Apontamentos sobre a Campanha de Galípoli - Parte III
A Campanha de Galípoli (3)
Ao fracasso da ofensiva naval seguiu-se o fracasso da ofensiva terrestre. Os desembarques foram relayivamente bem sucedidos, mas as forças aliadas não conseguiram mais do que criar testas de ponte. As tentativas de avançarem para o centro da Península de Galípoli fracassaram e esta operação, com que se pretendia contornar o impasse criado pelas trincheiras na Frente Ocidental, transformou-se, ela própria, numa guerra de trincheiras. Se na Frente Ocidental era necessário manter as posições para conter a Alemanha e expulsar as suas forças da França e da Bélgica, na Península de Galípoli, reconhecida a impossibilidade de obter resultados positivos, não havia razão para continuar.
A retirada
Nos Balcãs, uma das consequências do fracasso dos Aliados em Galípoli, foi a de a Bulgária declarar guerra à Sérvia que já se encontrava em dificuldades perante as ofensivas austro-húngaras e, desde outubro de 1915, com o apoio de tropas alemãs. Os reforços que Hamilton tinha pedido foram então desviados para os Balcãs. A retirada de Galípoli passou a ser uma possibilidade cada vez mais forte. A 11 de outubro, Lord Kitchener enviou uma mensagem a Hamilton a solicitar uma avaliação das baixas que poderiam ocorrer numa retirada. Hamilton enviou uma estimativa em que poderiam perder metade dos homens [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 84].
A forma como foi conduzida a campanha e as previsões de Hamilton para a retirada, resultou na sua substituição pelo General Sir Charles Carmichael Monro (1860-1929). O General Monro recebeu instruções para se pronunciar sobre a possibilidade de manter o esforço na Campanha de Galípoli. Após a saída do General Hamilton e enquanto o General Monro não chegou à Península de Galípoli, o comando das forças Aliadas foi entregue ao General Birdwood, comandante do ANZAC. O General Monro, após a chegada à região, visitou Helles, Anzac Cove e Suvla num único dia.
O General Monro era um Western, ou seja, acreditava que a única estratégia viável para ganhar a guerra era concentrar forças na Frente Ocidental. Ouviu os seus generais, uns a favor de continuarem a campanha, outros a optarem pela retirada. Constatou que as munições estavam a escassear e, para além das baixas sofridas em combate, a doença dizimava as fileiras. Perante este cenário, recomendou que os Aliados deveriam retirar-se da Península de Galípoli, mas alertou que a operação de evacuação das tropas poderia causar cerca de 40.000 baixas.
O Secretário de Estado da Guerra britânico, Lord Kitchener, decidiu ir até Galípoli e verificar pessoalmente a situação. Kitchener concordou com Monro e propôs ao Governo britânico a retirada de Galípoli. Recomendou que Anzac Cove e Suvla fossem evacuados imediatamente, que as posições em Helles fossem mantidas por algum tempo. Foi planeado as forças em Suvla e Anzac Cove retirarem em dezembro de 1915 e serem levadas para a ilha de Lemnos, onde existiam unidades médicas e de reabastecimento, e as forças de Helles serem evacuadas em janeiro de 1916 para o Egito.
Evacuação de Suvla e Anzac Cove
Ao contrário do que, até aí, aconteceu com a Campanha de Galípoli, «a evacuação foi um triunfo de organização e disciplina». O facto de ter sido efetuada sem pressão das forças turcas deveu-se aos planos de decepção dos Aliados [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 86.]. Em Suvla e em Anzac Cove, as tropas foram informadas da evacuação a 12 de dezembro. Durante o dia, em que estavam sujeitos à observação turca, eram descarregadas caixas de abastecimentos vazias para dar a ideia que se iriam manter na posição por muito mais tempo. Durante a noite, quando a observação não era possível, os homens eram evacuados. Como o número de tropas ia diminuindo, o número de fogueiras acesas para cozinhar era mantido. A artilharia mantinha a sua atividade normal.
Até à manhã de 18 de dezembro, tinham sido evacuados cerca de 40.000 homens com a maior parte do seu equipamento. Na noite de 18 foram evacuados mais 20.000. As posições de Suvla e Anzac Cove foram mantidas pelos restantes 20.000 homens que enfrentavam a fase mais perigosa da evacuação. Se os turcos descobrissem a operação em curso podiam atacar uma força já muito reduzida. Quando retiraram, deixaram nas trincheiras algumas armas, fixas e com dispositivos formados por recipientes de água ou velas que estavam ligados aos gatilhos. Ao fim de algum tempo, estes dispositivos acabavam por provocar o disparo e dessa forma iludiram os turcos sobre a atividade nas trincheiras aliadas. Ao alvorecer do dia 20 de dezembro tinha terminado a evacuação. Dois homens foram feridos em Anzac Cove. Não houve nenhuma baixa em Suvla.
Evacuação de Helles
Descoberta a evacuação de Suvla e Anzac Cove, Liman von Sanders começou a organizar as suas forças para atacar Helles. Dispunha de uma grande superioridade numérica perante os Aliados (21 divisões contra 4). O General Monro foi enviado para a Frente Ocidental para comandar o Primeiro Exército britânico. O comando das operações em Helles foi entregue ao General Birdwood.
A 29.ª Divisão, com que Hamilton tinha reforçado as forças em Suvla, regressou a Helles. A 13.ª Divisão, retirada de Suvla, substituiu a 42.ª Divisão. A 11.ª Divisão, também retirada de Suvla, ficou embarcada, pronta a ser usada como reserva. As restantes tropas evacuadas de Suvla e Anzac Cove, que se encontravam em Lemnos, foram anviadas para o Egito. Em Helles a defesa foi mantida com, da esquerda para a direita, as 13.ª Divisão, 29.ª Divisão, 52.ª Divisão e Royal Naval Division. Esta força tinha cerca de 40.000 homens e 150 bocas de fogo de artilharia.
À semelhança do que aconteceu em Suvla e Anzac Cove, a evacuação foi efetuada por fases e com medidas de deceção. No dia 7 de janeiro, quando apenas se encontravam 19.000 homens no terreno, os turcos atacaram, mas o ataque fracassou. A disciplina de fogo britânica deu bom resultado e muitos turcos recusaram-se a avançar. Este ataque provocou aos britânicos 164 baixas, quase todos na 13.ª Divisão que foi intensamente bombardeada pela artilharia turca.
Na noite de 8 para 9 de janeiro, uma retirada ao longo de rotas pré-definidas, em completo silêncio. As praias “V” e “W” foram os principais pontos de embarque. Pelas 04H00 do dia 9, os britânicos fizeram explodir as munições que não puderam retirar. Na operação de retirada em Helles não se registaram baixas.
Guerra aérea
«Em nove meses de atividade aérea em Galípoli, os aviadores alemães e turcos fizeram 150 voos e lançaram 200 bombas» [KENNETT, 1991, p. 182]. Esta ideia de aviões a operarem durante a Campanha de Galípoli não existe na generalidade dos escritos sobre A Campanha de Galípoli. Existiam poucos aviões e as condições em que operavam eram difíceis, mas eram muito eficazes em ações de reconhecimento.
Na manhã do dia 18 de março de 1915, o Capitão Serno e um oficial naval alemão de nome Schneider voaram sobre o Estreito de Dardanelos e observaram a frota aliada – pelo menos 18 navios – a dirigirem-se para a zona mais apertada do Estreito. Rapidamente voltaram à sua base e deram o alarme.
O clima constituiu um problema para a utilização dos meios aéreos. Em Mudros, na ilha de Lemnos, existia uma base aérea britânica onde se aplicava a seguinte regra: com exceção de emergências, os voos realizam-se de manhã até às 10H00 e à tarde após as 16H00. Por causa do calor, os motores dos aviões sobreaqueciam mesmo quando equipados com radiadores extra. Por outro lado, como os voos eram destinados geralmente a missões de reconhecimento em que se utilizava a fotografia, o calor, entre as 10H00 e as 16H00 podia atingir o ponto em que a camada de gelatina nas placas fotográficas se soltavam do vidro e forma bolhas que impedem a utilização adequada da fotografia. Nas câmaras escuras, para revelar as fotografias, as embalagens do líquido para revelar e do fixador eram conservadas em gelo [KENNETT, 1991, p. 185].
Na Campanha de Dardanelos, não havendo combates navais entre esquadras inimigas, a observação aérea foi utilizada para ajudar a regular o tiro da artilharia naval sobre os objetivos terrestres. Mas esta situação não era bem aceite por todos os comandantes porque as mensagens enviadas entre o avião e o navio eram interceptadas pelos alemães.
Tropas não europeias em Galípoli
No início da Primeira Guerra Mundial, colocou-se a questão da mobilização das colónias e domínios. Algumas das potências beligerantes possuíam extensos impérios formados por colónias, protetorados ou domínios, o que lhes permitia recrutar um elevado número de combatentes, destinados a combater nas respetivas colónias – principalmente nas colónias africanas - como noutras frentes de combate.
O Reino Unido, que naquela época dominava o maior império colonial do mundo, podia mobilizar tropas e trabalhadores em várias partes do mundo [ver https://www.museedelagrandeguerre.com/histoire-grande-guerre/troupes-coloniales/]:
- 15.000 homens nas Caraíbas (dos quais 10 000 da Jamaica);
- 1.270.000 homens da Índia britânica que compreendia os atuais Paquistão, Índia, Bangladesh e Myanmar (ou Birmânia);
- 180.000 homens em toda a África;
- 67.000 soldados e 60.000 no domínio da África do Sul;
- 620.000 homens no Canadá;
- 1 Regimento no domínio da Terra-Nova, que na altura era independente do Canadá;
- 410.000 homens na Austrália;
- 100.000 homens Nova Zelândia, o que incluiu 2.700 Maoris e de algumas ilhas do Pacífico.
A França, cujo império colonial também era muito extenso, foram mobilizados os seguintes efetivos:
- 173.000 homens na Argélia;
- 80.000 homens na Tunísia;
- 40.000 homens em Marrocos;
- 180.000 homens na Afrique Occidentale e Afrique Équatoriale Françaises;
- 49.000 homens na Indochina;
- 41.000 homens e Madagáscar;
- 2.500 homens na Côte des Somalis, actuel Djibouti;
- homens nas ilhas do Pacífico.
Para a Campanha de Galípoli, as forças imperiais britânicas incluíam muitas forças não europeias com tinham origem na Austrália, Nova Zelândia, India, Canadá, Terra Nova e voluntários judeus da Palestina. As forças francesas incluíam os “senegaleses” e os “zouaves”, ambos africanos, os últimos com origem no Norte de África e integrados numa unidade da Legião Estrangeira. Mas entre as tropas australianas, contrariando as leis em vigor, encontravam-se alguns aborígenes e habitantes das ilhas do Estreito de Torres, situadas entre a Austrália e Papua - Nova Guiné.
As forças australianas e neozelandesas
Na Austrália estava em vigor a Lei de Defesa de 1903, que impedia o envio dos militares recrutados para o Serviço Militar Obrigatório para o exterior do país. Para permitir a participação no conflito, foi necessário organizar uma força voluntária completamente independente das forças territoriais. Essa força ficou conhecida como Força Imperial Australiana (AIF - Australian Imperial Force), foi formada a 15 de agosto de 1914 e era composta por uma divisão de infantaria e uma brigada de cavalaria ligeira. À divisão de infantaria juntou-se uma segunda divisão recém-formada, bem como três brigadas de cavalaria ligeira.
A Força Expedicionária da Nova Zelândia (NZEF - New Zealand Expeditionary Force) foi a designação dada às forças militares enviadas da Nova Zelândia para lutar ao lado de outras tropas do Império Britânico e dos Domínios durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). À semelhança do que aconteceu com a Força Imperial Australiana (AIF), a força expedicionária da Nova Zelândia teve que recorrer ao voluntariado para enviar tropas para o exterior. O contingente inicial da NZEF, duas brigadas, uma de infantaria e outra de cavalaria ligeira, partiu para a Austrália a 16 de outubro de 1914 e juntou-se à AIF. Ambas as forças partiram para o Egito a 1 de novembro de 1914.
As forças australianas e neozelandesas desembarcaram no Egito no início de dezembro. Foi durante esse mês que estas forças formaram um corpo de exército que foi designado por Australian and New Zealand Army Corps (ANZAC). Também em dezembro de 1914, o comando do ANZAC foi atribuído ao Tenente-General Sir William Riddell Birdwood (1865-1951), oficial do British Indian Army.
Aborígenes e habitantes das ilhas do Estreito de Torres
Aborígenes e habitantes das ilhas do Estreito de Torres prestaram serviço nas forças armadas australianas pelo menos desde a época da Federação (Federação da Austrália). São conhecidas as identidades de três homens que serviram, ainda antes de 1901, nas forças navais e militares coloniais de Victória e Nova Gales do Sul, e existem fotografias que sugerem ter havido outros casos. Esta é uma situação interessante porque ainda estava muito presente a lembrança do processo violento de apropriação das terras tradicionais indígenas, processo que é frequentemente referido como Frontier War. «A população indígena remanescente, que se acredita ter sido reduzida em três quartos durante o período colonial, existia como um grupo marginalizado, negligenciado e severamente desfavorecido à margem da sociedade branca.» [Australian War Memorial, « Indigenous service in Australia's armed forces in peace and war», in https://www.awm.gov.au/articles/indigenous-service/report-executive-summary, visto em 2025.11.11]
«De acordo com a Constituição, os aborígenes não eram reconhecidos como cidadãos. A Lei de Defesa de 1903 isentava especificamente aqueles que não possuíam ascendência europeia significativa [pessoas que não fossem "substancialmente de origem ou ascendência europeia"] do serviço militar nos cadetes e na milícia.» Quando um aborígene ou habitante das Ilhas do Estreito de Torres se apresentava no serviço de recrutamento não encontrava problemas devido à sua etnia, mas eram os oficiais médicos do centro de recrutamento que tinham a palavra final. Alguns seguiam as regras à risca e outros faziam vista grossa. Quando eram rejeitados, alguns voluntários simplesmente deslocavam-se até outro centro de recrutamento. Alguns faziam-no mais de uma vez até conseguirem ser aprovados para o serviço militar voluntário.
«De acordo com a Constituição, os aborígenes não eram reconhecidos como cidadãos. A Lei de Defesa de 1903 isentava especificamente aqueles que não possuíam ascendência europeia significativa [pessoas que não fossem "substancialmente de origem ou ascendência europeia"] do serviço militar nos cadetes e na milícia.» [National Archives of Australia, «Amendment to Military Orders allowing 'half-castes' to enlist», in https://www.naa.gov.au/students-and-teachers/student-research-portal/learning-resource-themes/war/world-war-i/amendment-military-orders-allowing-half-castes-enlist]
Quando um aborígene ou habitante das Ilhas do Estreito de Torres se apresentava no serviço de recrutamento não encontrava problemas devido à sua etnia, mas eram os oficiais médicos do centro de recrutamento que tinham a palavra final. Alguns seguiam as regras à risca e outros faziam vista grossa. Quando eram rejeitados, alguns voluntários simplesmente deslocavam-se até outro centro de recrutamento. Alguns faziam-no mais de uma vez até conseguirem ser aprovados para o serviço militar voluntário [SBSNews «50 Aboriginal soldiers fought on Gallipoli», in https://www.sbs.com.au/news/article/50-aboriginal-soldiers-fought-on-gallipoli/iby4nbk2i, visto em 2025.11.11].
Não se conhece o número exato de militares aborígenes e das Ilhas do Estreito de Torres porque nos registos das Forças de Defesa Australianas não constava a origem étnica dos seus membros. Novos nomes surgem constantemente, enquanto alguns foram removidos após pesquisas identificarem que eram não indígenas. No entanto, os registos militares continham, por vezes, informações que podem sugerir a ascendência nativa ou das Ilhas do Estreito de Torres, e muitos militares foram identificados como indígenas pelos seus descendentes [Australian War Memorial, «Indigenous defence service - Researching Indigenous service», in https://www.awm.gov.au/articles/encyclopedia/indigenous].
Estima-se que mais de 1.000 aborígenes e habitantes das ilhas do Estreito de Torres serviram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e cerca de 70 lutaram em Galípoli. Além disso, no início do século XX, os aborígenes e os habitantes das Ilhas do Estreito de Torres não podiam, legalmente, ingressar no Exército. A solução por eles encontrada foi a de tentarem ocultar sua identidade para conseguirem alistar-se.
Porquês este interesse em alistarem-se? «Os povos aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres enfrentavam racismo e discriminação, diariamente, na Austrália. No entanto, uma vez nas forças armadas, os aborígenes e os habitantes das ilhas do Estreito de Torres eram normalmente tratados da mesma forma que seus pares não indígenas, viviam nas mesmas condições e recebiam o mesmo salário. Embora o racismo ainda existisse nas forças armadas, muitos soldados aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres afirmaram ter recebido um tratamento melhor enquanto serviam no exército.» [DEADLY STORY, «ANZAC Day & Aboriginal Service People» in https://deadlystory.com/page/culture/articles/anzac-day-2018] Alguns viram o alistamento como uma oportunidade de provar que eram iguais aos europeus ou de pressionar por um tratamento melhor após a guerra. Para muitos australianos em 1914, a oferta de 6 xelins por dia para uma viagem ao exterior era simplesmente irrecusável.
Os australianos indígenas que participaram da Primeira Guerra Mundial serviram em igualdade de condições, mas, após a guerra, em áreas como educação, emprego e liberdades civis, os ex-combatentes aborígenes constataram que a discriminação persistia ou, de facto, havia piorado durante o período da guerra. Sabe-se que apenas um indígena australiano recebeu terras em Nova Gales do Sul sob um programa de "assentamento para soldados", apesar de grande parte das melhores terras agrícolas em reservas aborígenes terem sido confiscadas para a construção de lotes de assentamento para soldados. A repressão aos indígenas australianos aumentou no período entre as guerras, à medida que as leis de proteção conferiam aos funcionários do governo maior controle sobre eles. Ainda em 1928, indígenas australianos eram massacrados em ataques de represália. Um considerável movimento político aborígene na década de 1930 obteve poucas melhorias em relação aos direitos civis. Apenas a 27 de maio de 1967, num referendo, os australianos votaram para que fossem retiradas da Constituição Australiana as referências discriminatórias contra os povos aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres [National Archives of Australia, «The 1967 referendum», in https://www.naa.gov.au/students-and-teachers/student-research-portal/learning-resource-themes/government-and-democracy/constitution-and-referendums/1967-referendum].
New Zealand Native Contingent
O Exército da Nova Zelândia foi criado no século XIX, com base em unidades paramilitares de autodefesa criadas por colonos brancos. Quando as forças armadas da Nova Zelândia foram formadas, o Império Britânico utilizou-as como força expedicionária. Assim, os neozelandeses lutaram, por exemplo, nas Guerras dos Bóeres. Ainda no século XIX, foi levantada a questão da participação da população Maori no serviço militar e, no início do século XX começou a ser discutida a criação de uma unidade militar formada por maoris, mas ainda estava viva na memória dos neozelandeses brancos as guerras travadas com aquele povo para o domínio completo do território.
Neste cenário, o Governo neozelandês não quis que os recrutados maori formassem unidades regulares de combate e preferiu integrá-los em unidades de apoio de combate. Assim, com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, foi formado um corpo expedicionário da Nova Zelândia e esse corpo de tropas incluía o recém-formado New Zealand Native Contingent. Esta corpo de tropas também incorporava homens de outros povos imigrantes e de outras ilhas do Oceano Pacífico. A resposta dos Maori não foi uniforme. Alguns opuseram-se a participar na guerra pelo Império Britânico que se tinha apropriado das suas terras no século XIX. Outros desejavam participar.
Foi criado o Maori Contingent Committee com a finalidade de organizar o corpo de tropas Maori. O Committee e os homens do Native Contingent estavam determinados a garantir que os Maori participassem nos combates. O Governo britânico e o Governo da Nova Zelândia mostraram alguma preocupação com o facto de os Maori formarem unidades de combate. Havia algum receio de que essas forças pudessem utilizar as armas contra as forças de origem europeia. No entanto, alguns neozelandeses entenderam que os Maori podiam participar nos combates.
O General Sir Alexander John Godley, comandante da New Zealand Expeditionary Force, recomendou que o contingente fosse para Malta para receberem treino adicional e desempenharem funções de guarnição, liberando assim as tropas Pakeha (neozelandeses de ascendência europeia) para o combate. O contingente Maori deixou a Nova Zelândia no início de 1915. Embora alguns membros do Maori Contingent manifestassem vontade, na passagem pelo Egito, de aí receberem treino para combate, o General Godley ordenou que o grupo seguisse para Malta.
O crescente número de baixas e a necessidade de reforços na Península de Galípoli forçaram uma mudança na política imperial em relação aos combates dos "povos nativos". O Contingente Maori desembarcou em Anzac Cove a 3 de julho de 1915. Lá, juntaram-se aos New Zealand Mounted Rifles, que estavam a ser utilizados como infantaria. Durante o ataque a Chunuk Bair, no início de agosto, os maoris sofreram 17 mortos e 89 feridos. O contingente participou no ataque à Colina 60 no final de agosto e, em setembro, apenas 60 dos 16 oficiais e 461 soldados que tinham chegado em julho permaneciam em Galípoli. O retorno de membros doentes e feridos aumentou o número de tropas, mas quando o contingente foi evacuado da península com o restante da Força Expedicionária da Nova Zelândia, em dezembro de 1915, contava com apenas dois oficiais e 132 homens. Durante a campanha, 50 maoris perderam a vida. No entanto, foi preciso passarem por mais uma guerra mundial (1939-1945) para obterem a cidadania plena na Nova Zelândia, em 1948.
O Regimento da Terra Nova (Newfoundland Ragiment)
Atualmente, a Terra Nova (Newfoundland) é uma ilha que pertence ao Canadá. Em 1914, era um Domínio Britânico e o seu governador era Sir Walter Edward Davidson (1859-1923). Tinha então uma população de 242.000 pessoas, das quais 122.500 eram homens, e destes só 33.708 se encontravam na idade elegível para cumprirem o serviço militar, isto é, entre os 19 e os 35 anos. Ao longo da guerra, alistaram-se quase 12.000 homens nas três forças de Terra Nova - o Newfoundland Regiment, a Royal Naval Reserve e o Newfoundland Forestry Corps - e no Canadian Expeditionary Force (CEF). Representavam quase 10% da população masculina total, ou 35,6% dos jovens entre 19 e 35 anos.
No dia 8 de agosto, o Governador da Terra Nova, Sir Walter Edward Davidson (1859-1923), propôs ao Secretário de Estado para as Colónias, Lewis Vernon Harcourt (1863-1922), que o Domínio levantasse um regimento com 500 voluntários para servir no exterior. A oferta foi aceite pelo Governo britânico. Para recrutar, treinar e equipar o Regimento, formou-se, a 17 de agosto, a Newfoundland Patriotic Association (NPA), presidida por Sir Walter Davidson, que a 21 de agosto publicou uma proclamação a pedir voluntários para a formação do regimento. Essa proclamação estipulava que os voluntários deveriam ter entre 19 e 35 anos e se destinavam a «servir no exterior durante a guerra, mas não excedendo um ano.» Nesta altura ainda se pensava que a guerra estaria terminada em poucos meses.
A 26 setembro, tinham-se oferecido 970 homens. Por várias razões foram rejeitados mais de 200 e foram admitidos 565. Os restantes voluntários ficaram a aguardar até haver necessidade de recrutar mais homens. Estes primeiros quinhentos são referidos por First Five Hundred ou por Blue Puttees (polainas azuis). Dos homens alistados, embarcaram 538 no navio de passageiros SS Florizel, com bandeira da Terra Nova. Estavam organizados em duas companhias, “A” e “B”, e dirigiram-se para a Grã-Bretanha para receberem mais treino antes de serem enviados para as frentes de combate. Entretanto, o Regimento recrutou mais homens e cresceu por forma a formar um batalhão completo, o que significava ter à volta de 1.000 homens em campanha e cerca de 500 em reserva [https://www.heritage.nf.ca/first-world-war/articles/recruiting-the-newfoundland-regiment.php].
As quatro companhias – “A”, “B”, “C” e “D” – reuniram-se na Grã-Bretanha. Um ano após o início da Primeira Guerra Mundial, as tropas do Newfoundland Regiment continuavam em Inglaterra. A ordem para embarcar chegou a meados de agosto e o seu objetivo era juntar-se à 88ª Brigada da 29ª Divisão do Exército Britânico, mas a viagem não seria direta a Suvla, na Península de Galípoli. O embarque foi feito no dia 20 de agosto, em Devonport, Plymouth, no sul de Inglaterra, e no dia 1 de setembro, chegaram a Alexandria, no Egito. Daí dirigiram-se de comboio para o Cairo para se habituarem ao calor sufocante e trocarem os seus uniformes apropriados para climas frios por outros adequados ao calor. No dia 14 de setembro, embarcaram para a Baía de Suvla.
Os 1076 homens do Regimento desembarcaram na Baía de Suvla às 03H00 de 20 de setembro. Imediatamente ficaram sujeitos ao fogo das tropas turcas. A 30 de setembro, tinham assumido a defesa de 1,5km de trincheiras das linhas britânicas que, neste caso, se encontravam a cerca de 50m das trincheiras turcas. Até à evacuação participaram em alguns pequenos combates. No final da campanha, o Regimento de Terra Nova estava reduzido a 17 oficiais e 470 soldados. Das baixas sofridas, 44 morreram e os restantes, vítimas de ferimentos ou doenças, recuperavam nos hospitais militares. O Regimento retirou-se para o Egito, onde esteve dois meses em recuperação e em treino antes de seguir para a Frente Ocidental, para a região do Somme.
As tropas indianas
O Império britânico utilizou na Primeira Guerra Mundial muita mão de obra e unidades militares provenientes das suas colónias e domínios. Foi a Índia britânica que forneceu o maior número de pessoas para reforçar as tropas imperiais (1.270.000 homens). A decisão de empregar tropas indianas resultou da necessidade de preservar as forças britânicas metropolitanas para o combate na Europa.
O papel da Índia nesta campanha envolveu a disponibilização de unidades de combate e de elementos para a infraestrutura logística, vital para o desenvolvimento das operações. Durante a Campanha de Galípoli, foram enviadas tropas para a Península de Galípoli e para a ilha de Lemnos. As unidades operacionais e a artilharia de montanha seguiram para a península e os recursos atribuídos à logística, especialmente os recursos para transporte de abastecimentos e munições (unidade de mulas) e o os meios do Serviço de Saúde, dividiram-se entre a península e Lemnos.
A 29ª Brigada, sob o comando do Brigadeiro Sir Herbert Vaughan Cox (1860-1923), era uma formação de infantaria composta por quatro batalhões indianos que, à semelhança de todo o Exército Indiano, era uma força multiétnica totalmente voluntária. No entanto, era um exército bem controlado pelos Britânicos: não podiam ter nenhuma artilharia pesada; o comando era limitado aos oficiais britânicos; existia disparidade salarial conforme a origem dos militares; havia segregação nos transportes e quartéis.
As unidades iniciais que desembarcaram e combateram em Galípoli eram unidades consideradas de elite porque eram recrutadas em grupos que os britânicos classificavam como "Raças Marciais" (como Gurkhas, Sikhs, Punjabis e Rajputs):
- O 14th King George's Own Ferozepore Sikhs.5 Este regimento tinha um historial de serviço em campanhas anteriores, notavelmente na Rebelião Boxer na China em 1900;
- O 1st Battalion, 6th Gurkha Rifles;
- O 69th Punjabis;
- O 89th Punjabis.
As baixas sofridas obrigaram à evacuação dos batalhões Punjabis que, em maio, foram enviados para outras brigadas. Para os substituir foram atribuídos à 29.ª Brigada o 1st Battalion, 5th Gurkha Rifles e o 2nd Battalion, 10th Gurkha Rifles. Portanto, três dos quatro batalhões indianos presentes em Galípoli eram constituídos por tropas gurkhas.
O Corpo de Mulas Indiano, parte do Indian Supply and Transport Corps, era uma unidade de apoio logístico no Exército Indiano Britânico. Desempenhou um papel essencial na Campanha de Galípoli (1915). A sua principal função era o transporte de abastecimentos (alimentação, água e equipamentos) e munições em terrenos difíceis. O Corpo de Mulas desembarcou centenas de mulas e burros, que eram animais robustos, ágeis e resistentes à escassez de água, mais adequados do que os cavalos para o terreno íngreme. Para os conduzir, existiam centenas de homens, conhecidos como muleteiros ou condutores de mulas, muitos deles recrutados do Norte da Índia. Eram os responsáveis por guiar, cuidar e proteger os animais e a carga em quaisquer condições, mesmo quando sujeitos ao fogo inimigo.
Corpo de Mulas Sionista
O Corpo de Mulas Sionista (em inglês, Zion Mule Corps) foi uma unidade de transporte militar criada em março de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial. Era um corpo de transporte militar (como o nome indica, usava mulas para transportar os abastecimentos) organizado no âmbito do Exército Britânico. Foi formado por iniciativa dos sionistas Vladimir Jabotinsky (1880-1940) e Joseph Vladimirovich Trumpeldor (1880-1920), inicialmente com cerca de 500 voluntários. O objetivo primário dos seus fundadores era formar uma unidade militar judaica que pudesse lutar na guerra, na esperança de que essa contribuição levasse os britânicos a apoiar a criação de um Lar Nacional Judeu na Palestina.
Esta unidade serviu na Campanha de Gallipoli de abril a dezembro de 1915. A sua principal função era transportar comida, água e munições da praia para as linhas da frente, sob fogo pesado, sendo considerada inestimável pelos comandantes britânicos. O Corpo era comandado pelo Tenente-Coronel britânico John Henry Patterson (1867-1947) e tinha por segundo comandante o Capitão Joseph Trumpeldor. Era composto por 562 voluntários, na sua maioria judeus sionistas expulsos da Palestina pela administração otomana. Desta unidade utilizou 750 mulas e 20 cavalos. Partiram do Egito e chegaram a Galípoli em abril de 1915.
O Corpo de Mulas operava sob constante fogo da artilharia e dos franco-atiradores turcos. Embora fossem uma unidade de logística, os seus membros foram equipados com espingardas e baionetas. O General Sir Ian Hamilton, Comandante-em-Chefe da Força Expedicionária Aliada, escreveu mais tarde no seu diário que os membros do Corpo de Mulas tinham demonstrado «grande coragem» e provaram ser «inestimáveis para nós». Um dos soldados judeus foi condecorado com a Medalha de Conduta Distinta (DCM - Distinguished Conduct Medal) por bravura. Ao longo da campanha, o Corpo de Mulas sofreu 14 mortes (em combate e por doença) e 25 feridos. Antes de partirem, tiveram a dolorosa tarefa de abater as suas mulas para que não caíssem nas mãos dos Otomanos. A unidade foi oficialmente dissolvida em Maio de 1916.
O Corpo de Mulas de Sião precedeu os batalhões de combate judeus formados posteriormente. Após a Campanha de Galípoli, os britânicos recusaram transferir o Corpo de Mulas para outra frente. O corpo foi dissolvido e alguns de seus membros foram incorporados nos batalhões judeus que mais tarde foram formados e deram origem à Jewish Legion.
Legião Estrangeira e Zouaves
Para a campanha dos Dardanelos, o comando francês decidiu formar uma nova divisão, que incluía um regimento formado na Argélia: o 1er Régiment de Marche d'Afrique (1er RMA). Tratava-se de uma unidade mista, formada por elementos da Légion Étrangère e Zouaves (soldados recrutados entre os colonos franceses. O regimento foi criado a 1 de fevereiro de 1915, inicialmente sob o nome de Régiment d’Algérie-Tunisie. Um mês mais tarde, um de seus três batalhões foi organizado no seio da Legião estrangeira, estacionada na Argélia desde os anos de 1830.
Este novo batalhão foi denominado Bataillon de Légion d’Orient e tornou-se oficialmente o 3e Bataillon du 1er Régiment de Marche d’Afrique. Foi constituído a 1 de março de 1915 e compreendia quatro companhias: duas provenientes do 1er Régiment Etranger, e outras duas do 2e Régiment Etranger. Estes eram, naquela altura, os únicos regimentos orgânicos da Legião Estrangeira. Este batalhão contava com 1.124 homens sob o comando do Major (Chef de Bataillon) Louis Geay.
Em 2 de março de 1915, o Batalhão da Legião partiu da Argélia rumo a Galípoli e desembarcou em Lemnos, onde se manteve até ao final de março. De Lemnos partiu para Alexandria, no Egito, onde se manteve até 10 de abril. Ali continuou seu treino. No dia 11 regressa a Lemnos e passa a ser comandado pelo Tenente-Coronel Foulon. O Bataillon de Légion d’Orient desembarcou no dia 28 de abril, na praia “S”, na Baía de Morto, no extremo da Península de Galípoli. O seu objetivo era Achi Baba.
Os “Tirailleurs sénégalais”
Embora a designação destes combatentes esteja ligada ao Senegal, a realidade é que foram recrutados em todos os territórios da África subsaariana colonizados pelos Franceses. O nome resulta da sua origem. O corpo de tirailleurs sénégalais foi fundado em 1857 por um decreto de Napoleão III (1808-1873) e as primeiras tropas foram recrutadas no Senegal. Com a grande necessidade de combatentes durante a Primeira Guerra Mundial, o recrutamento passou a ser obrigatório, com escolha dos chefes locais. Esta situação provocou revoltas, por vezes longas, como a Guerra do Bani-Volta, de novembro de 1915 a setembro de 1916 [Les tirailleurs sénégalais -Musée de la Grande Guerra, https://www.museedelagrandeguerre.com/histoire-grande-guerre/tirailleurs-senegalais/].
Estas tropas combateram em África (Togo e Camartões), na Europa (França e Balcãs) e em Galípoli. Estes dois últimos teatros de operações têm condições climatéricas muito diferentes daquelas a que estavam habituados e sofreram muito com as condições de inverno. Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 200.000 tirailleurs sénégalais combateram pela França. Perto de 30.000 morreram em combate.
O último tirailleur sénégalais da Primeira Guerra Mundial, Abdoulaye Ndiaye, morreu com a idade de 104 anos a 10 de novembro de 1998.
Condições de vida dos Aliados em Galípoli
Como em todas as campanhas mais demoradas, os combatentes são afetados por múltiplos fatores, além das ações do inimigo, que podem diminuir o seu estado de prontidão para o combate ou até causar baixas, por vezes numerosas. Na Península de Galípoli, tal como noutros teatros de operações, esses fatores foram causa de grande sofrimento para os combatentes. Os problemas logísticos e um clima desfavorável têm uma influência enorme, por vezes decisiva, na moral das tropas. Ao lermos a história das campanhas e das batalhas não nos apercebemos de como os combatentes são afetados por alguns fatores. Por exemplo, o barulho.
O ruído incessante dos disparos da artilharia e da explosão das suas granadas e do tiro das espingardas e metralhadoras, causam problemas físicos e psicológicos. Causa graves deficiências auditivas, impede o sono, cria uma situação permanente de stress. A perda auditiva é a consequência mais conhecida, mas a situação de stresse permanente obriga o organismo a responder mesmo quando se consegue dormir. Essas consequências são de ordem física, como o aumento da pressão arterial ou maior risco de doenças cardiovasculares, mas também podem ser consequências de saúde psicológica. Associado ao ruído está o choque provocado pelas explosões, que se verificam em qualquer altura e qualquer lugar, causando um clima de medo e ansiedade que é frequentemente agravado pela perda de camaradas.
O terreno em que algumas das unidades estavam instaladas também não proporcionava condições mínimas para descanso das tropas. Além das consequências causadas pelo fogo de artilharia, das espingardas e das metralhadoras turcas, a falta de descanso provocava uma enorme fadiga que causava, por vezes, situações perigosas. Extremamente cansados pela falta de sono, alguns tornavam-se menos vigilantes e adormeciam nos seus postos. A zona de Anzac Cove era onde estas situações eram mais perigosas. As linhas das tropas australianas e neozelandesas encontravam-se no terreno elevado imediatamente a seguir à praia. Isto significava que essas tropas estavam a curta distância do mar, à retaguarda, e dos turcos, à frente, por vezes a três ou quatro dezenas de metros. O descanso necessário era difícil neste terreno e nesta proximidade do inimigo.
As condições climáticas não ajudaram. Aparentemente, as médias de temperaturas são iguais às de muitos outros locais onde se vivia e vive confortavelmente. As condições em que aqueles militares se encontravam é que não ajudavam a suportar qualquer temperatura mais extrema. Também não existiam condições para suportar um tempo chuvoso. O verão tornava-se mais agressivo por causa da falta de água e da facilidade em disseminar doenças. Houve muitos casos de insolação. Mas o inverno causou mais danos. No dia 27 de novembro, a temperatura desceu muito e nevou durante alguns dias. Cerca de 200 homens morreram devido ao frio ou afogados nas correntes de água que se formaram nas trincheiras e nos cursos de água secos. Em Suvla, cerca de 5.000 homens sofreram com úlceras provocadas pelo frio. [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 86] Os soldados turcos, em geral provenientes da Anatólia, onde as condições eram semelhantes ou mais agrestes, estavam mais bem adaptados ao clima da região.
A alimentação fornecida pelos britânicos também não ajudava. Em geral essa alimentação consistia em carne enlatada, biscoitos muito duros e compota muito aguada. Por norma, estas rações só deveriam ser fornecidas por períodos curtos, não por vários meses. Com pouca frequência recebiam açúcar, leite condensado. As tropas francesas tinham melhores rações que os britânicos. Comiam mais vegetais e recebiam pão e vinho. Os turcos tinham acesso a uma maior variedade de alimentos, com muitos produtos frescos locais, embora com falta de carne.
Esta alimentação processada, pobre em nutrientes, contribuiu para o declínio físico das tropas. O moral dos soldados foi afetada e também aumentou a sua suscetibilidade às doenças que se espalhavam rapidamente, principalmente no verão, tanto nas linhas aliadas como turcas. Disenteria, tétano ou feridas infectadas obrigaram à evacuação de milhares de homens. Esta situação agravava-se porque as condições de higiene eram muito más. As latrinas eram montadas a céu aberto. Não existiam equipamentos para banhos e, mesmo que existissem, dificilmente poderiam ser utilizados porque a água era escassa. Portanto, os homens lavavam-se raramente, assim como a roupa que vestiam. A sede e a desidratação eram constantes. Muitas vezes, a única bebida disponível era um pouco de chá preto.
«One of the greatest difficulties here is the shortage of water…I had the first shave for a week and my face was coated with dust and grime I had got through all the recent fighting and trench digging. After I had finished the water in my mess tin it was muddy and I washed my face in that and then had my tea out of the same tin.
Lieutenant F.H Semple»
Os corpos não sepultados constituíam outro problema. Por vezes, quando havia muitos mortos, foi possível chegar a acordo com os turcos para os corpos serem retirados do território entre as linhas de defesa de ambas as partes e serem sepultados. Também constituíam um problema quando, após chuvas mais intensas, os corpos voltavam a aparecer. Antes de serem retirados do campo de batalha, quando tal era permitido, ficavam cobertos por moscas. Estas formavam enxames tão numerosos que os soldados não conseguiam preparar comida que não ficasse imediatamente coberta por moscas. Estes insetos circulavam entre as linhas aliadas e turcas, entre mortos e vivos, e transmitiam assim doenças que atingiam a todos. Os soldados sofriam com as moscas, mas também eram verdadeiramente torturados pelos piolhos. Qualquer mal era transformado rapidamente numa praga que se espalhava em abrigos e trincheiras apertadas e superlotadas onde não existiam condições nem para lavar as mãos [CLEARLY, Michelle Negus, «Flies, filth and bully beef: life at Gallipoli in 1915», La Trobe University, Vitoria, Australia, 2025.04.23, in https://historyguild.org/flies-filth-and-bully-beef-life-at-gallipoli-in-1915/?srsltid=AfmBOopLLcok4f9kqpvNtlzsCutrr2tYyaKQB5JBSM2z-SOFFMjGmITX].