-1929), oriundo da arma de Cavalaria, foi nomeado para liderar a Missão Militar Alemã na Turquia. A 2 de agosto de 1914, a Missão Alemã compreendia setenta e um oficiais de todas as armas. Esta missão tinha a tarefa de reconstruir o Exército Turco. Além das suas funções especificamente militares, Liman von Sanders trabalhou no sentido de influenciar o governo turco a estabelecer uma aliança militar com as Potências Centrais.

Em janeiro de 1914, Liman von Sanders foi nomeado Inspetor Geral do Exército turco e, em agosto desse ano, recebeu o comando do Primeiro Exército turco. A 24 de março de 1915, foi nomeado comandante do recém-criado Quinto Exército turco, com o qual defendeu a Península de Galípoli.

 

O Goeben e o Breslau

Em 1909, o Governo otomano tinha começado a fazer planos para a aquisição de navios de guerra no estrangeiro para que a sua Marinha de Guerra não se deixasse ultrapassar de forma significativa pela Marinha Grega. Os primeiros navios foram comprados à Alemanha e eram antigos, mas esta era uma aquisição provisória e, em 1911, foram encomendados dois navios aos estaleiros britânicos Vickers. No entanto, perante a iminência de um conflito, Winston Churchill, Primeiro Lorde do Almirantado, ordenou, a 29 de julho de 1914, que as guarnições turas, já na Grã-Bretanha, fossem impedidas de subirem a bordo dos navios. No dia 31 de julho, os navios foram oficialmente confiscados pelo Governo britânico. O Reino Unido ainda não se encontrava em guerra, pelo que este ato foi considerado ilegal. Os Otomanos viraram-se ainda mais para os Alemães.

O cruzador de batalha alemão Goeben e o cruzador Breslau eram navios de guerra alemães que se encontravam em serviço no Mediterrâneo desde novembro de 1912. O início da guerra, em 1914, obrigou estes navios a fugirem à esquadra britânica no Mediterrâneo, que contava com mais de vinte navios. Além de mais numerosa, os cruzadores britânicos tinham armamento superior ao dos alemães, mas estes eram mais rápidos. No dia 10 de agosto de 1914, após uma perseguição de seis dias, os navios alemães foram autorizados pelo governo turco a entrarem no Estreito de Dardanelos, o que foi negado aos seus perseguidores britânicos. Chegando a Constantinopla, o Goeben e o Breslau foram transferidos para a Marinha Otomana e renomeados como Yavuz Sultan Selim e Midilli, respectivamente, mas mantiveram as suas tripulações alemãs.

[Ver mapa com itinerários da perseguição do SMS Goeben e do SMS Breslau em https://warhistory.org/@msw/article/naval-war-in-the-mediterranean-1914-1918, visto em 2025.11.28]

Esta pequena frota de dois cruzadores alemães era comandada pelo Vice-almirante Wilhelm Anton Souchon (1864-1946), que foi nomeado comandante da Marinha Otomana. Foi sob o comando do Vice-almirante Souchon que uma frota otomana se fez ao largo no dia 27 de outubro, no Mar Negro, com o pretexto de realizar manobras. Esta frota incluía os dois navios alemães. No dia 29, a frota turca composta pelo Goeben, Breslau e outros navios, bombardeou, sem qualquer declaração de guerra, os portos russos de Odessa, Sebastopol, Feodosia, Yalta e Novorossiysk. Esta ação teve como consequência a declaração de guerra da Rússia ao Império Otomano, no dia 2 de outubro. Desta forma, o Império Otomano entrou na guerra ao lado da Alemanha.

 

A defesa do Estreito de Dardanelos

A defesa do Estreito de Dardanelos baseava-se na Área Fortificada de Çanakkale sob o comando, desde 29 de novembro de 1914, do General turco İsmail Cevat Çobanlı (1870-1938), normalmente referido como Cevat Paxá. A sua missão era a de planear, preparar e implementar as medidas defensivas, o que implicava escolher as posições para as baterias de artilharia e para as barreiras de minas navais lançadas no estreito de Dardanelos. O estreito estava defendido pela artilharia de costa colocada nas margens sul e norte e pela utilização de minas marítimas e tubos lançadores de torpedos. Também foram instalados holofotes potentes para manterem a vigilância ativa durante a noite. A artilharia de campanha turca também colaborou na defesa do estreito. As bocas de fogo de artilharia estavam instaladas em ambas as margens. Entre a entrada e sua junção com o Mar de Mármara, todo o estreito estava ao alcance das defesas turcas.

À entrada do Estreito de Dardanelos, existiam duas baterias fixas no extremo da Península de Galípoli, em Helles e Sedd-el-Bahr. Em Helles também estava posicionado um sistema de iluminação de vigilância. Na margem sul, na Anatólia, parte asiática da Turquia, existiam duas baterias fixas. Uma em Kum Kale e outra em Orkanie. As próximas baterias fixas que se encontravam na defesa do Estreito de Dardanelos encontravam-se à entrada da zona dos Estreito de Dardanelos, nas regiões de Çanakkale, a sul, e de Kilitbahir, a norte. Entre estas posições e as da entrada do Estreito de Dardanelos, a defesa estava a cargo de baterias de artilharia de campanha. Em vários pontos desta zona do Estreito estavam colocados holofotes. Na zona mais estreita dos Dardanelos existiam cinco baterias de artilharia de costa, nomeadas Yildiz, Rumili Medjidieh, Hamidieh II, Namazieh e Derma, na margem norte e Hamidieh I e Anadolu, na margem sul. Esta era a região onde estavam colocados mais holofotes para vigilância. Também ali foram lançados dois campos de minas. O primeiro era batido pelas baterias de Messudieh e Dardanos. O segundo estava fortemente coberto pelas baterias nas regiões de Çanakkale e Kilid Bahr [THOMPSON, PEDERSEN, ORAL, 1915, mapa da página 5].

Os Turcos, aconselhados pelos alemães, fizeram um esforço substancial para modernizarem a sua artilharia de costa. As fortificações que defendiam a entrada do Estreito de Dardanelos dispunham de 22 peças de artilharia com calibres entre os 150 e os 280 mm. Mais distantes, na linha que passava pelos fortes de Kilitbahir (na Península de Galípoli) e Çanakkale (na Ásia Menor), na região onde a largura do Estreito era menor, os Turcos colocaram 76 bocas de fogo de artilharia, com calibres entre os 110 e os 356 mm e, nas margens, instalaram tubos lança-torpedos. A 4 e a 8 km da entrada do Estreito, foram colocados campos de minas navais. O comando das forças turcas concluiu que a artilharia seria suficiente para impedir o desembarque e, sendo assim, o litoral da península estava ocupado com poucas tropas [SCHIAVON, p. 45.].

[Ver mapa da Península de Galípoli que mostra as defesas do Estreito de Dardanelos na sua máxima extensão em https://www.naval-history.net/WW1Book-RN2-P04.jpg, visto em 2025.11.28]

Os conselheiros militares alemães forneceram orientação tática e as indústrias alemãs forneceram armamento moderno. As minas navais utilizadas na defesa do Estreito de Dardanelos eram armas de baixo custo operacional e tornaram-se o elemento mais eficaz para impedir o avanço dos navios inimigos. A literatura disponível é pouco clara, por vezes contraditória, sobre a origem e tipo de minas navais utilizadas no estreito de Dardanelos, mas podemos afirmar que as minas utilizadas pelos defensores turcos eram, quase certamente, "Minas de Contacto Ancoradas", o tipo de mina naval normalmente utilizado pelas grandes potências. Este tipo de mina é fixado ao fundo marinho por um cabo e uma âncora, mantendo a esfera explosiva suspensa a uma profundidade que garante o contacto com o casco submerso de um navio de superfície. A detonação da mina era feita pelo impacto entre o navio e a mina. O poder da carga explosiva atuava na parte mais vulnerável do navio, o casco abaixo da linha de água. Os documentos disponíveis não citam o modelo exato, mas a mina alemã utilizada na Grande Guerra era a Mina de Contacto C/08 (ou C/12), com uma carga explosiva de alta potência que podia variar entre 100 kg e 150 kg de explosivos, frequentemente TNT ou Amatol.

O sucesso das minas no estreito de Dardanelos resultou não apenas da sua tecnologia destrutiva, fornecida pela Alemanha, mas da sua colocação tática, executada pelo navio otomano lança-minas Nusret, de origem alemã. As operações de dragagem das minas no estreito começaram em fevereiro de 1915. As posições das minas navais colocadas inicialmente pelos defensores turcos eram conhecidas e iam sendo eliminadas, mas este era um processo demorado. Nestas operações, na noite de 13 de março, os draga-minas foram atingidos pelo fogo de artilharia de costa e o cruzador HMS Amethyst, destacado para proteger as operações de limpeza, foi gravemente danificado e sofreu algumas baixas. Entretanto, com o apoio dos conselheiros alemães, foram organizados mais campos de minas. Quando foi desencadeado o ataque que tinha por objetivo atravessar o estreito de Dardanelos e o Mar de Mármara e ameaçar Constantinopla, tinham sido colocados três campos de minas. A principal concentração estava na zona mais estreita, que em língua inglesa é designada por “The Narrows”. Foram ali colocados dois campos de minas, um a seguir ao outro. Também foi colocada uma linha de 20 minas, paralela à costa, na região imediatamente a oeste de Güzelyalı, na costa asiática, numa posição por onde os navios aliados passavam para manobrar ou inverter o curso após terem bombardeado os fortes interiores.

O sucesso da defesa do Estreito de Dardanelos teve uma consequência imediata: ao serem impedidas de avançar por mar, as potências da Entente decidiram alterar a sua estratégia e desembarcar forças terrestres na Península de Galípoli. Esta alteração do tipo de operações, de navais para terrestres, conduziu a uma nova estrutura do comando operacional na Península. A defesa sob o comando de Cevat Pasha, a Área Fortificada de Çanakkale, manteve a sua função, mas passou a estar subordinada ao comando terrestre do Quinto Exército turco que estava a ser organizado para lidar com a invasão iminente.

 

A defesa da Península de Galípoli

Liman von Sanders identificou quatro posições estratégicas: a parte mais a sul, na extremidade da península, que os Aliados procurariam conquistar para que os seus navios pudessem entrar no estreito de Dardanelos; mais a nordeste, na costa norte da península, a cerca de 20 km de distância do extremo sul, incluindo a Baía de Suvla, a linha que liga Gaba-Tepe a Maidos (Eceabat), com acesso à parte central da península, onde um desembarque poderia ameaçar o interior e cortar as comunicações otomanas entre o sul e o norte; no norte da península, perto do istmo de Bulair, porque, sendo o ponto mais estreito da península e permitindo acesso direto ao Mar de Mármara, se os Aliados atacassem nessa zona poderiam isolar completamente as defesas otomanas da península; na costa sul do estreito de Dardanelos, na Anatólia, a partir de onde os Aliados poderiam atacar as fortificações de Çanakkale, frente a Kilitbahir, que defendiam a zona mais estreita dos Dardanelos. Também era na costa sul dos Dardanelos que se encontravam as posições de artilharia de Kum Kale e Orkanie, que defendiam a entrada no Estreito de Dardanelos [SCHIAVON, p. 56.].

[Ver mapa com a disposição das forças do Quinto Exército turco em abril de 1915. Imagem em https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Map_of_Turkish_forces_at_Gallipoli_April_1915.png#, visto em 2025.11.29]

A preparação da defesa da Península de Galípoli foi feita em função desta análise. Para esta missão, Liman von Sanders foi nomeado comandante do Quinto Exército turco. As fortificações foram reparadas e reforçadas, foram recebidas mais bocas de fogo de artilharia, escavaram-se trincheiras e instalaram-se redes de arame farpado. Foi um trabalho intenso para fortificar a península. No final de abril de 1915, o Quinto Exército tinha a seguinte estrutura:

  • III CE (Terceiro Corpo de Exército), sob o comando do Tenente-general Mehmet Esat Bülkat (1862-1952), composto por três Divisões de Infantaria: 7.ª, 9.ª e 19.ª Divisões. Esta última era comandada pelo Coronel Mustafa Kemal (1881-1938), mais tarde conhecido como Mustafa Kemal Atatürk;
  • XV CE, sob o comando do Coronel alemão Hans Kannengiesser (1868–1945), composto pelas 3.ª e 11.ª Divisões de Infantaria;
  • A 5.ª Divisão de Infantaria que não se encontrava integrada em nenhum dos corpos de exército.
  • Comando da Área Fortificada de Çanakkale ou Área Fortificada de Dardanelos, sob o comando de Mehmet Esat Bülkat.
  • Esquadrão de aeronaves.

Durante a Campanha de Galípoli foram recebidos reforços e introduzidas alterações na organização das forças disponíveis. Em todo este processo, houve sempre algum apoio alemão. Entre março de 1915 e janeiro de 1916, quando terminou a campanha, estiveram envolvidos nos combates entre 1.700 e 1.800 militares alemães: artilheiros, fuzileiros navais, sapadores, pilotos e pessoal de apoio, oficiais do estado-maior, médicos e enfermeiros [German Units | gallipoli1915 - Die Schlacht von Gallipoli 1915, acesso a outubro 1, 2025, https://www.gallipoli1915.de/german-units, visto em 2025.11.29].

A Ordem de Operações para a defesa da Península de Galípoli estabelecia as seguintes zonas de ação [BANKS, 2001, p.119]:

  • O III CE tinha a seu cargo a defesa da Península com a 9.ª Divisão na região de Krithia (no sul da Península), a 19.ª Divisão na região de Boghali e a 7.ª Divisão no istmo da Península, na região de Bulair;
  • À 5.ª Divisão foi atribuída a costa da zona mais interior do Golfo de Saros, na região do istmo de Sulva;
  • Ao XV CE foi atribuída a defesa da costa da Anatólia e, portanto, da margem sul do Estreito de Dardanelos: a 3.ª Divisão na região de Kum kale e a 11.ª Divisão um pouco mais a sul, na região da Baía de Besika.

 

O ataque naval

Desde 1878, durante a Guerra Russo-Turca 1877-1878, quando os Estreitos estiveram à beira de ficar sob controle russo, os britânicos desenvolveram planos para se apoderarem da Península de Galípoli. Em 1906, segundo um memorando do Estado-Maior General britânico, uma operação para a conquista da Península de Galípoli era considerada de alto risco, mas, em 1915, a Turquia era considerada uma potência fraca. Além disso, a derrota das fortificações belgas no verão de 1914 conformou a vulnerabilidade das fortificações mais antigas. As fortificações turcas não tinham sido modernizadas e, por isso, foram consideradas muito vulneráveis perante o poder de fogo das marinhas de guerra britânica e francesa [SCHIAVON, pp. 44-45]. 

A 3 de novembro de 1914, a Royal Navy aproximou-se das costas da Península de Galípoli e bombardeou as fortificações à entrada do Estreito de Dardanelos, durante dez minutos, para localizar a artilharia turca que ripostou. Esta ação foi uma iniciativa do Almirantado, sem conhecimento do Governo ou do Conselho de Guerra. Terá sido um erro porque alertou os turcos para as intenções britânicas.

Em janeiro de 1915, Winston Churchill conseguiu o acordo dos restantes membros do Conselho de Guerra. A ação militar contra a Turquia, a ser coroada de sucesso, permitiria restabelecer as linhas de comunicação com a Rússia através do Mar Negro, mas também tinha o objetivo de impedir um ataque das forças otomanas contra o Canal de Suez. Com estes objetivos, Churchill conseguiu fazer aprovar o projecto de forçar a passagem no estreito de Dardanelos. «Ele propôs que os couraçados e os cruzadores se aproximassem do estreito de Dardanelos, bombardeassem os fortes que na costa interditavam a entrada […] depois, após a sua destruição, penetrassem no Mar de Mármara, à medida da sua progressão neutralizassem os outros fortes e as defesas à beira-mar […] Deverão em seguida dragar os campos de minas antes de chegarem perante Constantinopla onde a aparição dos navios da Entente provocará sem dúvida o desmoronamento do regime! Um corpo de desembarque ocupará em seguida a cidade […]» [SCHIAVON, pp. 41 e 43].

 

A força naval dos Aliados

A força naval utilizada pelos Aliados na Campanha de Galípoli era constituída maioritariamente por navios britânicos, alguns navios franceses e um navio russo. Nem todos os navios foram diretamente envolvidos nas operações militares/navais. Esta frota tinha como principais portos de apoio o porto de Mudros, na ilha de Lemnos que fica a pouco mais de 80 km da entrada do Estreito de Dardanelos, e o porto de Alexandria, no Egito. Este último estava muito bem apetrechado com os equipamentos necessários para garantir o apoio logístico à frota aliada. O porto de Mudros esté situado numa baía que oferece alguma proteção, mas não possuía as infraestruturas e equipamentos adequados.  

A parte da esquadra britânica no Mediterrâneo (Mediterranean Fleet) que se encontrava no Mar Egeu, o Esquadrão do Mediterrâneo Oriental (Eastern Mediterranean Squadron), sob comando do Contra-Almirante Sir Sackville Hamilton Carden (1857-1930) desde 20 de setembro de 1914, foi reforçada e passou a ser constituída por um superdreadnought, o HMS Queen Elizabeth, o cruzador de batalha HMS Inflexible, 10 predreadnoughts a que se juntaram mais tarde o HMS Agamemnon e o HMS Lord Nelson, 4 cruzadores, 16 destroyers, 21 traineiras draga-minas, 6 submarinos, 2 navios de abastecimento e o hidroavião Ark Royal. 

O Governo francês enviou instruções ao Contra-Almirante Paul Émile Aimable Guépratte (1856-1939), comandante do Esquadrão Avançado (Escadre de l'avant ou Division de complément), que até aqui tinha a missão de apoiar os comboios no Mediterrâneo, para se colocar às ordens do Contra-Almirante Carden, que iria comandar o ataque ao estreito de Dardanelos. Os Franceses contribuíram com 4 predreadnoughts, 1 cruzador, 6 torpedeiros e 4 submarinos. Também participou nesta campanha o Cruzador Askold, russo. No total, estiveram presentes cerca de 120 embarcações que no conjunto reuniam 280 bocas de fogo de artilharia de grande calibre.

Também foram preparados dois batalhões de Royal Marines para possíveis desembarques temporários a fim de efetuarem destruições nas fortificações e posições de tiro turcas. Paul G. Halpern menciona também que alguns navios mercantes foram alterados para se assemelharem a dreadnoughts, para efeito de deceção.

Os Franceses, tal como os Britânicos, tinham interesses a defender na região e não queriam «ver a frota britânica aparecer sozinha ao largo de Constantinopla. O empenhamento militar foi feito para obter benefícios diplomáticos do sucesso.» [HALPERN, 1994, p. 110] Contudo, esta visão dos interesses franceses não pode sobrepor-se ao interesse geral dos Aliados em restabelecer a linha de comunicações com a Rússia, essencial para manter esta potência na guerra e, dessa forma, não permitir que os alemães reforçassem a Frente Ocidental.

 

O primeiro ataque naval

O plano do Contra-Almirante Carden para forçar a passagem no estreito de Dardanelos estava dividido em quatro fases progressivas, cada uma com objetivos geográficos e táticos específicos. Em primeiro lugar era necessário neutralizar as defesas externas, isto é, os fortes localizados na entrada do estreito, em Cabo Helles, na ponta da península de Galípoli, e em Kum Kale, na costa asiática. O sucesso desta primeira ação permitiria avançar para a limpeza dos campos de minas localizados na zona intermédia do estreito, permitindo que os navios de guerra avançassem em segurança para enfrentarem as defesas da zona mais estreita. Aqui, o objetivo era destruir ou neutralizar as fortificações e a artilharia que defendia o ponto mais estreito e crucial dos Dardanelos. Para o sucesso desta fase era necessário contar com todo o poder de fogo da frota. Só o sucesso destas operações permitiria entrar no Mar de Mármara e ameaçar Constantinopla. Uma vez que o estreito de Dardanelos estivesse completamente aberto, a frota principal passaria para o Mar de Mármara, o que forçaria a rendição de Constantinopla.

As operações navais tiveram início a 19 de fevereiro com um bombardeamento feito a longa distância sobre os fortes de Sedd-el-Bahr (no extremo sul da península) e Kum Kale (na Ásia Menor) que defendiam a entrada do Estreito. Para este ataque foram utilizados doze navios - quatro franceses e oito britânicos – e o bombardeamento começou a longo alcance, mas rapidamente ficou claro que para destruir ou neutralizar a artilharia turca a frota teria que se aproximar mais por forma a que os observadores do tiro da artilharia naval pudessem ajudar a regular o tiro.

Este bombardeamento alertou os Turcos para um provável ataque de maior envergadura e levou-os a desenvolverem ainda mais esforços para reforçarem a suas defesas. O mau tempo obrigou a interromper o ataque que recomeçou a 25 de fevereiro. As guarnições turcas e alemãs dos fortes bombardeados foram obrigadas a retirar e os Aliados desembarcaram equipes de demolição que destruíram as posições de tiro em Kum Kale e Sedd-el-Bahr. Os navios britânicos e franceses podiam então entrar no estreito de Dardanelos e bombardear os fortes do interior. «No dia 2 de março, Carden informou que esperava estar a caminho de Constantinopla em cerca de duas semanas.» [SCHIAVON, p. 47; HAYTHORNTHWAITE, 1991, pp 26-27.]

No dia 5 de março, a marinha dos Aliados bombardeou os fortes turcos, mas não conseguiram neutralizá-los. O Contra-Almirante (Rear-Admiral) Carden concluiu que a única forma de impedir a utilização da artilharia turca era desembarcando um corpo de tropas para conquistar os fortes e, para esse efeito, no dia 12 de março, o Governo britânico nomeou o General Sir Ian Standish Monteith Hamilton (1853-1947) comandante da força expedicionária no Mediterrâneo. As operações navais de bombardeamento dos fortes e dragagem de minas prosseguiu com algum sucesso, mas a um ritmo lento.

O avanço dos navios aliados no Estreito de Dardanelos dependia da atuação dos draga-minas que eram constantemente flagelados pela artilharia turca. «Assim, foi talvez sem surpresa que os draga-minas recusaram continuar; as embarcações eram pequenas traineiras e as suas tripulações eram civis que não estavam preparados para enfrentar a artilharia sem proteção.» O Comodoro Roger Keyes, o chefe do estado-maior de Carden, pediu voluntários das guarnições dos navios para guarnecerem os draga-minas, mas uma tentativa realizada a 3 de março, com seis draga-minas e o cruzador HMS Amethyst, terminou quando todos, exceto dois draga-minas, foram postos fora de ação pela artilharia de costa turca.

Foi precisamente o tempo que as operações estavam a demorar que levaram Winston Churchill a pressionar Carden para avançar mais rapidamente, mas este foi afastado do comando, no início de março, devido à sua saúde debilitada e a um colapso nervoso causado pelo elevado stress que as funções provocaram. O Contra-Almirante Carden foi substituído a 17 de março pelo Contra-Almirante Sir John Michael de Robeck (1862-1928), e o ataque naval aos Dardanelos teve início no dia seguinte. Entretanto, Liman von Sanders transportou para a Península de Galípoli mais artilharia e morteiros e, sobretudo, obteve mais minas navais.

 

O ataque naval de 18 de março de 1915

O Contra-Almirante Robeck decidiu retomar a ofensiva a 18 de março. Para além dos draga-minas, dispunha de catorze navios britânicos e quatro franceses. Os navios estavam organizados em três vagas mais a reserva, com a seguinte distribuição [HAYTHORNTHWAITE, 1991, pp. 28-31. O texto de Sir Julian S Corbett, «World War 1 at Sea - NAVAL OPERATIONS, Volume 2, December 1914 to Spring 1915 (Part 2 of 2)», in https://www.naval-history.net/WW1Book-RN2b.htm, apresenta uma divisão diferente das “linhas” de ataque]:

  • Primeira vaga: HMS Queen Elizabeth (1915) [ano em que entrou ao serviço], HMS Agamemnon (1907), HMS Lord Nelson (1908), HMS Inflexible (1908), HMS Prince George (1896) e HMS Triumph (1904).
  • Segunda vaga: Gaulois (1899), Charlemagne (1899), Bouvet (1898) Suffren (1903), HMS Magestic (1895) e HMS Swiftsure (1904).
  • Terceira vaga: HMS Vengeance (1901), HMS Irresistible (1902), HMS Albion (1901) e HMS Ocean (1901).
  • Reserva: HMS Canopus (1900) e HMS Cornwallis (1904).

O ataque começou às 10H45. O Contra-Almirante de Robeck encontrava-se a bordo do HMS Queen Elizabeth. Os navios da primeira vaga avançaram no estreito até estarem à distância de tiro dos fortes que defendiam a entrada e abriram fogo a quase 15 km (8 milhas náuticas) de distância. Pouco antes das 13H00, de Robeck deu ordem a Guépratte para entrar em ação. Os navios franceses deviam aproximar-se da costa e neutralizar os fortes e baterias de campanha que se encontravam próximo. As baterias turcas foram sujeitas a um intenso bombardeamento, quase sendo silenciadas, mas quando os navios se aproximaram da costa, conseguiram atingi-los com eficácia. O navio almirante Suffren foi atingido por quatro granadas de obus que causou baixas e danos materiais graves. O Gaulois foi atingido por um torpedo que causou uma fenda no casco e foi obrigado a retirar a velocidade reduzida.

O Almirante de Robeck decidiu retirar a guarda avançada francesa e substituí-la por navios britânicos em reserva. Entretanto, o Bouvet, às 13H58, foi atingido por uma mina naval que abriu uma enorme fenda. Dois minutos mais tarde, ele vira-se e em seguida afunda-se. Morreram 660 homens. Sobreviveram 65 que foram recolhidos por outras embarcações. Pouco depois das 16H00 o Irrésistible também foi atingido por uma mina. Mais tarde sucedeu o mesmo ao Océan e ao Inflexible. Os dois primeiros conseguiram evacuar as tripulações antes de afundarem, mas o Inflexible conseguiu encalhar em Ténédos. O Almirante de Robeck decidiu cancelar o ataque para evitar mais perdas inúteis.

A tentativa de forçar os Estreitos fracassou com pesadas perdas.  Durante esta ação, os turcos lançaram minas navais que se deslocavam com a corrente, contra as quais havia poucas defesas. Estas minas impediram a renovação do ataque sob pena de sofrerem novamente pesadas baixas. As minas desse tipo eram colocadas a cinco metros de profundidade, suspensas por um flutuador camuflado e deslocam-se ao sabor da corrente. Atendendo ao número de embarcações presentes, a probabilidade de atingirem um alvo era grande. Seguindo com a corrente, acabaram por serem dirigidas para o Mar Egeu, onde constituíram um perigo para toda a navegação.