Apontamentos sobre a Campanha de Galípoli - Parte II
A Campanha de Galípoli (2)
Os ataques navais com o objetivo de forçar a passagem no Estreito de Dardanelos fracassaram. A ideia de lançar uma operação puramente naval, revelou-se um erro. Para que os navios progredissem em segurança, o inimigo não poderia controlar o terreno circundante onde instalava as suas armas. Era necessário retirar as forças turcas das margens do Estreito de Dardanelos, tanto da Anatólia como da Península de Galípoli. Além disso, se os navios chegassem a Constantinopla e a Turquia saísse da guerra, seriam necessárias tropas para ocupar o terreno. Neste caso, essas tropas teriam que ser colocadas no terreno através de uma operação anfíbia.
Os desembarques
O Almirante Carden concluiu que a única forma de impedir a utilização da artilharia turca era desembarcar um corpo de tropas para conquistar os fortes e, no dia 12 de março, o Governo britânico nomeou o General Ian Hamilton comandante das tropas expedicionárias nos Dardanelos. Pelas instruções que lhe foram entregues por Kitchener, o exército só deveria intervir se a frota não conseguisse forçar os estreitos. Perante o fracasso do ataque naval do dia 18 de março, foi decidido avançar com a conquista da Península de Galípoli pelo desembarque das forças aliadas. A missão dessa força era a de conquistar a península de Galípoli e limpar o caminho para as forças navais para que ambas convergissem sobre Constantinopla.
As forças aliadas
O corpo de tropas reunido para a Campanha de Galípoli contava com cerca de 80.000 homens. Desta força, 62.000 pertenciam ao Império Britânico, o Mediterranean Expeditionary Force (MEF), e incluía tropas da Austrália e da Nova Zelândia. Os restantes 18.000 eram franceses e formavam o Corps expéditionnaire d'Orient. A totalidade desta força estava organizada em seis divisões e foi colocada sob o comando do General Sir Ian Standish Monteith Hamilton (1853 – 1947). A ordem de batalha para as forças disponíveis a 25 de abril era a seguinte [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 45]:
- 29.ª Divisão, sob o comando do Tenente-General Sir Aymler Gould Hunter-Weston (1864-1940). Era formada por três brigadas:
- 88.ª Brigada de Infantaria, sob comando do Brigadeiro-General Henry Edward Napier (1861-25 de abril de 1915).
- 87.ª Brigada de Infantaria, sob comando do Brigadeiro-General Sir William Raine Marshall (1865-1939);
- 86.ª Brigada de Infantaria, sob comando do Brigadeiro-General Sir Steuart Welwood Hare (1867-1952);
- Royal Naval Division, também conhecida como "63.ª Divisão (Royal Naval)", sob comando do Major-General Sir Archibald Paris (1861-1937). Era formada por três brigadas:
- 1.ª (Royal Naval) Brigade, sob comando do Brigadier-General D. Mercer, RMLI (Royal Marine Light Infantry);
- 2.ª (Royal Naval) Brigade, sob comando do Brigadeiro-General SIR Charles Newsham Trotman (1864-1929);
- 3.ª (Royal Marine) Brigade, sob o comando do Brigadeiro-General Sir George Leslie Aston.
- Corpo de Exército Australiano e Neozelandês (Australian and New Zeland Army Corps - ANZAC), sob o comando do Tenente-General William Riddell Birdwood (1865-1951). Era formado por duas divisões:
- 1.ª Divisão australiana, sob o comando do Major-General William Throsby Bridges (1861 - 18 maio 1915); era constituída por três brigadas de infantaria e um corpo de cavalaria ligeira:
- 1.ª Brigada de infantaria australiana, sob o comando do Brigadeiro-General Percy Neville Owen;
- 2.ª Brigada de infantaria australiana, sob o comando do Brigadeiro-General James Whiteside McCay (1864-1930);
- 3.ª Brigada de infantaria australiana, sob o comando do Coronel Ewen Sinclair-MacLagan (1868-1948);
- 4th Victorian Light Horse (4º Regimento de Cavalaria Ligeira), sob comando do Tenente-Coronel John Keatly Forsyth (1867-1928). Não desembarcou no dia 25 de abril.
- Divisão australiana e neozelandesa, sob o comando do Major-General Sir Alexander Godley (1867-1957). Era constituída por duas brigadas de infantaria e uma brigada de cavalaria ligeira:
- 4.ª Brigada de Infantaria australiana, sob comando do Coronel John Monash (1865-1931);
- Brigada de Infantaria neozelandesa, sob o comando do Coronel Francis Herbert "Harold" Walker;
- Brigada australiana de cavalaria ligeira, sob comando do Coronel Harry Chauvel (1865-1945);
- New Zealand Mounted Rifles Brigade, sob comando do Major-General Sir Edward Walter Clervaux Chaytor (1868-1939). Esta brigada não desembarcou no dia 25 de abril.
- Divisão de infantaria francesa reforçada com outras unidades, sob comando do General Albert d'Amade (1856 – 1941). Mas este era «um corpo de ocupação […] Não tinha a organização nem o equipamento para tomar as praias de assalto.» [SCHIAVON, p. 53] Estava organizada em duas brigadas:
- Brigada metropolitana, sob comando do Général de Brigade Charles Ganeval. A Brigada era formada por dois regimentos:
- 175.º Regimento de Infantaria;
- Regimento composto por Zouaves e tropas da Legião Estrangeira.
- Brigada colonial, sob comando do Coronel Simon-Louis Ruef. Era formada por [SCHIAVON, p. 67]:
- 4.º Regimento de Infantaria Colonial, formado por Batalhões de infantaria colonial e Batalhões de Tirailleurs Sénégalais;
- 6.º Regimento de Infantaria Colonial, formado também por três Batalhões de Infantaria Colonial;
- Uma bateria de artilharia;
- Destacamento de Engenharia.
Os planos de desembarque
O primeiro objetivo desta operação anfíbia era o de desembarcar as forças britânicas e francesas, apoderarem-se das praias e, em seguida, das linhas de alturas que as dominavam. Atingido este objetivo, o seguinte era o de conquistar testas de ponte de 3 a 4 km de largura e neutralizar as baterias de artilharia turcas que aí se encontrassem, para facilitar os próximos desembarques [SCHIAVON, p. 61]. Para além dessas praias, existiam duas posições que era vital conquistar porque dominavam toda a península: o terreno elevado de Achi Baba e de Sari Bair.
Durante o estudo necessário para que o comandante possa tomar uma decisão, são normalmente apresentadas várias modalidades de ação. Este estudo é feito pelo estado-maior que o comandante acompanha de muito perto para estar inteirado de todos os fatores pertinentes e tomar a melhor decisão possível. O caso que estamos a tratar, o desembarque de forças aliadas na Península de Galípoli, foi uma "operação conjunta", isto é, uma operação militar que envolveu mais de um ramo das forças armadas. Neste caso, exigiu uma grande coordenação entre as forças terrestres e as forças navais. Mas também existiam forças de diferentes países, neste caso, o Reino Unido e os seus domínios (Austrália, Nova Zelândia, Terra Nova) e a França, que utilizou tropas oriundas das suas colónias. Tanto os britânicos como os franceses participaram com forças navais e terrestres. Assim, esta operação foi também uma "operação combinada", isto é, uma operação realizada por forças de duas ou mais nações, no âmbito de uma aliança ou coligação.
Numa operação deste tipo, "conjunta" e "combinada", é natural que os respetivos comandantes, da marinha e do exército, do Reino Unido e da França, troquem opiniões sobre as modalidades de ação apresentadas nos estudos. O comandante britânico da marinha, o Almirante John de Robeck (1862-1928), e o comandante francês, Almirante Émile Guépratte (1856-1939), pretendiam que fosse atacado o istmo de Bolayir, desembarcando tropas no fundo do Golfo de Saros. O General Ian Hamilton (1853-1947), comandante britânico das forças aliadas, tinha preferência pelo desembarque no sul da península. Hamilton tinha recebido informações sobre os trabalhos de fortificação que cerca de 10.000 turcos realizavam há cerca de um mês na região de Bolayir e não queria estender demasiado as suas linhas de comunicação, como seria o caso do desembarque no fundo do Golfo de Saros. O tempo de ligação (por mar) entre as bases situadas nas ilhas e o extremo sul da península seriam três horas, enquanto passariam a ser doze horas no caso do desembarque no Golfo de Saros. O comandante das forças francesas, General Albert Gérard Léo d'Amade (1856-1941), propôs desembarcar na Ásia Menor e, a partir daí, avançar para Constantinopla [SCHIAVON, p. 58].
No conselho de guerra reunido a 10 de abril, em Mudros, o General Hamilton comunicou a sua decisão: «secundar a ação da frota nos Estreitos ocupando os cumes da península de onde as baterias turcas batem os nossos draga-minas e, como estes cumes comandam as duas margens do estreito, mesmo a margem asiática mais baixa, a sua ocupação assegurará a passagem das nossas esquadras» [Citado pelo Coronel A. Goutard, La Campagne des Dardanelles, 1915, in SCHIAVON, pp. 58-59]. Para a execução deste plano, previa-se lançar o desembarque principal no extremo sul, enquanto um segundo desembarque seria efetuado mais a norte, em Gaba Tepe, para cortar a retirada dos turcos. Previa-se uma manobra de diversão no istmo da península, no Golfo de Saros e um ataque a Kum Kale, na Ásia Menor, para neutralizar a artilharia ali existente. O dia D - o dia do início da operação - foi fixado para 25 de abril.
Este plano foi elaborado com base em informações sobre o terreno e sobre o inimigo. De acordo com essas informações, era concedido pouco valor às forças turcas por falta de organização. Eram reconhecidas as qualidades dos soldados turcos, mas os relatórios concluíram que, apesar do apoio alemão, o Exército Turco não constituía uma força ofensiva de qualquer valor. «Ela não possui nem uma unidade moral, nem uma unidade nacional para realizar mesmo uma guerra defensiva.» [SHD/GR 20N26 Relatório sobre a situação política e militar da Turquia, Capitão Carrou, 3 de janeiro de 1915, in SCHIAVON, pp. 59-60.] Outros relatórios defendiam o mesmo ponto de vista sobre o Exército Turco. Os acontecimentos iriam provar o contrário. «Assiste-se, com efeito, a um caso clássico de subestimação do adversário, erro que custa geralmente muito caro.» [SCHIAVON, p. 60]
No extremo sul da península existem poucas praias adequadas para o desembarque. A maior dessas praias tem menos de 300 m de largura. Todas as praias estão rodeadas de falésias. Foram escolhidas seis praias para os desembarques. Destes, quatro seriam desembarques verdadeiros, mascarados por duas operações de diversão e uma de deceção. Cada objetivo recebeu um nome de código. Os locais de desembarque foram identificados por uma letra:
S - Operação de diversão na Baía de Morto;
V - Entre o Cabo Helles e Sed el Bahr, junto a um forte turco chamado "Castelo de Espanha";
W - Entre o Cabo Helles e o Cabo Tekke;
X - 2 km para norte do Cabo Tekke;
Y - Operação de diversão na costa norte, mais perto de Krithia;
Z - Quase 20 km a norte do Cabo Helles, na costa norte da península, na região de Gaba Tepe.
[Ver mapa: Locais de desembarque na Península de Galípoli, em 25 de abril de 1915. Imagem em https://www.naval-history.net/MapB1915-Dardanelles.htm]
Este foi o planeamento realizado peloEste foi o planeamento realizado pelo General Hamilton e pelo seu estado-maior. Mas há um planeamento que tem de ser realizado num patamar superior e que, neste caso, falhou. O Conselho de Guerra britânico subestimou a necessidade de um planeamento detalhado para uma campanha anfíbia contra os Turcos. Lord Kitchener e o Estado-Maior Geral Imperial não desenvolveram nenhum plano de operações. No entanto, o próprio Kitchener considerava a Mediterranean Expeditionary Force representava apenas metade da força necessária para conquistar a península de Galípoli. De qualquer forma, os estados-maiores não dispunham de informações sobre a ordem de batalha dos Turcos ou a topografia detalhada do terreno da península. «Em 1915, o conhecimento disponível sobre a Turquia, no War Office Intelligence Branch limitava-se a um manual do Exército Turco e dois guias turísticos.» [EVANS, abril 2000, p. 10]
O planeamento não contemplou de forma correta a artilharia a atribuir a esta campanha. Por causa das necessidades para a Frente Ocidental, a artilharia disponível era pouca e com poucas munições. As cinco divisões atribuídas para a campanha tinham em média 118 bocas de fogo de artilharia, ou seja, um terço do que estava previsto nos quadros orgânicos. Havia uma quase total falta de obuses, de morteiros de trincheira e granadas HE (High Explosive). Estas deficiências tornaram a força expedicionária muito dependente dos fogos da artilharia naval que, com as trajetórias planas ou muito pouco curvas não eram adequados para bater as trincheiras turcas. [EVANS, abril 2000, p. 11]
A preparação das forças
«O embarque do material nos portos de França e de Inglaterra foi efetuado sem método […] Era urgente repor a ordem no carregamento agrupando em cada navio os diversos elementos de uma força capaz de sobreviver após a chegada a terra. Ora, era impossível proceder a esta remodelação no porto de Mudros desprovido de todos os equipamentos. Alexandria, pelo contrário, estava admiravelmente dotada de cais, gruas, etc. E os arredores do local prestam-se muito bem ao acantonamento de tropas e exercícios de treino.» [Comentário do General Guépattre, citado pelo Coronel A. Goutard, in SCHIAVON, p. 53]
O General Hamilton decidiu reorganizar as forças disponíveis em Alexandria, no Egito, e todas as forças que se encontravam embarcadas foram para ali enviadas, onde chegaram a 28 de março. Os homens instalaram-se nos acampamentos enquanto as cargas dos navios eram descarregadas e voltavam a ser carregadas com nova distribuição. Os estados-maiores desenvolviam planos servindo-se de cartas turísticas compradas nos bazares do Cairo, já que as que possuíam datavam do tempo da Guerra da Crimeia (1853-1856). Mais tarde, seriam copiadas cartas turcas capturadas nas primeiras operações. Esta atividade demorou cerca de 20 dias [SCHIAVON, pp. 53-54].
Com estas medidas, foi possível reorganizar as forças para o desembarque nas praias, mas perdeu-se o fator surpresa, dando aos turcos tempo para reagirem e melhorarem as suas defesas. A 24 de março, Essad Paxá decidiu criar um novo exército - o V Exército - para a defesa dos Dardanelos. O comando do V Exército foi atribuído ao General Liman von Sanders que estabeleceu o seu quartel-general na povoação de Galípoli e reorganizou as defesas. «Os Ingleses deixaram-me felizmente quatro semanas para reorganizar a defesa e fazer vir de Constantinopla uma nova divisão.» Seis divisões turcas instalam-se em posições defensivas [SCHIAVON, p. 55].
A reorganização das forças em Alexandria causou a perda de surpresa, mas houve outras falhas que ajudaram a defesa de Galípoli. As falhas de segurança foram igualmente graves. Quando as forças expedicionárias se reuniram em Alexandria, a segurança e o sistema de contrainformação (para impedir o inimigo de ter acesso a informações sobre as nossas atividades, dispositivos, ordens de batalha, etc) eram tão fracos que «a imprensa egípcia iniciou a publicação detalhada das forças britânicas e do seu destino». Embora o destino das forças reunidas em Alexandria passasse a ser conhecido - o objetivo estratégico, a península de Galípoli - já os elementos táticos - as praias de desembarque e a distribuição das forças - foram mantidos em segredo [EVANS, abril 2000, pp. 11-12].
Os desembarques
No dia 25 de abril, perto das 06H00, uma frota com mais de 240 embarcações estava à vista da Península de Galípoli. Esta frota transportava cerca de 80.000 homens que iriam desembarcar nas praias da Península e na margem sul do estreito de Dardanelos, em Kum Kale. A artilharia naval apoiava o desembarque com fogo ininterrupto sobre o alto das falésias.
O desembarque na Praia “W”
Os desembarques na praia "W" foram executados por forças da 29.ª Divisão britânica, sob o comando do Tenente-general Sir Aylmer Hunter-Weston. Participaram no desembarque o 1.º Batalhão do Lancashire Fusiliers (Regimento) da 86.ª Brigada e o 4.º Batalhão do Worcestershire Regiment da 88.ª Brigada. Esta praia era defendida por duas companhias do 2.º Batalhão do 26.º Regimento de Infantaria turco, menos alguns homens que tinham sido enviados para defenderem a praia "X". As metralhadoras e o arame farpado, este por vezes escondido na água, constituíram as principais dificuldades para as forças atacantes.
Oito vedetas puxando cada uma quatro barcaças avançaram em direção à praia "W". Os defensores turcos aguardam que a primeira barcaça chegasse à praia para abrirem fogo. Dezenas de metralhadoras turcas entraram em ação. Os remadores esforçam-se para chegar a terra o mais rapidamente possível. Os homens são atingidos pelo tiro das metralhadoras ainda antes de saírem das barcaças. Alguns atiram-se ao mar e têm muita dificuldade em avançar devido às redes de arame farpado ocultas pela água. Os que conseguem chegar à margem correm para o sopé das falésias onde os turcos não conseguem atingi-los.
A meio da manhã, o Lancashire Fusiliers foi reforçado com o 4.º Batalhão do Worcestershire Regiment e começaram a escalar as falésias, penetraram nas trincheiras turcas e ocuparam-nas. Após o meio-dia, o desembarque prosseguiu sobre uma praia um pouco mais segura, mas com uma largura de apenas 200 m. O General Hamilton ordenou que a praia "W" fosse designada como Lancashire Landing [HAYTHORNTHWAITE, Gallipoli 1915, pp. 41-44].
[Ver mapa das praias do cabo Helles e os avanços de 26 e 27 de abril. O mapa destaca as posições da Ravina de Gully (Gully Ravine) e também Krithia e Achi Baba. Imagem em https://medium.com/destrinchando-battlefield/galipoli-a9439a920106]
O desembarque na Praia “X”
Os desembarques na praia "X" foram executados por forças da 29.ª Divisão britânica. Desembarcou o 2.º Batalhão do Royal Fusiliers da 86.ª Brigada a que se seguiu o 1.º Batalhão do Border Regiment e o 1.º Batalhão do Royal Inniskilling Fusiliers, ambos da 87.ª Brigada. As tropas britânicas contaram com o apoio da artilharia naval. A praia consistia numa faixa de areia de 180 m de largura e uma escarpa com cerca de 12 m de altura. A praia era defendida apenas por 12 combatentes turcos.
Na Praia X, o desembarque foi bem-sucedido graças ao fogo de dois navios de guerra e às fracas defesas turcas. O couraçado Implacable e o cruzador Dublin aproximaram-se da costa e destruíram as defesas turcas com os tiros da sua artilharia de grande calibre. Assim, as forças britânicas desembarcaram com muito poucas baixas e rapidamente conquistaram uma testa de ponte nas zonas mais elevadas, onde se fortificaram. As forças turcas lançaram um contra-ataque, mas foram repelidas. Com a testa de ponte instalada, as unidades iriam avançar para sul para atacar os defensores turcos pela retaguarda e estabelecer a ligação com as forças desembarcadas na praia "W" [HAYTHORNTHWAITE, Gallipoli 1915, pp. 41-44].
O desembarque na Praia “V”
Um velho cargueiro que servia para transportar carvão, o River Clyde, foi transformado para transportar os homens do 1.º Batalhão do Royal Munster Fusiliers e uma companhia do 1.º batalhão do Royal Dublin Fusiliers, ambos da 86.ª Brigada e duas companhias do 2.º Batalhão do Hampshire Regiment, da 88.ª Brigada. Também tiveram o apoio de uma companhia do Royal Engineers. Todas estas unidades pertenciam à 29.ª Divisão de Infantaria. A bombordo e a estibordo do River Clyde, seriam rebocadas embarcações de transporte de pessoal. A ideia era sacrificar o navio que se dirigiria em direção à costa para encalhar na praia de desembarque. Os homens deviam abandonar o navio tão rapidamente quanto possível pelas aberturas que tinham sido feitas nos lados do casco. Nas partes mais elevadas do navio, estavam instaladas doze metralhadoras, protegidas por sacos de areia, para apoiarem o desembarque. Enquanto o contingente do River Clyde desembarcava, os 1.500 homens do Royal Dublin Fusiliers seriam transferidos dos navios que os transportavam para 24 barcaças puxadas por 6 rebocadores.
A artilharia do HMS Albion bateu as defesas turcas durante uma hora enquanto os homens do 1st Royal Dublin Fusiliers eram transferidos para as barcaças que os levariam à praia. Este transbordo demorou muito mais tempo do que o esperado. O transbordo não tinha sido estudado nem treinado em grande escala. Quando nasceu o dia, pouco depois das 06H00, a praia ficou à vista. Os defensores turcos não reagiram durante a aproximação das embarcações aliadas, mas, no momento em que estas atingiram a praia, iniciaram um fogo cerrado. Ao mesmo tempo, os fuzileiros britânicos aperceberam-se que a praia também está defendida por redes de arame farpado e algumas destas redes não eram visíveis porque estavam colocadas debaixo da água. Algumas embarcações ficaram bloqueadas a alguns metros da costa. As metralhadoras turcas atingiram numerosos soldados antes que eles conseguissem começar a desembarcar. Os homens atiraram-se à água, feriram-se no arame farpado imerso, alguns afogaram-se sob o peso do equipamento que transportam. Outros conseguiram encontrar um pouco de terreno que lhes oferecesse proteção. Estas primeiras vagas sofreram baixas da ordem dos 50%.
A algumas dezenas de metros destes acontecimentos, o River Clyde não teve melhor sorte. As rochas, que não estavam assinaladas nas cartas marítimas, fizeram com que o River Clyde encalhasse, pelas 06H30, a algumas dezenas de metros da praia. Sob o fogo turco, foram trazidas as barcaças e colocadas lado a lado por forma a formarem uma espécie de pontão para permitir aos homens desembarcarem. A corrente forte dificultou as operações para a montagem do pontão. Alguns homens desembarcaram, mas foram batidos pelas metralhadoras turcas. Alguns chegaram à praia, mas nada mais podiam fazer do que protegerem-se e aguardarem que a artilharia naval neutralizasse as armas inimigas. Embora as metralhadoras do River Clyde mantivessem os turcos à distância, estes continuaram a fazer fogo sobre poucas tropas desembarcadas.
Pelas 09H30, apenas cerca de 200 homens se encontravam na praia. O comandante da 29.ª Divisão, a bordo do HMS Euryalus, sem estar informado sobre a forma como estavam a decorrer as operações nas praias, deu ordem para o desembarque da segunda vaga, mas grande parte das embarcações que deviam transportar o pessoal não tinham ainda regressado da primeira vaga. O comandante da 88.ª Brigada, Brigadeiro-general Napier, dirigiu-se para a praia numa das embarcações disponíveis, mas foi mortalmente atingido pelo fogo inimigo. Durante o dia foi feita uma nova tentativa de desembarcar os homens retidos no River Clyde. O número de homens na praia subiu para os 400, mas foi decidido esperar pela noite para desembarcar as restantes forças. Depois das 20H00 foram retomadas as operações de desembarque, então com sucesso. Contudo, os objetivos iniciais ficam limitados à instalação das tropas numa posição defensiva na praia e terreno circundante. «O mar na Praia "V" tornou-se vermelho com o sangue até uma distância de 50 jardas [45,5 m] da praia» {HAYTHORNTHWAITE, Gallipoli 1915, pp. 44-45].
O desembarque na Praia “Z”
As forças que desembarcaram na Praia "Z" pertenciam ao Australian and New Zealand Army Corps (ANZAC). O desembarque inicial foi feito por forças da 1.ª Divisão australiana, primeiro a 3.ª Brigada a que se seguiu o desembarque das 1.ª e 2.ª Brigadas. As últimas forças a desembarcar foram a Brigada Neozelandesa e a 4.ª Brigada australiana. As três primeiras brigadas que desembarcaram enfrentaram as forças do 2.º Batalhão do 27.º Regimento de Infantaria turco, com uma bateria de artilharia de montanha a norte de Gaba tepe e quatro obuses de 15 mm a sul. A Praia “Z” foi a zona de desembarque em que os reconhecimentos foram mais fracos. A praias da zona estavam rodeadas por penhascos íngremes, um terreno de acesso difícil.
Os ANZAC embarcaram às 03H00 nas barcaças rebocadas por barcos a motor e dirigiram-se para a costa. No entanto, a escuridão da noite e a ausência de referências levou-os para o local errado. Em vez de desembarcarem no local previsto, desembarcaram mais a norte numa praia muito estreita, no sopé de falésias. Este erro teve a sua parte vantajosa porque os turcos tinham fortificado a região de Gaba Tepe, onde estava previsto o desembarque. No local onde, por engano, desembarcou a 3.ª Brigada australiana, alguns soldados turcos fizeram fogo de espingarda, mas a praia foi rapidamente tomada pelas forças australianas. Isto facilitou o movimento inicial das tropas australianas, que escalaram as falésias e instalaram-se defensivamente na zona elevada.
A 19.ª Divisão de Infantaria turca, sob o comando de Mustafa Kemal, marchou de Boghali para a região do desembarque. Ao analisar a situação, Mustafa Kemal rapidamente compreendeu que o terreno vital era o cume de Sari Bair e o monte Chunuk Bair que permitiam dominar toda a posição central da península. Mustafal Kemal deslocou para a região dos desembarques todas as forças disponíveis e solicitou reforços. As forças turcas lançaram um contra-ataque que os australianos, já com 12.000 homens desembarcados, conseguiram repelir. No entanto, a testa de ponte onde se encontravam estes homens era pequena. Sem conseguirem alargar o terreno conquistado, também não podiam dispersar as forças desembarcadas e esta acumulação de homens tornava-os mais vulneráveis ao fogo de artilharia turco. Apenas podiam construir trincheiras.
O desembarque na Praia “S”
O desembarque na Praia “S” foi um desembarque de diversão. O 2.º Batalhão do Wales Fusiliers Regiment, da 87.ª Brigada, da 29.ª Divisão, apoiado por um destacamento de engenharia, desembarcou com poucas baixas, em comparação com as outras praias. Como, ao contrário do que sucedia na generalidade das praias, as posições defensivas turcas eram visíveis a partir do mar, o bombardeamento naval foi muito mais efetivo e as defesas turcas ficaram muito enfraquecidas. O desembarque foi feito às 07H30 e, pelas 10H00, as principais defesas turcas tinham sido capturadas. Em seguida organizaram posições defensivas e conseguiram repelir os contra-ataques realizados pelas forças turcas.
O desembarque na Praia “Y”
O desembarque nesta praia realizou-se sem baixas significativas, já que os turcos não esperavam qualquer ação neste sector. A praia era muito estreita e rodeada por um penhasco de 60 metros que foi escalado sem problemas. As forças britânicas instalaram-se nos terrenos elevados sem problemas. No entanto, enquanto as tropas aliadas se reagrupam e escalavam os penhascos, os turcos movimentaram importantes reforços que se encontravam a pouca distância e, ao longo do dia, as baixas foram sendo cada vez mais numerosas.
Por duas vezes, os comandantes das unidades desembarcadas solicitaram ordens ao General Hunter-Weston, mas não obtiveram resposta. O plano do General Hamilton em desembarcar cerca de 2000 homens na Praia “Y” para marcharem através da península e juntarem-se às tropas desembarcadas no extremo sul, atacando os defensores turcos pela retaguarda e, desta forma, aliviando a pressão sobre as forças desembarcadas no extremo sul da península. Na tarde do dia do desembarque, os turcos lançaram um contra-ataque que se prolongou por toda a noite.
Como o desembarque na Praia “Y” era um ataque de diversão e, portanto, não era esperado permanecer muito tempo naquelas posições, as forças britânicas não tiveram a preocupação de estabelecer boas posições defensivas e, por isso, sofreram pesadas baixas. As tropas britânicas cavaram abrigos e trincheiras para manterem a posição durante o dia e embarcarem a coberto da noite. Esta segunda operação de diversão teve o mérito de atrair importantes reservas turcas, mas à custa de baixas elevadas. Cerca de 50% das tropas desembarcadas morreram ou foram feridas.
O desembarque em Kum Kale
O Coronel Rueff comandava a Brigada Colonial francesa. Esta brigada era formada pelos três batalhões de infantaria do 6.º Regimento de Infantaria Colonial. A missão recebida pelo Coronel Rueff no dia 19 de abril era a de desembarcar a sua brigada na costa da Ásia Menor, na região de Kum Kale, ocupar a costa que tinha domínio sobre as praias onde se fariam os desembarques principais, fixar as tropas turcas para evitar que estas reforçassem as forças na Península de Galípoli e neutralizar as baterias de artilharia que ameaçavam os navios aliados que entrassem no Estreito de Dardanelos. A Brigada do Coronel Rueff tinha um efetivo de 4.000 homens e sabia-se que os turcos tinham na região cerca de 30.000. Perante a impossibilidade de manter forças no terreno por muito tempo, o General Hamilton deu ordem para apenas desembarcarem as tropas estritamente necessárias e com o equipamento reduzido ao mínimo indispensável.
Ao início da manhã, os navios franceses Jauréguiberry, Henri IV e Jeanne d’Arc, e o navio russo Askhold, aproximaram-se da costa e abriram fogo sobre as posições turcas em Kum Kale. A ordem para desembarcar chegou às 06H15, quando se encontravam a 2 km da costa. As primeiras tropas chegaram à costa às 10H15 e desembarcaram junto a um forte sobre o qual ignoram até que ponto estava defendido. Os turcos abriram fogo sobre as tropas francesas que sofreram numerosas baixas. O forte junto do qual desembarcaram as primeiras tropas é tomado de assalto. Os turcos recuam e os combates estendem-se pelas ruas de Kum Kale. As restantes tropas desembarcaram em segurança. Kum Kale ficou em poder das forças francesas. Pelas 14H00, as forças francesas instalam-se defensivamente, desembarcaram e instalaram uma bateria de artilharia de 75 mm e resistiram a cinco contra-ataques turcos.
Após controlar Kum Kale, a Brigada do Coronel Rueff movimentou-se para sul para destruir as baterias turcas em Orkhanieh e Yeni Shehr que faziam fogo sobre as tropas que desembarcaram na Península de Galípoli. Nestas posições, os turcos não ofereceram resistência. Mais de 500 oficiais e praças rendem-se. O sucesso francês na Ásia Menor ultrapassou as expectativas. O General Hamilton deu ordem ao General Amade para reembarcar as tropas na Ásia Menor. No dia 26, o Coronel Rueff recebeu a ordem para reembarcar, o que foi executado no dia seguinte à tarde. As baixas francesas foram de 19 oficiais e 171 praças (sargentos, cabos e soldados) mortos, e 13 oficiais e 575 praças feridos [SCHIAVON, 2021, p. 70].
Apesar dessas baixas, as operações militares dos franceses na Ásia Menor foram um sucesso. O General Hamilton comunicou a Kitchener o sucesso da operação, mas também explicou o seu conceito: «Não somos suficientemente fortes para atacar os dois lados do estreito.» [SCHIAVON, 2021, p. 70]
As operações terrestres
Apesar das dificuldades encontradas e dos erros cometidos, as tropas que desembarcaram conseguiram instalar-se no terreno conquistado, com exceção dos que desembarcaram na praia "Y", onde reinou sempre alguma confusão. A praia “Y” foi evacuada no dia a seguir ao desembarque. De 2.000 homens desembarcados na praia “Y”, cerca de 700 foram mortos, feridos ou desaparecidos. No conjunto das praias, «quase 30.000 homens foram desembarcados, apesar das baixas pesadas [...] o avanço determinado a partir das praias, durante a noite, poderia ter permitido alcançar os objetivos territoriais inicialmente previstos; mas a paralisia do comando central continuou.» [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 49]
A ordem dada para as forças manterem o terreno conquistado, cavando abrigos e trincheiras, marcou o resto da campanha. Estava perdido o elemento surpresa, o Quinto Exército turco tomava as medidas necessárias para defender o terreno, impedir os invasores de alargarem as testas de ponte ou, se possível, obrigá-los a renderem-se ou reembarcarem. A campanha pensada para contornar a enorme linha de trincheiras, na Europa, que estava a impedir uma ação decisiva e a transformar o conflito numa guerra de atrito, estava a tornar-se igualmente numa guerra de trincheiras.
À semelhança do que aconteceu na Frente Ocidental, na impossibilidade de efetuar manobras de envolvimento, realizaram-se ataques frontais. Perante a ineficácia destes ataques, que foram acompanhados por algumas operações navais, a resposta foi a de desembarcar mais forças. No dia 25 de abril de 1915 foram empenhadas na campanha cinco divisões. Entre 6 e 8 de agosto, realizaram-se novos desembarques. No fim da campanha, em janeiro de 1916, tinham sido empenhadas quinze divisões, quase 490.000 homens. Assim, ao longo da campanha foram recebidas mais unidades e a organização foi alterada. A incapacidade de resolver o problema levou ao afastamento do General Ian Hamilton a 16 de outubro de 1915 e à nomeação do General Sir Charles Carmichael Monro (1860-1929) para o seu lugar.
Para melhor compreensão dos acontecimentos, estes serão apresentados por ordem geográfica e, em cada um dos espaços identificados, por ordem cronológica. Sendo assim, podemos identificar duas áreas: a região de Helles, no extremo sul da Península de Galípoli e a região da baía de Suvla e a zona imediatamente a sul, que ficou conhecida como ANZAC Cove. Na região de Helles situam-se as praias que receberam o nome de código "Y", "X", "W", "V" e "S". Na região da baía de Suvla ou ANZAC Cove situa-se a praia "Z".
As operações na região de Helles
Numa posição central frente às trincheiras que as tropas aliadas e turcas foram construindo, situa-se a povoação de Krithia (hoje Alçıtepe), antiga vila grega. Nesta região registaram-se três batalhas importantes que ficaram conhecidas como Batalhas de Krithia:
- Primeira Batalha de Krithia, a 28 de abril, em resposta a um contra-ataque turco. Após os desembarques nas praias de Helles, as forças aliadas viram-se confrontadas com um inimigo que soube oferecer resistência, contrariamente ao que os responsáveis britânicos pensavam. A batalha terminou com uma derrota dos Aliados que sofreram 21% de baixas e tiveram que aprofundar as suas defesas (trincheiras) [DUFFY, Michael, «The First Battle of Krithia, 1915», in https://www.firstworldwar.com/battles/krithia1.htm, visto em 2025-11-11].
- Segunda Batalha de Krithia, de 6 a 8 de maio; ataque dos Aliados que fracassou. Empenhada uma força maior do que na batalha anterior, os Aliados sofreram 26% de baixas [MCLACHLAN, Mat, «The Second Battle at Krithia», in https://wm.awm.gov.au/read/second-battle-krithia, visto em 2025-11-11].
Terceira Batalha de Krithia, a 4 de junho; ataque frontal que resultou num novo fracasso britânico. Nesta batalha, na força britânica, participaram forças indianas. As forças britânicas e francesas sofreram cerca de 15% de baixas. As forças turcas sofreram entre 10 e 16% de baixas. [DUFFY, Michael, «The Third Battle of Krithia, 1915», in https://www.firstworldwar.com/battles/krithia3.htm, visto em 2025-11-11]
Além destas três batalhas, os confrontos mais importantes, verificaram-se outros combates. Três dias após a Primeira Batalha de Krithia (28 abril) as forças turcas lançaram um contra-ataque com o objetivo de empurrar os Aliados para o mar. O ataque turco começou às 22H00 de 1 de maio, mas foi repelido pelos Aliados. No dia 3 de maio à noite, os turcos lançaram novo ataque que foi igualmente repelido.
A 28 de junho de 1914, a 29.ª Divisão britânica, sob o comando do Major-General Henry de Beauvoir de Lisle (1864-1955), reforçada com a 29.ª Brigada Indiana e com a 52.ª Divisão britânica, atacou ao longo do Gully Ravine Spur. A Batalha de Gully Ravine terminou com um fracasso dos Aliados e com pesadas baixas. A 12 de julho de 1915, foi feita uma tentativa final de tomar Achi Baba, com as forças Aliadas em Helles reforçadas com uma nova divisão. O ataque não teve sucesso – apenas 320 metros foram conquistados – e, após dois dias de combates, o General Hunter-Weston desistiu da tentativa. A 20 de julho, por motivo de doença, Hunter-Weston foi evacuado. O comando do VIII CE foi então entregue ao Tenente-General Sir Frederick Stopford, de 17 a 24 de Julho de 1915, ao Major-General William Douglas, de 24 de Julho a 8 de Agosto de 1915 e ao Tenente-General Sir Francis John Davies (1864-1948), a partir de 8 de Agosto de 1915 até à evacuação final do cabo Helles em janeiro de 1916.
Entre estes confrontos principais, houve outros de menor dimensão e escaramuças constantes. A Terceira Batalha de Krithia servir-nos-á de exemplo da forma como decorreram a generalidade dos confrontos na Península de Galípoli.
Terceira Batalha de Krithia
A Terceira Batalha de Krithia ocorreu em 4 de junho de 1915. As duas primeiras batalhas de Krithia (28 de abril e 6 a 8 de maio) ocorreram em terreno onde os trabalhos de proteção (abrigos, trincheiras, etc.) ainda não tinham sido realizados. No final de maio, estavam traçadas as linhas de trincheiras aliadas e turcas. Essas proteções, no entanto, não eram tão completas e eficazes como as que se encontravam na Frente Ocidental.
Após os desembarques iniciados no dia 25 de abril, foram atribuídas mais unidades para reforçar a força dos Aliados. Em maio, as unidades britânicas em Helles formaram o British Army Corps que em junho recebeu a designação de VIII CE (Oitavo Corpo de Exército). O comando desta grande unidade foi entregue ao Tenente-General Hunter-Weston, cargo que desempenhou até 17 de julho de 1915. A composição do VIII CE era a seguinte:
- 29.ª Divisão, sob comando do Major-General Beauvoir De Lisle (1864-1965), desde 24 de maio.
- 42.ª Divisão (East Lancashire), sob comando do Major-General Sir William Douglas (1858-1920).
- 52.ª Divisão (Lowland), sob comando do Major-General Granville George Algernon Egerton (1859-1951). Esta divisão só desembarcou na península de Galípoli durante o mês de junho. Só entrou em combate a partir de 28 de junho.
- Royal Naval Division, sob comando do Major-General Archibald Paris (1861-1937).
- 29.ª Brigada Indiana de Infantaria (Indian Expeditionary Force G), sob comando do Brigadeiro-General Herbert Vaughan Cox (1860-1923). Esta brigada era formada por um batalhão de atiradores sikhs e três batalhões de atiradores gurkhas.
- Corps of Royal Engineers.
As forças francesas do Corps Expéditionnaire d'Orient eram formadas pelas 1ª e 2.ª Divisões e encontravam-se sob comando do General Henri Gouraud (1867-1946), e continuaram na ala direita do dispositivo aliado em Helles. Tratava-se de uma força muito heterogénea pois era formada por Tirailleurs Sénégalais (atiradores Senegaleses), Zouaves (unidades de infantaria leve originalmente formadas por argelinos), Unidades da Legião Estrangeira (Légionnaires) e Infantaria Francesa Metropolitana.
O objetivo final de todas as ofensivas na região de Helles era Achi Baba (Alçı Tepe), o pico montanhoso que dominava todo o sul da península, cerca de 2 km atrás de Krithia. Cerca de 30.000 homens foram empenhados nessa operação, dois terços no ataque inicial. Do outro lado, encontravam-se entre 25.000 a 28.000 turcos em posições bem preparadas e dispondo de 86 bocas de fogo de artilharia [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 61]. As unidades atacantes foram dispostas, da esquerda para a direita, da seguinte forma:
- 29.ª Brigada Indiana, reforçada com o 1º Batalhão dos Fuzileiros de Lancashire (da 29ª Divisão) - Atacaram ao longo de Gully Spur e Gully Ravine;
- 29ª Divisão - Atacou entre Gully Ravine e Fir Tree Spur;
- 42ª Divisão (East Lancashire) - Atacou entre Fir Tree Spur e Kirte Dere;
- Divisão Naval Real - Atacou subindo Achi Baba Nullah (também conhecido como Kanli Dere ou Bloody Valley);
- Contingente Francês - Atacou na extrema direita, ao longo de Kereves Spur, na costa dos Dardanelos.
O plano previa que o ataque fosse lançado em duas fases. A primeira fase tinha por objetivo capturar as trincheiras turcas e obrigar os combatentes turcos a recuar para zonas menos fortificadas. A segunda fase previa continuar o ataque em direção a Achi Baba. As operações começaram com uma preparação de artilharia que terminou às 12H00 de 4 de junho. A artilharia não era numerosa. No total, tinham desembarcado na península, em Helles e em ANZAC Cove, apenas 78 bocas de fogo. Havia escassez de munições e não eram as mais adequadas para a ação a desenvolver.
[Ver mapa – Terceira Batalha de Krithia – diagrama das trincheiras em 3 de junho de 1915. Imagem em https://www.patrickmileswriter.co.uk/calderonia/?p=2937&cpage=1, visto em 2025.11.29]
Neste quadro, a preparação da artilharia foi feita em duas fases. A primeira começou às 08H00 e durou até às 11H20. Quando as posições começaram a ser bombardeadas, os combatentes turcos recuaram para outras posições e aguardam o fim da preparação da artilharia. Quando esta terminou, às 11H20, regressaram às suas posições de combate. Foi nessa altura, às 11H30, que teve início a segunda fase da preparação da artilharia que foi desencadeada quando muitos dos combatentes turcos se encontravam completamente desprotegidos. Nesta fase, os turcos sofreram um número elevado de baixas.
Às 12H00 de 4 de junho teve início o ataque. Noventa minutos mais tarde, apenas a 42.ª Divisão tinha atingido os seus objetivos.
- A 29.ª Brigada Indiana sofreu pesadas baixas e o seu avanço foi detido. O 14º Batalhão dos Sikhs de Ferozepore do Rei George perdeu 380 dos seus 514 homens.
- A 29.ª Divisão foi detida frente às posições fortificadas turcas que tinham sobrevivido ao bombardeamento de artilharia.
- A 42.ª Divisão, a única unidade a obter sucesso, alcançou rapidamente as trincheiras turcas, conquistou-as e avançou para além delas. No total avançou cerca de 910 m.
- A Royal Naval Division conseguiu avançar e capturar as trincheiras otomanas e avançar para além delas, mas não conseguiu manter as posições conquistadas e acabou por recuar para as posições iniciais.
- A Divisão francesa foi detida. Algumas tentativas para retomar o avanço resultaram em fracasso.
Perante estes resultados, os Generais Hunter-Weston e Gourad concordaram em utilizar as reservas, mas, não foi aproveitada vantagem oferecida pelo sucesso do ataque da 42.ª Divisão para lançar uma ação decisiva. Pelo contrário, ao aplicar as reservas no reforço dos ataques nos flancos do dispositivo, onde a 29.ª Brigada Indiana e a 29ª Divisão britânica, à esquerda, e a Divisão francesa, à direita, tinham fracassado, desperdiçaram forças onde as condições eram menos desfavoráveis em vez de explorar o sucesso obtido ao centro. O ataque nos flancos continuou lento, indeciso e com perdas severas.
Às 16H00, o General Hunter-Weston deu ordem para as suas unidades manterem as posições e consolidaram a sua defesa. Contudo, os contra-ataques turcos obrigaram a recuar a 127.ª Brigada (de Manchester), da 42.ª Divisão. Já não existiam reservas para aplicar em lado nenhum. No fim da batalha, os Aliados tinham conquistado muito pouco terreno. A sua nova linha de frente apenas tinha avançado 200 a 250 metros. Ambos os lados sofreram numerosas baixas: 4.500 britânicos, 2.000 franceses e 9.000 a 10.000 turcos.
A Royal Naval Division empenhou em combate alguns carros blindados (não confundir com carros de combate ou, em língua inglesa, tanks). Esta organização é, até certo ponto, ilustrativa da fase experimental da introdução de novas tecnologias na instituição militar. A subunidade que forneceu apoio de carros blindados durante as operações da Royal Naval Division foi a Royal Naval Armoured Car Division. Esta unidade não era uma subunidade orgânica da Royal Naval Division, mas sim uma formação terrestre pioneira desenvolvida e operada sob a alçada do Royal Naval Air Service (RNAS), formada em julho de 1914, e que constituía o braço aéreo da Royal Navy. O RNAS tinha como missões principais o reconhecimento aéreo e o patrulhamento costeiro. Mais tarde participou na defesa aérea. A necessidade de mobilidade terrestre blindada surgiu no seio do Royal Naval Air Service, não como um requisito de infantaria, mas como uma extensão lógica do seu papel de reconhecimento aéreo. O RNAS necessitava de veículos terrestres rápidos para apoiar as suas operações e também para resgatar pilotos abatidos que aterrassem em território controlado pelo inimigo.
As operações na região de Suvla
As forças do ANZAC desembarcaram na enseada de Ari Burno, mais tarde conhecida como Anzac Cove, uma praia estreita batida pelo fogo das armas turcas. Esta zona situa-se cerca de 2 km a norte de Gaba Tepe, onde estava planeado desembarcarem. Em vez de encontrarem pequenas colinas encontraram falésias difíceis de transpor. O seu avanço para a cordilheira Sari Bair foi detido por uma divisão turca sob comando do Coronel Mustafa Kemal (1881-1938). As forças do ANZAC foram detidas e obrigadas a cavar abrigos e trincheiras que lhes permitissem conservar o terreno. Por esta razão ficaram conhecidos como os diggers (escavadores). No dia 19 de maio, as tropas do ANZAC defenderam com sucesso as suas posições perante um forte ataque turco. Os Aliados causaram tantas baixas entre os turcos, que alguns dias mais tarde foi estabelecida uma trégua para permitir aos turcos retirarem os seus mortos do campo de batalha.
No dia 6 de agosto, o General Hamilton com a sua força aumentada para onze divisões, tentou quebrar a situação de impasse, desembarcando mais forças na Baía de Suvla, cerca de 2 km a norte de Anzac Cove. Os resultados não foram os esperados. Ainda em agosto, foram lançados novos ataques pelas forças em Anzac Cove e na Baía de Suvla, tendo como objetivo Chunuk Bair, mas estas operações fracassaram. No dia 21 de agosto, as tropas do General Stopford e o ANZAC atacaram "Hill 60" e "Scimitar Hill". O objetivo era juntar as duas forças e conquistar as zonas altas da Península, mas, novamente, não tiveram sucesso. Esta foi a última ação significativa, da iniciativa dos Aliados, na Península de Galípoli.
Apesar de a artilharia turca ter poucas munições, mantinham vantagem sobre a artilharia aliada. Esta tinha pouco espaço para organizar as suas posições de tiro. Além deste constrangimento, a retirada dos principais navios devido à ação dos submarinos também contribuiu para diminuir o apoio de fogos das tropas em Anzac Cove. A falta de espaço e, frequentemente, as condições do mar, também dificultavam o desembarque dos abastecimentos. Embora tivessem sido organizados depósitos para abastecimentos e alguns reservatórios para água, esta era sempre pouca. A situação era difícil porque toda a área se encontrava ao alcance da artilharia turca.
Na região, as tropas turcas continuavam a melhorar o seu sistema de trincheiras. As posições no cimo das ravinas, que só pela sua localização já eram naturalmente fortes, foram fortificadas. A posição de Long Pine foi transformada num ponto forte muito bem defendido. A camuflagem bem conseguida permitiu às forças turcas ocultar as suas posições de artilharia das ações de reconhecimento aéreo britânico. A testa de ponte do ANZAC foi continuamente sujeita à ação de pequenas escaramuças com tropas turcas, à ação dos atiradores especiais (snipers) turcos e aos bombardeamentos de artilharia.
Para além destas ações contínuas, mas de pequena dimensão, registaram-se dois combates de maior dimensão. O primeiro, a 28 de junho, lançado pelo ANZAC na sua ala direita, teve como objetivo atrair as forças turcas para impedi-los de transferir tropas para se oporem aos ataques executados pelos Aliados em Helles. Os turcos lançaram um contra-ataque na noite de 29/30 de junho, mas tiveram baixas muito pesadas. O segundo teve início a 6 de agosto com o desembarque de reforços na Baía de Suvla.
Desembarque na Baía de Suvla (6 de agosto)
O General Hamilton utilizou para esta operação as recém-chegadas cinco divisões que estavam organizadas da seguinte forma: as 10.ª, 11.ª e 13.ª Divisões formavam o IX CE (Corpo de Exército) que foi reforçado pelas 53.ª e 54.ª Divisões. O comando desta força foi atribuído ao Tenente-General Sir Frederick William Stopford (1854-1929), uma escolha de Lorde Kitchener, não do General Hamilton [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 69].
Com estas unidades, o General Hamilton tinha à sua disposição cerca de 120.000 homens divididos em treze divisões. Se estas estivessem completas teriam pouco menos de 200.000 homens. Estes números mostram-nos as enormes quebras de efetivos que as unidades sofreram na Península de Galípoli. É natural que as unidades recém-chegadas estivessem mais completas do que as que já tinham participado em alguns combates, mas a experiência e o treino recebido eram muito diferentes. As divisões do IX CE tinham origem no New Army, ou seja, eram unidades que se previa estarem prontas para entrarem em combate em 1916, mas as circunstâncias obrigaram a empenhá-las muito mais cedo. As 53.ª e 54.ª Divisões eram unidades territoriais (Territorial Forces), inexperientes e com menos treino que as unidades regulares.
O Tenente-General Stopford não tinha experiência de combate. Ao longo da sua carreira esteve presente em vários conflitos, no Egito (1882), no Sudão (1885), na Costa do Ouro (1895), na Segunda Guerra dos Boers (1899-1902), mas sempre em funções de ajudante de campo ou de oficial do estado-maior. Era Tenente-General, comandante do Primeiro Exército da Home Force, no Reino Unido, quando foi nomeado para comandar o IX CE.
Churchill pretendia que estas unidades desembarcassem no istmo de Bulair, mas esta ideia foi rejeitada pelo Vice-Almirante De Robeck porque a ação dos submarinos alemães no Golfo de Saros tornaria a operação demasiado perigosa. O General Hamilton pretendia reforçar as forças na testa de ponte criada em Anzac Cove, mas o espaço não era suficiente para as tropas que já ali se encontravam e muito menos para mais cinco divisões. Foi então escolhida a Baía de Suvla, cerca de 8 km a norte de Anzac Cove. As defesas na Baía de Suvla eram fracas e a praia ficava a cerca de 6,5 km do terreno elevado. Um desembarque bem-sucedido em Suvla, seguido de um avanço determinado sobre o centro da península, em conjugação com as ações a partir de Anzac Cove, poderia proporcionar o sucesso não alcançado desde abril desse ano.
[Ver Mapa - Os locais de desembarque estão sinalizados por setas, e a frente de guerra, pela linha preta. A Enseada de ANZAC é “ANZAC COVE”; No mapa foram assinalados os desembarques em Suvla Bay a 6 de augosto de 1915. Imagem em https://medium.com/destrinchando-battlefield/galipoli-a9439a92010, visto em 2025.11.29]
Hamilton disponibilizou embarcações de desembarque blindadas conhecidas como beetles, construídas para o efeito, aumentou as ações de observação aérea com balloon ships (dirigíveis) e hidroaviões transportados em navios. Como o apoio de fogos navais tinha diminuído consideravelmente com a retirada dos principais navios devido à ação dos submarinos, foram utilizados "monitores" armados com canhões de 14 polegadas e com blisters ou torpedo bulge nos lados (estruturas laterais adicionadas aos cascos dos navios) para minimizar o impacto dos torpedos [Ver https://warhistory.org/@msw/article/royal-navy-monitors-in-the-gallipoli-campaign]. Também foram utilizados três antigos cruzadores que foram equipados de forma similar. A artilharia de campanha à disposição dos Aliados rondava as 124 bocas de fogo, mas metade encontrava-se em apoio das forças em Helles. Uma brigada de obuses foi enviada para a região, no final de julho, mas não chegou a tempo de apoiar o ataque. [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 70]
Em agosto, Liman von Sanders mantinha três divisões na costa asiática, em Kum Kale. Os serviços de informações turcos previram, pelo movimento de tropas e materiais, que seria realizada uma nova ofensiva. Para enfrentar os prováveis desembarques, Liman von Sanders distribuiu as suas divisões da seguinte forma [HAYTHORNTHWAITE, 1991, pp. 70-71]:
- Três divisões na costa asiática, em Kum Kale;
- Três divisões em Bulair, o istmo da península, sob o comando de Feizi Bey;
- Três divisões na região de Anzac Cove, sob comando Essad Paxá;
- Cinco divisões na região de Helles, sob o comando de Wehib Paxá;
- Duas divisões a sul de Gaba Tepe, ligando as forças entre em Helles e em Anzac Cove.
A Baía de Suvla estava coberta por uma pequena força designada Destacamento de Anafarta.
O General Hamilton marcou o desembarque em Suvla para 6 de agosto. Em complemento aos desembarques, foram planeados dois ataques secundários para desviar a atenção do inimigo: um em Helles e outro a partir de Anzac Cove. O ataque em Helles, que deveria ser lançado apenas para fixar o inimigo nas suas posições e enganá-lo quanto à localização dos desembarques, acabou por se transformar numa nova tentativa para capturar Krithia e Achi Baba. Este ataque provocou muitas baixas e não houve movimentação de outras unidades turcas para reforçarem as forças em Helles. Nem sequer impediu a transferência da 4.ª Divisão turca para a região de Anzac Cove [HAYTHORNTHWAITE, 1991, p. 71].
As forças britânicas em Anzac Cove foram reforçadas com a 13.ª Divisão e a 29.ª Brigada Indiana. O General Birdwood, comandante do ANZAC, passou a dispor de cerca de 40.000 homens. Estes reforços desembarcaram nas noites de 4 a 6 de agosto. O plano a realizar por estas forças era, num ataque secundário, atacar as posições turcas em Long Pine, e no ataque principal, mais a norte, conquistar as posições de Sari Bair. A aproximação das tropas a Long Pine seria feita através de túneis subterrâneos que permitiriam aos atacantes desembocar quase diretamente nas posições turcas.
Long Pine caiu em poder dos australianos na tarde de 6 de agosto. Para isso, foi travada uma luta muito difícil contra trincheiras e abrigos bem construídos. Houve muita luta corpo-a-corpo. Os combates prolongaram-se até 9 de agosto com sucessivos contra-ataques turcos. As baixas foram pesadíssimas. A 1.ª Brigada australiana, com 2.900 homens, sofreu 1.700 baixas. O 2.º Batalhão da brigada sofreu 74% de baixas. Num ataque a Russell's Top, a 7 de agosto, a 3.ª Brigada de Cavalaria Ligeira, com 600 homens, teve mais de 400 baixas. O avanço para Sari Bair foi demorado e, entretanto, os turcos reforçaram as suas posições nessa área. Uma liderança deficiente das forças aliadas, um terreno difícil e uma defesa aguerrida por parte das forças turcas impediram o sucesso da ofensiva. Os combates prolongaram-se até 10 de agosto e as forças aliadas sofreram cerca de 12.000 baixas. A testa de ponte em Anzac Cove foi, no entanto, ligeiramente alargada. A gestão destas ofensivas não respeitou o seu objetivo original, o de dar cobertura aos desembarques em Suvla [HAYTHORNTHWAITE, 1991, pp. 71-73].
[Ver mapa do traçado das trincheiras dos Aliados (a vermelho) e dos Otomanos (a verde) na região de Suvla. Imagem em https://aegeanairwar.com/articles/came-down-suvla, visto em 2025.11.29]
Na baía de Suvla, foram escolhidas três praias, "A", "B" e "C", para o desembarque do IX CE. A separar a praia "A" das praias "B" e "C" está o Lago Salgado de Suvla (Tuz Gölü), seco no Verão. As forças que defendiam esta área, o Destacamento Anafarta, sob o comando do Major Willmer, alemão, não eram numerosas e parte delas pertencia à Gendarmerie de Galípoli e Baroussa. Foi calculado que seriam dominadas sem grande dificuldade.
A ordem de operações de Hamilton para Stopford estabelecia que o seu principal objetivo era desembarcar as tropas e só então considerar avançar para conquistar as colinas que dominavam a praia e apoiar o ataque do ANZAC a sul. O desembarque começou ao fim da tarde de 6 de agosto.
As primeiras forças a desembarcar foram as 32.ª e 33.ª Brigadas da 11.ª Divisão. Desembarcaram na praia “B”, como planeado, e apoderaram-se de Lala Baba. A 34.ª Brigada da 11.ª Divisão devia desembarcar na praia “A”, mas erraram a praia e desembarcaram mais a sul, no braço de terra que separa o Lago Salgado do mar. Na manhã de 7 de agosto, das 30.ª e 31.ª Brigadas da 10.ª Divisão, que deviam desembarcar na praia “A”, algumas subunidades fizeram-no mais a norte e as restantes na praia “C” e a situação ficou muito confusa. O comandante do IX CE, General Stopford, exerceu o comando das operações a bordo do HMS Jonquil [vendido em maio de 1920 a Portugal, tornando-se o navio de guerra português NRP Carvalho Araújo, desativado em 1959]. Após os desembarques iniciais, sem baixas, as forças defensivas mantiveram as praias sob fogo contínuo. Ao entardecer do dia 7, a 31.ª Brigada da 10.ª Divisão conquistou “Chocolate Hill”. A posição foi ocupada pelas 20H00. Até essa altura, o comandante do IX CE ainda não tinha desembarcado. Com uma perna lesionada, não acompanhou Hamilton que desembarcou para seguir as operações de perto.
Foram distribuídas ordens para um ataque no dia 9. O tempo decorrido entre o desembarque e a ordem para o ataque permitiu aos turcos receber reforços e organizarem melhor a sua defesa. As forças aliadas encontraram os reforços turcos preparados para defender as suas posições. Tal como tinha sucedido em Helles, as tropas começaram a cavar trincheiras e abrigos para defenderem o terreno conquistado.
A 12 e 15 de agosto foram lançados novos ataques, sem sucesso. Depois, o General Hamilton retirou o comando do IX CE ao General Stopford que foi substituído pelo Major-General de Lisle, que tinha comandado a 29.ª Divisão em Helles. Esta nomeação provocou reações de outros oficiais. O Tenente-General Sir Bryan Thomas Mahon (1862-1930), comandante da 10.ª Divisão, desembarcada em Suvla, era mais graduado que de Lisle [Tenente-General é um posto acima de Major-General] e, por isso, recusou servir sob o comando do Major-General de Lisle e abandonou o comando da 10.ª Divisão. O Major-General Frederick Hammersley (1858-1924), comandante da 11.ª Divisão, foi retirado da linha de frente em estado de colapso e foi substituído pelo Major-General Edward Fanshawe (1859-1952) [HAYTHORNTHWAITE, 1991, pp. 81-82].
O General Hamilton planeou um novo ataque em Suvla. Para reforçar as forças ali existentes, transferiu a 29.ª Divisão de Helles. No entanto, as baixas e as doenças tinham enfraquecido muito esta divisão. Foi reforçada com a 2.ª Divisão Montada do Egito que atuou como infantaria. O ataque foi lançado no dia 21 de agosto, sob o comando do Major-General de Lisle, embora o General Hamilton estivesse presente. A artilharia era insuficiente para bater as trincheiras turcas e o nevoeiro dificultou o tiro. A falta de visibilidade também dificultou a orientação das tropas e a coordenação entre as unidades. As forças britânicas que atingiram os objetivos foram batidas pelo fogo da artilharia turca. Os atacantes foram obrigados a regressar às suas posições, com cerca de 5.300 baixas. Só em Anzac Cove foi conquistado algum terreno e, desta forma, foi possível criar uma frente contínua que englobava também as forças em Suvla. Esta foi a última batalha da Campanha de Galípoli. Os combates que se seguiram foram de pouca importância.